sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Os amigos do "Zé das Sobras"

O primeiro governo de Guterres era, na verdade, um governo de coligação PS/ Independentes, em que a maioria dos ministérios dirigidos por independentes tinham um, ou mais, secretários de estado do PS puro e duro, para manter os independentes na linha (é conhecida a famosa queixa da alma mater desse governo, Jorge Coelho, sobre o facto dos independentes serem muito imprevisíveis).


No caso do Ministério do Ambiente, a então independente Elisa Ferreira trouxe do Porto um fiel escudeiro, também então independente (Ricardo Magalhães), reservando para si e para o seu escudeiro as competências reais do Ministério. Depois entregou ao comissário partidário do Ministério, José Sócrates, as coisas que não tinham importância nenhuma, embora lhe tenha atribuído o estatuto de secretário de estado adjunto, isto é, formalmente o segundo lugar na hierarquia do Ministério.


José Sócrates, nessa altura,atribuiu-se a si próprio, mais com o sentido político que o caracteriza que com o poderoso humor da ironia, a designação de Zé das Sobras, porque realmente as competências que lhe atribuiram eram mesmo as sobras do ministério (a que mais tarde ele conseguiu dar visibilidade e importância, muito para lá do que alguma vez Elisa Ferreira teria imaginado).


Dessa altura eram conhecidas dezenas de histórias, conhecidas e contadas em todos os níveis hierárquicos, sobre a forma como Sócrates funcionava.


Os seus motoristas, como acontece sempre nestas situações, eram uma das mais divertidas fontes de informação. Lembro-me de um dia me terem contado que Sócrates teria entrado no carro em Aveiro e dito explicitamente ao motorista que tinha uma reunião dentro de hora e meia em Lisboa, o motorista que fizesse como entendesse mas que ficasse claro que as instruções que tinha dele próprio é que deveria cumprir os limites de velocidade. "E agora vou dormir, acorde-me quando chegarmos, a tempo da reunião".


Gosto desta história por ilustrar bem a minha ideia de Sócrates, um mistificador para quem a realidade era um mero cenário em que se movimentava tendo apenas uma orientação: obter o que pretendia, atribuindo a terceiros as responsabilidades pelos problemas que poderiam resultar do não cumprimento das regras a que estava obrigado.


Qualquer pessoa que tenha trabalhado profissionalmente com Sócrates confirma, no essencial, esta visão sobre Sócrates, dividindo-se entre os que admiram profundamente a sua capacidade de transformar qualquer coisa numa vantagem, valorizando este aspecto como uma poderosa força transformadora, e os que entendem que os fins não justificam os meios.


Aquilo em que o que escrevi até agora neste post me parece ter alguma utilidade, neste momento, é na ajuda que dá para formular com clareza uma pergunta: qual é o grau de tolerância à manipulação e à mistificação que tem de ter quem o tenha acompanhado de perto no seu caminho de conquista e exercício do poder?


É que muitos dos que o fizeram estão hoje no coração da geringonça e do exercício do poder. Provavelmente mantendo a mesma imensa tolerância à manipulação da realidade com objectivos políticos.

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