terça-feira, 11 de outubro de 2016

De táxistas e bombeiros ou que representam os que os representam?

Depois de ler este artigo de Paulo Ferreira ficou clara na minha cabeça uma ideia que ainda não tinha ganho forma suficiente.


Com frequência dizem-me que tenho um discurso anti-bombeiro, mas não me parece que assim seja, pelo contrário, insurjo-me, tanto quanto posso, contra uma doutrina de gestão de fogo que transforma os bombeiros em carne para canhão, que os leva a correr riscos absurdos, que não os defende prudentemente, como é a obrigação de um general defender os seus soldados.


O que me incomoda é ver um Jaime Marta Soares a fazer de Florêncio de Almeida dos bombeiros, sem perceber muito bem por que razão os bombeiros aceitam ser representados assim.


O que me incomoda é ver bombeiros a argumentar que a sua missão é simplesmente apagar fogos, descartando qualquer responsabilidade na gestão dos combustíveis, como alguém que aceitasse responsabilizar-se pelos travões do carro sem ter qualquer outra responsabilidade na sua condução.


Na verdade conheço muitos bombeiros que sabem, e dizem em privado, que Jaime Marta Soares é simplesmente absurdo no que diz, é um demagogo que nunca demonstrou qualquer especial capacidade para gerir sensatamente o problema do fogo no concelho de que foi presidente um ror de anos, tendo como troféu a sua colocação no topo dos concelhos que mais ardiam no país. Sabem bem que procurar apagar todos os fogos nascentes é uma loucura cara e perigosa. E sabem bem que são representados por quem não os sabe representar.


Bem sei que formalmente a Liga dos Bombeiros não representa os bombeiros, mas sim as corporações de bombeiros, mas quantas pessoas fazem essa distinção no espaço público?


Também sei a enorme distância que vai de uma actividade económica de má fama (grande parte injusta, diga-se), como o serviço de táxi, a uma actividade altruísta, feita por uma esmagadora maioria de pessoas que claramente são motivadas pelo serviço ao próximo. E sei da enorme distância que vai da hostilidade social (grande parte injusta) em relação aos taxistas ao enorme carinho com que a maioria das pessoas olham para os seus bombeiros, que consideram um porto de abrigo em qualquer aflição.


Mas apesar disso tudo, vale a pena replicar a pergunta: que raio de mecanismos sociais inventámos nós para que um Florêncio represente os taxistas, ou um Marta Soares represente os bombeiros?


Paulo Ferreira tem razão pelo menos num ponto.


A complacência para com o que condenamos em privado mas encobrimos em público, porque não queremos prejudicar um grupo de pessoas que não merece ser confundida com quem os representa tem, a prazo, uma consequência terrível: o crescimento da ideia de que os taxistas, em geral, são como Florêncio, ou que os bombeiros, em geral, são como quem os representa.

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