É muito cedo, as coisas podem ainda mudar muito (veja-se o Porto) mas, neste momento, acho que os amigos de Costa, de tanto o amarem, lhe criaram uma armadilha de que será difícil escapar-se.
Passos Coelho, desde muito cedo, baixou as expectativas sobre as autárquicas, e logo os amigos de Costa trataram de anunciar, urbi et orbi, que estava ali a demonstração da sua fraqueza e fragilidade, a confissão da derrota anunciada que o iria obrigar a demitir-se (antes das autárquicas, para evitar a derrota, ou depois das autárquicas, em consequência da derrota, variava conforme os amigos que falavam).
Há meses que qualquer percalço de Passos Coelho na mercearia das autárquicas era visto como mais uma demonstração da sua incapacidade e da derrota antecipada.
Pelo contrário, no PS havia uns arrufos, questões de personalidades locais, mas António Costa pairava soberanamente sobre tudo isto, orientando, com soberba capacidade, a gestão dessas pequenas questiúnculas, razão pela qual as autárquicas seriam (e serão) um mero passeio triunfal para Costa.
Mesmo no meio da confusão do Porto, o jornal I é claro a vincar os dotes quase sobrenaturais de negociador de Costa: "Em contagem decrescente para a convenção autárquica de hoje, na qual o Porto será inevitavelmente o centro de todas as atenções, António Costa pode acabar por ser forçado a apresentar um candidato. Mas tentou ao máximo evitar esse cenário, usando os seus conhecidos dotes de negociador". Se não funcionaram neste caso, é apenas porque outros foram absolutamente incapazes, Costa não tem qualquer responsabilidade no caminho que levou o PS até aqui no Porto.
Com isto tudo, as expectativas gerais vão no sentido de que, com Porto, ou sem Porto, Costa vai ter um resultado inequívoco nas autárquicas, demonstrando o apoio do povo à solução governativa que existe.
E é aqui que a porca torce o rabo: ganhar qualquer coisa nas autárquicas é bom para Passos Coelho, mas perder não é dramático, ganhar de forma clara é vital para Costa e perder é um desastre.
Só que Costa parte de um resultado extraordinário do PS nas últimas autárquicas e tem garantido uma perda de votos substancial em Lisboa (Medina não é Costa) e uma perda substancial no Porto, o que lhe deixa uma estreitíssima margem para dizer que ganhou as eleições e que o apoio do povo a esta solução se tem vindo a reforçar.
Percebe-se que a intenção dos amigos de Costa era fazer uma pressão tal sobre Passos Coelho que a sua demissão fosse inevitável.
O problema é que, aparentemente, Passos Coelho resistirá e, mesmo perdendo substancialmente, pode ganhar na percepção dos resultados, o que é razoável para Passos Coelho e o pior cenário para Costa.
Com amigos destes, Costa pode até dispensar os inimigos.
Ah, entendo. Passos, mesmo perdendo, ganha. Portanto vai ganhar, de qualquer forma. Isto é o que se chama uma análise florentina notável (não se zangue, caro Henrique).
ResponderEliminar