quarta-feira, 9 de abril de 2014

Um livro especial em tempos de Europa


 


Foi para mim um privilégio estar presente mais uma vez numa sessão de “À Volta dos Livros” organizado pelo Instituto Amaro da Costa, uma série de encontros mensais para divulgação de obras de ciência política da sua Biblioteca. Ontem foi a vez de João Vacas no seu estilo eloquente e aficionado apresentar “Inventing the Individual - The Origins of Western Liberalism” de Larry Siedentop, uma obra que se nos afigura cativante e pertinente, sobretudo nestes dias em que a Europa se questiona não apenas acerca do seu futuro mas, também, acerca dos seus valores e das suas origens. 


O livro procura responder à pergunta “É mera coincidência que o secularismo liberal se tenha desenvolvido no Ocidente Cristão?” e demonstrar que a "revolução moral", decorrente do surgimento do cristianismo e da sua “descoberta” da igualdade ontológica do Homem, veio a determinar a revolução filosófica, política e social que conduziu à criação do Ocidente tal como o conhecemos. Nesse sentido, Larry Siedentop desafia-nos a repensar os argumentos que, recorrentemente, atribuem as origens da sociedade moderna e dos sistemas políticos contemporâneos ao Renascimento e ao pensamento Iluminista. O autor contra-argumenta que a génese do sistema “liberal democrático” surgiu muito mais cedo do que pretende a historiografia dominante: as raízes do liberalismo - a crença na liberdade individual, na igualdade moral fundamental dos indivíduos e em que esta deve conhecer materialização no plano político e institucional - são “intuições morais” nascidas com o cristianismo e maturadas durante séculos pelos pensadores e pelos políticos cristãos. Para Siedentop, “o liberalismo [contemporâneo] assenta nas considerações morais do cristianismo. Preserva a ontologia cristã sem a metafísica da salvação. (…) As fundações da Europa moderna residem no longo e difícil processo de conversão de uma reivindicação moral em estatuto social. E foi a prossecução da crença da igualdade das almas que tornou tal conversão possível. Daí brotou o compromisso com a liberdade individual.”
Decididamente um livro especial nestes tempos de pensar a Europa. 

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