quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O dito por não dito e a imprensa

António Costa, com a habitual elegância e decência para com os adversários que caracterizam as suas intervenções na Assembleia da República, disse ontem "respeitar "muito quem como o PCP, BE ou PEV sempre foi contra esta medida e continua a ser contra esta medida". E que não tem "consideração por quem dá o dito por não dito, e que hoje não quer apoiar as medidas que no passado apoiou"."


Este António Costa é o mesmo que rasgou o acordo para a baixa do IRC, com o o argumento de que prioridade era apoiar as pessoas, não as empresas, depois apresentou um programa económico com uma forte baixa da TSU, depois no programa eleitoral do PS passou a fazer depender essa baixa da TSU para às empresas à consolidação de fontes alternativas de financiamento da Segurança Social, depois assinou (assinou mesmo, não fez declarações) dois acordos que garantiam o apoio ao seu Governo em que explicitamente se comprometia a não mexer na TSU das empresas e agora aprovou um abaixamento da TSU das empresas que paguem ordenados mais baixos, que era o que estava em discussão quando resolveu dizer o que está citado acima.


A questão não é tanto como é possível agir assim, isso é natural em António Costa, é-lhe uma segunda pele e há muito quem o felicite por isso, cantando loas às suas extraordinárias capacidades negociais e de flexibilidade.


Devo dizer que não acho excessivamente grave que um político funcione assim, muitas vezes é preferível um decisor mudar de opinião a manter-se coerentemente numa posição errada e o que critico em Costa não é o facto de não ter respeito por si próprio (isso é uma questão dele, não minha) mas o facto de tomar decisões erradas que me prejudicam, prejudicam o país e, sobretudo, que prejudicam os mais frágeis e com menos capacidade corporativa (os miseráveis, os desempregados, os velhos menos letrados e de baixos rendimentos, os filhos que nascem em famílias mais pobres e menos estruturadas, etc..).


A questão está em saber por que razão pode António Costa dizer estas cavalidades sem receio dos custos políticos e mediáticos de alguém as confrontar com um percurso como o seu.


A resposta é simples e hoje Manuel Carvalho ilustra-a na perfeição num página inteira do Público:


"Ligado ao Bloco e ao PCP, o PSD integra-se agora numa aliança espúria que serve apenas para provar que a política portuguesa se tornou ela própria uma interminável "geringonça" em que a previsibilidade é inexistente, a lógica improvável e os programas relativos".


Qualquer pessoa que leia apenas este prágrafo conclui, com toda a lógica, previsibilidade e sem qualquer relatividade, que há uma gralha no texto que fez sair um D a mais.


Mas não, quem leia o texto todo não tem a menor dúvida:


"Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
 
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes."

7 comentários:

  1. República Socialista Portuguesa: um socialista que muda de posição como um catavento é um "animal político"... já os protagonistas "da direita" que tenham semelhante comportamento, têm honras de abertura de telejornal denunciando a a sua falta de carácter...

    ResponderEliminar
  2. O Manuel Carvalho tem razão. O Bloco e PCP e PS, sempre foram honestos e coerentes. A aliança nunca foi um cheque em branco, isso nunca foi escondido. O PSD é que está  a ser uma surpresa, colando-se ao BE e ao PCP, votando as moções destes. Finjam agora que o PSD não vai ser afetado por isto. Depois até os votantes do PSD são cegos, não, não é?

    ResponderEliminar
  3. Sobre coerência: Costa assina acordos com bloco e verdes referindo, explicitamente, que não haverá qualquer redução da TSU...



    Sou fã desta governação. Não porque dela vá sair algo de bom, mas é tudo mais divertido...

    ResponderEliminar
  4. Se o Ps não consegue acordos com os partidos coligados e com quem assinou nas esquinas, então porque razão vetou o partido com mais votos e eleito pelos portugueses para governar?

    ResponderEliminar
  5. Blocos e verdes revoltados com quem votará favoravelmente a sua proposta? A Catarina Martins até elogiou o PSD por votar a sua proposta...
    E não fique tão divertido. Quem vai ficar mal na fotografia é o PSD. O CDS já se demarcou e diz que se absterá. Ponham a Cristas a chefiar o PSD.

    ResponderEliminar
  6. Vetou o PSD porque não queria alianças com o PSD. Cada partido faz as alianças com quem quer, como é óbvio. Quanto aos acordos com BE e PCP, passou o orçamento, viabilizando o governo. Esse foi o acordo mais importante. Não é portanto verdade que não consegue acordos.  

    ResponderEliminar
  7. Pois se o PS faz alianças com quem quer, assuma e negocie tudo com eles. Não esteja à espera que o PSD esteja sentadinho à espera para apoiar o Governo naquilo que os sócios não querem. Quem come a carne, fica também com os ossos. É assim em toda a parte.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...