terça-feira, 16 de maio de 2017

Incoerências discursivas

As afirmações recorrentes de que a oposição ficou sem discurso porque as boas notícias sobre o país o desmentem, fazem-me lembrar as minhas recorrentes discussões sobre a conservação do lince ou sobre fogos florestais.


Na verdade, quer na economia, quer nos linces, quer nos fogos, a relativa irrelevância da nossa capacidade para conduzir processos complexos é tratado no discurso dos responsáveis sempre da mesma maneira: quando as coisas correm bem é porque somos muito bons e estamos a trabalhar bem, quando as coisas correm mal, é porque há uns factores externos que não controlamos que estragam tudo.


Não há pois grande novidade neste ponto: quando a população de lince aumenta é por causa da política de conservação e quando diminui é por causa das doenças dos coelhos; quando o ano vai favorável em matéria de fogos é por causa da boa gestão do dispositivo de combate aos fogos, quando vai desfavorável é por causa dos incendiários; quando a economia nos dá boas notícias é porque o governo tem as políticas certas, quando nos dá más notícias é a crise internacional ou a austeridade ou a herança que nos é imposta pelos outros.


A única curiosidade menos vulgar é haver um grande consenso de que as últimas notícias sobre a economia liquidaram  o discurso da oposição (até há um jornalista a falar em xeque mate) e, aparentemente, ninguém dar pelo facto de, pelo mesmo critério, o discurso do PC, do BE e da esquerda do PS sobre a dívida e a impossibilidade de haver crescimento sem reestruturar a dívida ou, pelo menos, alterar as políticas europeias, ter ficado completamente vazio.


Infelizmente para nós, o essencial não são estes jogos florais mas a realidade que é muito mais difícil de influenciar que o que nos pretendem fazer crer, exigindo trabalho continuado, de longo prazo e assente em informação tão objectiva quanto possível e com a profundidade temporal adequada.


Uma maçada.

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