(…) Há que atender à natureza do nosso regime político. Mais do que representativo, é distributivo. Poderes e influências assentaram sempre mais no domínio dos recursos do Estado, do que na mobilização da opinião. Por isso, desde que a crise abalou os mecanismos de distribuição, as instituições tornaram-se frágeis e as lideranças parecem efémeras. Neste momento, o terror dos oligarcas é que o eventual sucesso do ajustamento, num ambiente europeu favorável, ajude a consolidar o poder de um deles, como aconteceu a Cavaco Silva depois da austeridade de 1983-1985. A incerteza convém-lhes, porque mantém tudo em aberto, permitindo as mais variadas intrigas e fantasias. Já não há entre o pessoal político, quem não imagine que a crise o fará líder de partido ou presidente da república. Um acordo que limitasse a crise limitaria também essas possibilidades. (…)
Da crónica de Rui Ramos no Expresso
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