domingo, 2 de julho de 2017

A ignorância tem luz verde

O incêndio de Pedrogão Grande veio expor uma série de idiossincrasias que marcam de forma iniludível a matéria de que é feita a classe dirigente em Portugal. Já muito foi dito sobre o que as reacções de todos (Presidente, Primeiro-ministro, entidades da Protecção Civil, etc) revelam. Eu gostaria de realçar um aspecto. A facilidade com que a ignorância se sobrepõe ao conhecimento e a resultante falta de visão de longo prazo que impede a escolha de estratégias acertadas.


Não tenho um mínimo conhecimento sobre a gestão de florestas, sobre o fogo, ou sobre como prever ou combater incêndios. Mas sei bem percepcionar quem entende sobre o assunto e quem dele nada entende. O domínio das matérias, o à-vontade e facilidade com que uns discorrem opõem-se outros com máximas de ocasião (do tipo “nem mais um eucalipto”). Ao distanciamento e frieza sobre o objecto em análise tão úteis à compreensão dos fenómenos e potenciação do conhecimento opõem-se outros que falam de alto e de conclusão rápida. Lendo Henrique Pereira dos Santos e o engenheiro social Francisco Louçã ficamos com uma clara noção dos diferentes estilos à disposição do decisor político.


Para mal de Portugal a ignorância tem luz verde. Teve-a no passado e temo bem que nem 64 mortes sejam suficientes para que a deixe de ter no futuro. Ao espaço mediático, onde chafurda a ignorância com as pseudo soluções de curto prazo, opõem-se o espaço discreto, onde melhor floresce o conhecimento. Enquanto este último assusta o nosso decisor político, o primeiro dá-lhe o refúgio e o conforto que o incómodo da situação exige. Até já se promete legislação à pressa e “nem mais um eucalipto”.


Este modelo reactivo e preconceituoso é evidentemente estúpido, pois por definição não ataca os problemas na raiz e tende ainda a produzir outros efeitos nefastos. Mas por os acontecimentos estarem sempre um passo à frente dos ignorantes e todos aqueles que não tem um mínimo de perfil para ocupar cargos de responsabilidade, e por ser da natureza humana a necessidade de ter de fazer qualquer coisa, e sabendo ainda que o desassossego e outros sobressaltos são o calvário do ignorante e o seu socorro é prioritário, este modelo passa como a resposta unitária destas almas.


Nas últimas décadas a ignorância, jactância, e o dinheiro fácil levaram-nos a priorizar o combate ao incêndio em lugar da sua prevenção. Hoje é mais fácil de perceber o porquê. A gestão da floresta implica a adopção de doses elevadas de conhecimento com tradução práctica, estratégia, gestão multidisciplinar, prevenção, e trabalho de bastidores. Tudo tópicos que a classe política não trata propriamente por tu. Já a prioridade ao combate implica meios vistosos, palco, inaugurações, grupos de pressão, e contractos. Tudo aspectos que a classe política não só trata por tu, como são também aqueles que melhor casam com as suas agendas.


Por esta altura, calmada a jactância com a restrição financeira, o incêndio de Pedrogão Grande vem-nos evidenciar a outra faceta que os partidos têm para oferecer, a ignorância. Ou talvez pior, porque a montante, vem-nos revelar a matéria torpe e insuficiente de que são feitos muitos que de lá emanam quando o vento não lhes sopra pelas costas. Quando se precisa de um pedido formal de desculpas políticas por parte do Primeiro-ministro (não confundir com assumir culpas) por o Estado ter falhado, este surge preocupado com a popularidade. Quando se precisa de uma Ministra da Administração Interna forte, surge uma ministra de aparência demasiado frágil e com uma expressão de medo e assaz titubeante.


Nada disto é de estranhar. Falta de carácter e perfis desajustados caminham bem com a ignorância.


 


Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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