O que eu gostava, para este ano e os seguintes, é que fosse definitivamente abandonada a prática jornalística do uso e abuso de fontes anónimas no noticiário político e social.
No livro de estilo do Público (desconheço se se mantém e se ainda existe) havia uma secção apropriadamente chamada "O jornalista não é um mensageiro". Nessa secção o livro de estilo do Público dizia: "c. O jornalista do PÚBLICO deve, sempre que considerar estar a ser objecto de algum condicionamento, recusar receber informações não atribuíveis ou "off the record". d. Quando se trata de opiniões, o PÚBLICO só reproduz as que forem atribuíveis a fontes claramente identificadas. e. O anonimato e o "off the record" só existem para proteger a integridade e liberdade das fontes, não são formas de incitamento à irresponsabilidade das fontes. f. O jornalista deve sempre confrontar a fonte que exige o anonimato ou o "off the record" com a real necessidade de tal exigência, não aceitando com facilidade a evocação prévia de tais compromissos sobre assuntos em que a fonte nada tem a temer."
Eu não poderia estar mais de acordo com estes princípios e uso uma pequena historieta para explicar porquê.
Um dia, numa reunião à porta fechada, Passos Coelho terá aconselhado os seus correlegionários a descansar bem nas férias porque depois vinha aí o diabo.
Um jornal (penso que o Público) ter-se-á feito eco dessa afirmação, citando fontes anónimas, isto é, irresponsáveis. Provavelmente o Público terá até confirmado que Passos Coelho terá dito isso, noutras fontes, igualmente anónimas.
Ora Passos Coelho, quando confrontado com a afirmação, pergunta se alguém o ouviu dizer isso. E não há ninguém, a não ser fontes anónimas, que confirmem a afirmação.
Mas a partir de certa altura, no debate público, passou a ser um facto que Passos Coelho terá dito que o Diabo vinha em Setembro (note-se que no que parece ser a notícia original sobre o assunto, nem sequer é bem isso que é dito, mas passemos por cima desse pequeno pormenor).
Em si, toda esta história tem uma importância muito relativa (ainda que Passos Coelho tenha dito isto, não é muito diferente do que há anos dizem o BE e o PC, que sem renegociação da dívida o diabo já cá está e vai permanecer), mas ilustra bem como o uso de fontes anónimas permite que qualquer pessoa que tenha a confiança de um jornalista, em quem outros jornalistas confiam, possa sair de uma reunião à porta fechada e criar um facto político que lhe seja conveniente, sem que tenha de assumir qualquer responsabilidade e sem ser confrontado com eventuais imprecisões de citação ou de contexto (há até uma célebre história com conselheiros de Estado, esses sim, obrigados a um dever de confidencialidade que alguns não respeitam, com a cumplicidade de jornalistas que aceitam reproduzir o que lhes é soprado, exactamente por não identificarem a fonte).
Na prática isto permite transformar jornalistas em mensageiros, jornais em orgãos de propaganda e debates em jogos de influência.
Que os governos sejam maus e não façam o que lhes compete, pode ser desagradável mas, apesar de tudo, os estragos são menores do que parece porque os governos mandam muito menos do que pensam (veja-se como o equilíbrio das contas externas, a questão essencial que levou ao programa de ajustamento, se tem mantido apesar do actual governo).
Mas que os jornais estejam transformados nisto, isso sim, é muito preocupante.
Parafraseando Jefferson entre um bom governo com maus jornais ou um mau governo com bons jornais, eu não hesitaria um instante em preferir o segundo.
Cada vez mais os jornais e TVs ou são propriedade -e panfleto- de um dos grupos de influência política, ou tentam subreviver pondo-se em bicos de pés num concurso de quem publica a manchete mais ridícula.
ResponderEliminarNos EUA títulos como o WP e NYT e as principais cadeias nacionais de TV destruiram-se como orgãos de informação credível, arrebanhados que foram pelos grupos políticos.
Mal ou bem o Presidente eleito, Trump, "triumphante" comunicou e comunica directamente com o cidadão eleitor via Tweet. Mal ou bem.
Mal ou bem os "donos da bola" nos clássicos orgãos de comunicação social -muitos ainda em estado de negação- seguem, para salvar significância, a reboque do "Tweetador em chefe". Grande "show".
Estas coisas, estas artes, estas modas, bem ou mal demoram a chegar cá, a Portugal.
Marcelo, ex-comentador, geração TV, descredibilizou-se ao antecipar-se à vinda de Cristo, com a sua candidatura.
Marcelo, Presidente da República, geração TV, colou-se ao Governo (sem necessidade, diga-se), às TVs panfletárias "as usual". Estava nos búzios e nas cartas.
Aguardam-se os "tweets" dos Credores e do FMI com notícias que vão fazer com que a gestão de PPC pareça um longíncuo conto de fadas.