sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O problema é do que fica à porta

"A terminar, uma pergunta: “está em condições de dizer qual foi o saldo orçamental corrigido de medidas extraordinárias?”


"insistiu, duas vezes. “Responda à pergunta, por favor”."


"“Terá a resposta quando o diabo cá chegar”."


O problema não é termos um primeiro ministro que responde assim, trata assim o maior grupo parlamentar, trata assim o parlamento e, consequentemente, trata assim as pessoas que pagaram os impostos de que se fala nesta discussão.


Estão cumpridas as formalidades democráticas, está garantido respeito pela lei, o primeiro ministro é absolutamente livre de funcionar desta maneira, ninguém obriga, felizmente, os governantes a terem um mínimo de decência, só estão obrigados a cumprir a lei.


O que é grave é que a sociedade, em especial os seus mediadores mediáticos (passe o pleonasmo), ouçam isto, vejam isto e passem por isto como se fosse mero passo de dança, uma troca de galhardetes, uma bandarilhada.


O que é grave é a complacência, nossa e da imprensa (ou da imprensa e nossa) para com a opção do primeiro ministro entender que não tem de prestar contas aos seus cidadãos, através dos seus representantes no parlamento.


O primeiro ministro trata-nos a todos, e aos senhores jornalistas, como mentecaptos que se calam com piadas e nós, e os senhores jornalistas (naturalmente todas as generalizações têm de ser entendidas nas suas limitações) damos-lhe razão, não lhe perguntando em lado nenhum como é possível que não responda a uma pergunta destas, nem lhe perguntam como convive com tamanha falta de respeito pelos seus eleitores, nem escrevem editoriais a explicar por que razões é que responder assim é diminuir a qualidade do debate democrático e bloquear os mecanismos de limitação de poder característicos das democracias liberais sólidas.


É legítimo que o faça, mas é incompreensível que não se lhe faça notar qual é o verdadeiro significado de o fazer: o senhor primeiro ministro não é uma pessoa decente.

11 comentários:

  1. É só mais um evento na longa narrativa de Costa sobre o a realidade das coisas. Que os políticos mentem e fazem spin é dos livros, mas Costa por vezes parece verdadeiramente tomar a descrição imaginada pela realidade, reagindo infantilmente quando apanhado a mentir, perdão, a apresentar com habilidade descrições sobre factos, números no caso. Não pode enunciar quanto é o défice sem medidas extraordinárias, informação do dominio público, porque isso destroi tudo o que verbalizou antes habilidosamente, e isso não é pouco, é o seu sucesso político. Entre outras manifestações desta sua personalidade política recordo a campanha que fez durante meses contrapondo o seu mérito de redução da dívida na CM Lisboa a Passos Coelho que aumentou a da República (omitindo o empréstimo da troika que o seu governo contratou e omitindo a receita extraordinária com os terrenos do aeroporto) até tropeçar na realidade num debate televisivo de forma confrangedora. Acho que é isso que acabará por suceder, inevitavelmente. 

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  2. O Nuno Garoupa fez uma acusação gravíssima sobre a classe jornalística ao dizer que seria bom saber quantos deles tinham spread zero no BES e ninguém tugiu ou mugiu.
    O senhor Costa e o senhor Marcelo "são deles".
    O resto que se lixe.

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  3. Confesso que não percebi a relação entre o seu comentário e o post. Pode explicar melhor a sua ideia?

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  4. Tem toda a razão. O nosso primeiro é dado a esses malabarismos. Estranho é que as pessoas conhecedoras da situação, do seu Partido  e dos outros, não reajam. Assim como é estranho o silêncio da Comunicação Social, embora comecem a aparecer algumas, poucas, vozes menos alinhadas e mais esclarecidas.

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  5. O diabo ainda não chegou.
    Portanto o promotor do Demo de Massamá, só tem de esperar sentado.
    E já agora o senhor também.

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  6. Não tenho partido nem nada contra os partidos, antes pelo contrátrio. Quanto à imprensa, funciona, não vivemos em ditadura. Como quase tudo neste país, vive encostada ao estado, estará sempre do lado do poder do momento, e, no fundo, nunca provocará ou impedirá a mudança de opinião política dominante, isso compete aos políticos profissionais.

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  7. O "diabo" chegou logo com a "geringonça" e tem vindo a fazer das suas !....
    O "diabo" está numa taxa de crescimento demasiado fraca e em taxas de juro da divida pública que mais do que duplicaram !...

     

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  8. Ainda bem, mais rápido a UE tem de acordar para a realidade.
    Os estudos estão feitos é só serem aplicados.

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  9. Quais "estudos" ?... Quando muito "propostas" de quem acha que cabe aos contribuintes dos paises que são melhor governados pagar ainda mais pelos erros e pelas irresponsabilidades dos paises mal governados !... 
    A UE não vai "aplicar" nada disto pelo que "acordar para a realidade" é os portugueses perceberem de uma vez por todas que "a salvação" não virá do além ou do alto mas sim daqui, do nosso esforço para pôr as nossas contas em ordem e para produzirmos mais e melhor !!
    E quanto mais depressa o percebermos melhor porque menos tempo será perdido, menor será o esforço e melhores serão os resultados ! 

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  10. Não é nada que, a concretizar-se, possa resolver os nossos problemas passando a factura para os outros paises europeus !...
    De resto, é uma iniciativa que diz apenas respeito ao sector bancário e deixa de fora a questão das dividas públicas.
    De qualquer modo, não é nenhum "almoço gratis" !...
    Suponho que, para além do titulo em letras gordas do JN, também leu o conteudo da noticia, nomeadamente :   
    "[] Os bancos poderiam vender parte do seu crédito malparado a esta empresa de gestão de activos "pan-europeia". Segundo o plano apresentado, os créditos seriam avaliados de acordo com o seu "valor económico real" – em vez do valor de mercado – e a empresa (uma espécie de "banco mau") teria cerca de três anos para vender esses créditos.
    (...)
    [Mas] o plano da EBA não prevê a partilha de riscos bancários entre os estados da UE, já que, se os créditos não forem vendidos e for necessária uma recapitalização, a "factura" será apenas dos credores do banco e do Estado de origem da instituição em causa."
    Temos mesmo de trabalhar para podermos sair da situação em que nos encontramos !
    Entretanto, continuamos a perder tempo e recursos com a conversa de que não é preciso porque mais dia menos dia a Europa nos vai pagar "o almoço" !!  

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