O último post no facebook do Laboratório de Fogos Florestais da UTAD (um dos melhores sítios para ter informação actualizada e segura sobre fogos, em Portugal) é sobre um fogo que lavra há alguns dias em Espanha, numa zona onde habitualmente, por esta altura, há que faça umas férias de neve. O fogo continua, apesar de se registarem seis graus abaixo de zero.
Quando se juntam altas temperaturas, ventos fortes e baixas humidades, não há nada que possa fazer para um fogo a não ser a falta de combustível.
O que o Laboratório de Fogos Florestais faz notar, no seu curto comentário ao link com a notícia, é que as humidades baixas anulam o efeito das temperaturas baixas, permitindo fogos em dias muito frios, mas a inversa não é verdadeira: por mais quente que seja o dia, não arde grande coisa se a humidade for alta.
Já num post anterior do Laboratório se falava de um fogo de 300 hectares em Montemuro, entre o Natal e o Ano Novo.
No Sábado, numa iniciativa de uma associação a que pertenço, a Montis, quando se comentava este post olhando para as colunas de fumo que se viam para os lados de Montemuro (a 7 de Janeiro, com as temperaturas a variarem ao longo do dia entre os zero e os dez graus), Paulo Fernandes, que coordena o Laboratório da UTAD, referia ainda o registo de um outro fogo de 500 hectares agora no Inverno, também em Montemuro.
A Montis está a promover um conjunto de passeios em áreas ardidas no Verão, na zona das serras da Freita e Arada, onde arderam cerca de 30 mil hectares, com o objectivo de discutir o problema dos fogos fora do tempo em que tudo arde, procurando compreender melhor as raízes do regime de fogo que temos, de que forma podemos gerir melhor o fogo e de que forma está a evoluir a área depois do fogo. O próximo passeio, a 4 de Março, será sobre a evolução de núcleos de espécies invasoras pós-fogo.
Estes passeios têm juntado gente de diversas origens e formações, uns que gostam de passear, outros que se interessam mais tecnicamente pelos assuntos e têm permitido umas discussões informais interessantes.
Numa dessas discussões, quando perguntei a algumas pessoas mais ligadas ao combate se lhes parecia viável a ideia de que há fogos, em determinadas circunstâncias, em especial entre o Outono e a Primavera, que não devem ser combatidos, e que mesmo em épocas críticas é preciso deixar progredir o fogo, em algumas áreas, para aproveitar as oportunidades de combate criadas pela falta ou diminuição de combustível, permitindo que o ataque directo ao fogo seja mais eficaz, a resposta deixou-me preocupado.
Deram-me o exemplo de uma indicação técnica nesse sentido num fogo concreto em 2016, que o comando operacional não acatou: estavam muitos meios envolvidos no combate, incluindo meios pesados, e portanto a estrutura nacional de comando pressionava constantemente para que o fogo fosse extinto rapidamente, evitando que no sistema de informação de fogos florestais o fogo estivesse demasiado tempo "em resolução", sem que fosse extinto rapidamente.
O que arderia a mais não tinha a menor importância e o fogo teria sido extinto com muito menos esforço, muito mais segurança e muito menos recursos.
O que é preocupante é perceber como a estrutura de comando mais elevado na protecção civil está cada vez mais concentrada na gestão mediática do fogo, querendo a todo o custo apresentar menos áreas ardidas, fogos combatidos mais rapidamente, mesmo que isso signifique fazê-lo em piores condições e consumindo mais meios. Por isso se omitem referências aos fogos frios destes dias de vento Leste e baixas temperaturas, perdendo a oportunidade de fazer a pedagogia do fogo, perdendo a oportunidade de acompanhar estes fogos, a maioria fogos pastoris, perdendo a oportunidade para os enquadrar num sistema de informação eficaz que apoie o comando operacional quando, num Verão qualquer, e há sempre um Verão em que isso vai acontecer, seja preciso gerir um grande fogo na região.
Depois de cada ano de fogos catastróficos há sempre um fetiche político adoptado por políticos e comunicação social: depois de 2003 e 2005, era a desorganização do combate, que levou à reforma da protecção civil; mais tarde, era a limpeza das matas e a incúria dos proprietários, que levou a uma catrefada de legislação sobre obrigatoriedade de limpeza de terrenos e um sistema kafkiano e absurdo de autorização de queimadas; actualmente andam entretidos com os terrenos sem dono e com mais uma palete de diplomas legais, como se o problema da gestão da produção florestal fosse legal e não de competitividade, e como se o problema dos fogos fosse um problema de logística e organização, e não um problema de conhecimento e economia.
Infelizmente ninguém se lembra de fazer o que recentemente fez o Canadá: depois de um fogo terrível de meio milhão de hectares (meio milhão, 500 mil, não é erro, para se ter a noção de escala, Portugal tem nove milhões de hectares) adoptaram uma nova doutrina de gestão de fogo, tecnicamente sustentada na melhor informação sobre ecologia do fogo, abandonando finalmente as doutrinas de supressão do fogo e avançando no sentido da gestão do fogo, promovendo a queima para redução de combustíveis, deixando arder quando não estão valores em risco e o fogo, mesmo não controlado, serve os objectivos de gestão, etc..
Seria bom que em Portugal finalmente se alterasse a doutrina de fogo adoptada, se entregasse a gestão de fogos florestais a quem sabe de ecologia do fogo e não a especialistas em logística.
Quando se acabarem os fetiches político e mediáticos que têm permitido saltar de reforma em reforma, mantendo a doutrina, talvez estejam reunidas as condições políticas e sociais para deixarmos de medir o problema em hectares de áreas ardidas, e passemos a medir o problema em perdas (económicas, sociais ou ambientais) versus recursos alocados à gestão do problema.
Como contribuinte, eu agradeceria, como paisagista, eu também agradeceria, como pequeno proprietário, eu também agradeceria, como conservacionista, ainda agradeceria e como cidadão, eu votaria em conformidade.
Não percebo nada de fogos nem de gestão florestal, mas um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos foi Fire Season, de Philip Connors. É sobre uma realidade muito diferente da nossa (quanto mais não seja pela dimensão), mas pergunto-me se não haverá ali lições aplicáveis a qualquer realidade.
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