Com frequência dizem-me que tenho um discurso anti-bombeiro, mas não me parece que assim seja, pelo contrário, insurjo-me, tanto quanto posso, contra uma doutrina de gestão de fogo que transforma os bombeiros em carne para canhão, que os leva a correr riscos absurdos, que não os defende prudentemente, como é a obrigação de um general defender os seus soldados.
O que me incomoda é ver um Jaime Marta Soares a fazer de Florêncio de Almeida dos bombeiros, sem perceber muito bem por que razão os bombeiros aceitam ser representados assim.
O que me incomoda é ver bombeiros a argumentar que a sua missão é simplesmente apagar fogos, descartando qualquer responsabilidade na gestão dos combustíveis, como alguém que aceitasse responsabilizar-se pelos travões do carro sem ter qualquer outra responsabilidade na sua condução.
Na verdade conheço muitos bombeiros que sabem, e dizem em privado, que Jaime Marta Soares é simplesmente absurdo no que diz, é um demagogo que nunca demonstrou qualquer especial capacidade para gerir sensatamente o problema do fogo no concelho de que foi presidente um ror de anos, tendo como troféu a sua colocação no topo dos concelhos que mais ardiam no país. Sabem bem que procurar apagar todos os fogos nascentes é uma loucura cara e perigosa. E sabem bem que são representados por quem não os sabe representar.
Bem sei que formalmente a Liga dos Bombeiros não representa os bombeiros, mas sim as corporações de bombeiros, mas quantas pessoas fazem essa distinção no espaço público?
Também sei a enorme distância que vai de uma actividade económica de má fama (grande parte injusta, diga-se), como o serviço de táxi, a uma actividade altruísta, feita por uma esmagadora maioria de pessoas que claramente são motivadas pelo serviço ao próximo. E sei da enorme distância que vai da hostilidade social (grande parte injusta) em relação aos taxistas ao enorme carinho com que a maioria das pessoas olham para os seus bombeiros, que consideram um porto de abrigo em qualquer aflição.
Mas apesar disso tudo, vale a pena replicar a pergunta: que raio de mecanismos sociais inventámos nós para que um Florêncio represente os taxistas, ou um Marta Soares represente os bombeiros?
Paulo Ferreira tem razão pelo menos num ponto.
A complacência para com o que condenamos em privado mas encobrimos em público, porque não queremos prejudicar um grupo de pessoas que não merece ser confundida com quem os representa tem, a prazo, uma consequência terrível: o crescimento da ideia de que os taxistas, em geral, são como Florêncio, ou que os bombeiros, em geral, são como quem os representa.
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