domingo, 18 de junho de 2017

Da responsabilidade moral e da irresponsabilidade

Hesitei em escrever este post, por respeito pelas vítimas e pelo risco de ser entendido como a utilização da morte de terceiros para obter ganho de causa.


Ou melhor, ontem à noite, quando me deitei, não sabendo que havia mortos nos fogos que estão a ocorrer, tinha planeado escrever hoje de manhã um post sobre a responsabilidade moral nas tragédias que ocorram nos incêndios de Verão.


Não porque seja possível evitar todas as tragédias, mas porque estas tragédias, previstas repetidamente por quem estuda seriamente a gestão do fogo, são enormemente potenciadas por uma doutrina de gestão de fogo completamente absurda face ao que hoje se sabe.


Países como os Estados Unidos, a Austrália e outros com territórios no lado Ocidental dos continentes, perto do paralelo 40 (como é o nosso caso), há muito que abandonaram a ideia de suprimir o fogo e insistem em políticas de gestão do fogo através da gestão dos combustíveis.


Mesmo noutros contextos geográficos, há a adopção de mudanças substanciais na doutrina, como fez recentemente o Ontário (depois de um fogo, de características diferentes dos nossos, de meio milhão de hectares).


O problema central é que em Portugal parece ser admissível que um governante diga, como terá dito ontem o secretário de estado da administração interna, que o comportamento do fogo não se prevê, o que há é uns académicos com umas teorias sobre isso.


Tal como parece ser normal o presidente da liga dos bombeiros, que há anos que diz disparates sobre a gestão do fogo (incluindo o clássico "nunca um fogo ficou por apagar"), aparecer sistematicamente nestas situações a repetir a defesa de opções erradas e que estão na base de tragédias como a desta noite.


E que o presidente da AIMMP seja sistematicamente convidado para falar de fogos, com um discurso completamente ignorante e absurdo sobre incendiários, sem qualquer ligação com a realidade conhecida e estudada.


E que o presidente da Protecção Civil diga que correu tudo bem num ano em que há um fogo de trinta mil hectares, tendo como objectivos para o ano seguinte (2017) não ter perdas de vidas.


E que qualquer presidente de Câmara diga que não sabe como é possível o que está a acontecer, quando qualquer curioso que estude o assunto com um mínimo de atenção, e recorrendo a quem sabe do assunto, lhe explica em três tempos que em condições meteorológicas extremas o seu concelho vai ser palco de uma tragédia, mas que isso tem solução se se quiser empenhar nas políticas de gestão de combustíveis a sério, em vez de fazer declarações patetas sobre as origens dos fogos.


Estes senhores são moralmente responsáveis por transformar os bombeiros em carne para canhão, quer defendendo e aplicando a doutrina do Portugal sem fogos, quer mantendo uma estúpida oposição à profissionalização dos bombeiros e respectiva integração entre gestão de combustíveis e combate.


Tal como declarações totalmente irresponsáveis de académicos respeitados, mas que nunca estudaram ecologia e gestão do fogo, bem visíveis neste artigo de 2010 (refiro-me, naturalmente, às declarações irresponsáveis de Helena Freitas, e não à sensatez habitual de Paulo Fernandes, que infelizmente é menos ouvido no país, e pelos decisores, do que seria bom para nós), ajudam a suportar a ideia estúpida de que o fogo é um inimigo que pode ser vencido, em vez de olhar para o fogo como um elemento natural que precisa de ser gerido de forma economicamente sustentável, em que o Estado se empenha em suprimir as falhas de mercado de um sector com graves problemas de competitividade na maior parte do território.


Por respeito e em memória das vítimas decidi pois escrever este post, dizendo que o fogo é previsível, estas tragédias são uma questão de tempo até se repetirem se mantivermos a doutrina do "Portugal sem fogos" e se insistirmos em assentar a gestão do problema em corpos de voluntários sem qualquer ligação com a prevenção estrutural feita no Inverno.


Nada me move contra os corpos de voluntários, são muito úteis e, provavelmente, imprescindíveis, mas precisam de uma estrutura profissional que conheça o território, crie e conheça oportunidades para parar os fogos onde podem ser parados e que enquadre devidamente a generosidade dos voluntários.


Já chega de pura irresponsabilidade e de um discurso obscurantista que desvaloriza o conhecimento existente e a sua aplicação em contexto real.

11 comentários:

  1. Eis o que escrevi noutro Blogue, a propósito deste assunto:

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  2. Henrique, no meio dessa floresta de insultos e muita adjetivação, num emaranhado que não se percebe (não falta aí limpeza de matos?) vai repetindo essa coisa da gestão de fogos. Isso é adequado nas matas do Estado, quando muito, dependendo do território. Em tempos, colocou aí um video do USFS sobre a virtude dos fogos, esquecendo-se que se refere às florestas nacionais (federais) americanas, por razões ecológicas. Agora, primeiro, olhe para os mapas de cada um dos territórios, incluindo o povoamento, e pense se isso seria razoável nas nossas matas nacionais. Mas, sobretudo, pense se essa filosofia da gestão de fogos se aplicaria às propriedades privadas de municípios como Pedrogão Grande, ou qualquer outro.

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  3. Amigo tiro ao alvo, vem de tirar um curso rápido de gestão florestal? Está pronto para se dedicar à pastoricia? Vendo-lhe barato um eucaliptal e coloca isso em prática. Só tem que me dar dois ou três cabritos por ano e uma cabra velha, para a chanfana.

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  4. Mal vi as notícias deste fogo, de imediato recordei todos os posts que Henrique aqui escreveu sobre o assunto. Algo tem de mudar. Não pode continuar este obacurantismo...

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  5. Toda a gente sabe que o problema dos incendios só se resolve com a redução e ordenamento do material combustível nas matas. Toda a gente sabe que com os actuais recursos tecnológicos e com a orografia do terreno, na maior parte do território, a limpeza das matas não é economicamente viável, no minifundio, se não for realizada de forma contígua. Vejo algumas soluções possíveis: valorizar os resíduos florestais a um preço que viabilize a sua recolha e transporte a lugares de processamento (paga contribuinte), ou reduzindo os custos de recolha subsidiando o combustível e diminuindo encargos sociais para os sapadores (paga contribuinte), transformar áreas florestais em área de pastagem com viabilização da exploração pecuária (paga contribuinte), implementação de um programa público de limpeza de matas (paga contribuinte). Há uma maneira do contribuinte escapar de pagar em dinheiro a oportunidade de ter o território rural ordenado, gerando empregos, exportações, seguro e atraente para lá viver ou visitar, fixando carbono,... É criar um regime de serviço cívico obrigatório, extensível a voluntariado de outras idades, em que todos os jovens em idade militar ocupariam alguns dias do ano a roçar mato. Julgo que esta última solução traria também alguns benefícios quanto a desenvolvimento de sentido comunitário e cívico na sociedade.
    Todas as outras soluções me parecem gastar mais dinheiro e saúde aos contribuintes.

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  6. Será que o Renato conhece o Gerês? E nunca ouviu falar de incêndios em terrenos à guarda do Estado? Onde vive o Ricardo?
    Nacionalizar os terrenos abandonados, sobretudo os representam risco de incêndio, é isso mesmo que está a ser pensado pelo actual governo, e eu concordo inteiramente com uma medida deste género.
    Pela minha parte não vale a pena continuarmos a falar deste assunto. Fique o Ricardo na sua, que eu fico na minha. 

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  7. NG, não é preciso serviço cívico algum. Portugal tem muitos malta à espera de trabalhar. São pagos por mim e por si. Vivem em hotéis de qualidade. Três pratos por refeição. Autorizados a fumar, Fornecidos de 'drogas' se tal for convenienta. Muita TV à borla. E mais que me envergonho de escrever. Mandem-nos com atiradores a guardá-los (como os EUA fazem há anos) limpar a floresta — e, já agora, a imundície deste país.

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  8. Acho que não. A limpeza da floresta é uma actividade nobre. Não pode ser nenhum estigma.

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  9. Concordo com JSP. Lapide-se. Ou melhor, lapidem-se. Foi moda nas 'civilizações' do próximo-oriente e está outra vez muito in.

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  10. Perdoe-me, mas não encaro o trabalho como estigma. Os nobres que são nobres, também têm que trabalhar.
    Há anos que se legisla por esse mundo, para tirar o estigma do encarcerado, por mais bem tratado que ele tenha sido.
    E eu não daria emprego a um tipo socialmente sujo porque não o deixaram 'limpar'.

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