segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Temos o que merecemos

Como monárquico parlamentarista, ambiciono um País com instituições sólidas e credíveis, dinâmicas na adaptação aos desafios dos tempos, e resistentes aos conflitos sectários que resultam duma sociedade civil tão vigorosa e interveniente quanto tolerante. Mas tenho para mim que o Portugal de hoje, arruinado e deprimido, é exactamente aquilo de que os portugueses são capazes, e isso é algo frustrante para quem como eu ambiciona muito mais duma Nação com quase novecentos anos.
Ao contrário da maioria dos portugueses, não alinho em messianismos, e estou convicto que a solução para o meu país começa na minha atitude, está na minha casa e no meu trabalho. Ou seja, não é possível resolver o problema de fora para dentro: é uma completa fantasia ter uma economia competitiva, instituições estáveis e condignas, apenas mudando a arquitectura administrativa (coisa em que ninguém está interessado em mexer), sem uma profunda reforma das mentalidades que comece pela assunção por cada português da sua quota responsabilidade, seja pela sua vida, família, condomínio, paróquia, autarquia, clube desportivo, associação recreativa ou partido político. Toda e qualquer teoria ou projecto que não se fundamente neste pressuposto, está votada ao fracasso, e por isso temos aquilo que merecemos. Como referia José Joaquim Lopes Praça, intelectual português do século XIX preceptor dos infantes D. Luís Filipe e D. Manuel, "o génio da liberdade alimenta-se mais dos nossos costumes que do vigor das nossas leis".


Acontece que grosso modo, somos um povo indolente e sentimental, desconfiado e intolerante, pouco atreito à partilha de responsabilidades e aos desafios duma existência quotidiana de normalidade. Vivemos a idealizar um passado heróico e na expectativa da ressurreição dum Salazar ou dum D. Sebastião, cremos em mitos e revoluções, que corrijam todas as infâmias e injustiças… perpetradas pelos “outros”.


Sem jamais desistir com todas as minhas forças de assumir um protagonismo nos destinos da minha Pátria, estou cada vez mais convicto de que vivemos hoje uma realidade nacional atomizada, e que o meu País acaba à porta da minha casa, que o meu Portugal é cada vez mais uma sólida rede de amigos, famílias e de símbolos onde o reconheço plasmado. Uma rede que funciona como uma Arca de Noé onde se preservam princípios e ideais, ou seja, a Esperança. O resto é um território que se parece demais com um condomínio que dividimos e pagamos por mera necessidade e sentido prático. 


 


Publicado originalmente em Olhar Direito, para a série "Pensar o País". A seguir aqui.  

5 comentários:


  1. Quem lhe deu procuração para falar por 10 000 000 de pessoas?
    Porque está convencido que os conhece todos?
    Acha que são todos iguais?
    Sabe o que é preconceito?

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  2. sem dúvida .  mas assim de repente lembrei-me  de dois casos : uma horta comunitária nuns terrenos a que ninguém ligava e que foi arrasada pelos poderes públicos , uma escola abandonada recuperada pelos vizinhos do bairro e que teve a mesma sorte , ou seja ,  ou pomos na linha os empatas  ( que não querem perder o poderzinho )  ou não vamos lá.

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  3. O que aqui escrevo é evidentemente a minha opinião (aspecto bem explicito em vários pontos do texto para quem não sofra de iliteracia).

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  4. Quem não sofra de iliteracia sabe que um preconceito é sempre uma opinião. Só faltava que bastasse alguém afirmar uma barbaridade para ela se tornar verdade.
    Junto alguns preconceitos muito comuns a título de exemplo (não estou a retirá-los do seu texto):
    Quem me critica é iletrado.
    Os portugueses são pacíficos.
    Os portugueses vivem à custa do Estado.
    Os negros são estúpidos e preguiçosos.
    Os alemães são nazis e trabalhadores.
    Se eu for negro, português ou alemão as afirmações não se me aplicam ("Ao contrário da maioria dos portugueses")


     

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