Casamento - Foto Instagram minha
Sobre o Amor romântico sei dizer pouco: ao fim de quase 50 anos de leituras os testemunhos dos poetas deixam-me sem palavras, Filipe. Sobre o casamento acho que já sei alguma coisa. Que ninguém está tão pouco casado quanto um par de noivos à saída da Igreja - falta ainda tudo. Que é construção, é civilização, e por isso não é relativo aos apetites de cada individuo. Sei que o amor ajuda, mas precisa resistir às suas próprias sombras. Que é racionalidade, arte e projecto: eu estou aqui e quero chegar ali, àquela finalidade àquele final feliz. O Criar os filhos, sim. Dar-lhes educação. Construir uma casa. Partilhar um legado, ajudá-los a crescer, moldar-lhes as almas com boas memórias. Ter uma companhia, uma testemunha privilegiada de cada passo da existência de cada um. Alguém com quem escrever uma história. Alguém a quem ler histórias. Alguém com quem dormimos. Já pensaste a extraordinária cumplicidade de adormecer ao lado de alguém, Filipe? Pode isso ser banal?
Tive um amigo que até aos trinta e poucos anos já tinha casado quatro vezes - não sei se verdadeiramente chegou a adormecer com alguma delas. Na altura testemunhei a sincera paixão e entusiasmo com que ele seduzia a quinta noiva, de quem como é óbvio, dois anos depois se estava a divorciar – a pobre ficou um destroço. Era obrigatório casar? Não. Suspeito que o Amor romântico é egoísta, é auto-contentamento e ganâncioso, tem pouco a ver com Casamento que é fazer família. Suspeito que perder uma tarde de Sábado com a mulher na Baixa à procura de um candeeiro ideal para montar naquele canto da sala para onde parece ter sido projectado de propósito, vale tanto ou mais quanto uma noite num hotel romântico. Desconfio que a biblioteca que marido e mulher constroem, tem o dom duma bênção divina – não separe o homem aquilo que Deus uniu. Assim como o grupo de catequese de casais que religiosamente os dois frequentam todos os meses, há anos e anos a fio, e onde resiste um viúvo com uma cadeira de lembranças e saudade ao seu lado. Suspeito que muita gente achará esta perspectiva muito romântica. Que afinal me refiro ao Amor. Que isto não é possível sem amor. Ora, se tudo o que refiro não são histórias de amor, o amor não existe.
Hummm, não vejo entendo porque me constituis em pathos do ethos...
ResponderEliminarSeja como for, a herança clássica via assim o trilho, não é indispensável a herança cristã.
Caro Filipe:
ResponderEliminarTambém não sei (ou sei, que é por gosto) que trazes para aqui os Clássicos em confronto com o cristianismo. Mas tudo bem: o cristianismo funda a noção da sacralidade da criatura humana, inaugura a crença na liberdade individual, na igualdade moral fundamental dos indivíduos.
Porque o estoicismo tem uma longa história de aliança/conflito com o cristianismo, mas fica para outra altura, podes contar.
ResponderEliminarabraço tipo Adrien