quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sobre as boas maneiras

 


Faz-me alguma confusão a banalização duma  linguagem violenta e rasteira que prolifera  em cançonetas, filmes e programas de televisão, direccionados à juventude ou a uma certa classe social "alternativa". Basta ver um filme de acção americano para classe média, um qualquer standup rasco, bonecos animados para adolescentes, ou escutar as palavras dum irrelevante recitador de RAP, para sermos agredidos com a mais hostil gíria e descontextualizado insulto a tudo o que mexe.  Um dia destes vi na MTV, num reality show na moda entre os adolescentes, uma rechonchuda cachopa americana vilipendiando ao vivo a sua namorada traída; numa verborreia onde o epíteto “cabra” era o mais carinhoso dos adjectivos. Eram seis da tarde.


As boas maneiras não resolvem tudo, nem sempre contêm a semente de violência ou de auto-destruição que não raro brota na alma humana. Mas o pior é que as palavras e os símbolos nunca são só palavras ou símbolos; estão colados aos seus significados precisos que assim se exaltam. Estranho que a mesma adolescentocracia que tolera e trivializa estas aberrações “culturais”, vem a jusante chorar lágrimas de crocodilo e indignar-se com a violência doméstica, discriminação e outras enfermidades sociais que afinal alguma educação e valores teriam por certo resolvido ou atenuado.

19 comentários:

  1. Não vamos tão longe1 de setembro de 2010 às 18:24

    Não é preciso ir tão longe nem atravessar o Oceano.

    Basta andar por aí em locais públicos como, por exemplo, transportes e respectivas estações, para ouvir, claramente "ouvisto", o horripilante vocabulário empregue em voz alta por alguns grupos de adolescentes.

    PS- Uma coisa curiosa quanto à violência doméstica é que nunca são noticiados como violência doméstica os casos de violência doméstica no seio de casais homossexuais [esta do seio fica meio esquisita, mas enfim].

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  2. Ouvisto, vistes, comprar o «passo», bué, yo, tás fixe, ya, cota, vaia, deia, puse-o...Ai que saudades de dar aulas, entravam armados e saiam fritos.
    Mas com o chefe do executivo que temos e com um antecedente de sampaio, o pá, o porreiro, são bué da usados.
    Ressalvo, porém, que há as boas maneiras under do verniz, e quando este estala! Na América, o bitch e o biatch, yo bro, yo sis, são palavras de ordem, mas nem todos usam...
    Os mais velhos reprovam e repreendem, só que os snoopies da musica têm infelizmente muita influência nas palavras, que são adoptadas de imediato pelos modernaços.

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  3. Querido Amigo, Muito bom o seu artigo e é uma idéia importante essa que você está destacando. Mas acho que a frase abaixo está meio solta, faltando demonstrar melhor o que lhe ocorreu, acho que está faltando um "link" entre o que pensou e o que afinal escreveu quando disse 



    http://vidaemsociedade-sa.blogspot.com/ (http://vidaemsociedade-sa.blogspot.com/)

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  4. Senhor João Távora apesar de num plano ideal concordar consigo, penso que concordará comigo que as boas maneiras são historicamente uma qualidade de uma pequena porção da população, já a boa educação poderá ser um pouco mais alargada e incluir os conceitos como respeito pelos mais velhos e manter-se no seu lugar, que eram tradicionalmente seguidos de forma geral pela populaça, mas qualquer tipo de comportamento mais refinado e polido será sempre apanágio de uma relativamente pequena parte da população, pois a restante tentará papaguear os termos "bem" e imitar os comportamentos educados, até que algo aconteça que faça estalar o verniz e aí já não há nada a fazer.

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  5. Não é preciso atravessar o Atlântico: basta ler alguns dos blogues da lista "outros blogs"; alguns, parece que muito apreciados, não vão além do rol de palavrões e chalaças pretensamente graciosas.

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  6. Well done, Velho da Floresta !
    Eu não diria mais, nem melhor.

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  7. Ainda se fosse só isso2 de setembro de 2010 às 09:17

    Não é só isso, não.

    É o emprego a cada passo do palavrão, tanto por eles como por elas.

    E não é preciso alguém esforçar-se muito por ouvir; basta estar perto, mesmo que involuntariamente. 

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  8. Caro amigo, mas em Portugal é a mesma coisa, aquela série virolenta sobre o regicídio, cujo único mérito é apresentar o Luz de Almeida com um aspecto quase satânico de bigode retorcido para cima, tipo Dick Detestável, é certo que o Mestre Aquilino e o Afonso Costa são os heróis, mas não há sequer honra entre republicanos...
    Nessa séria surge linguagem vulgar e com o intuito de denegrir o rei D. Carlos.

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  9. Exacto "Velho". Eu até ia fazer um comentario sobre Gil Vicente, que não é propriamente nosso contemporaneo. Mas o "Velho" já demonstrou que a falta de "boas maneiras" não é  apanagio das novas gerações.

    EMS

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  10. E quem ensina as novas gerações? Quem deixa que as novas gerações sejam assim?

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  11. Não, efectivamente não é só isso, nem só o palavrão. Os juízos de valor sobre quem não se conhece, o insulto, a raiva, tudo o que efectivamente as boas maneiras mandam conter, são frequentemente projectados por quem se arvora em dono ou dona da educação.
     

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  12. Sendo certo, porém, meu caro que podemos até falar palavrões com conhecimento e com cultura. Alguns dos grandes palavrões que todos condenamos, quando proferidos com sentido ordinário, têm na sua origem o que nunca nos passaria pela cabeça e que à data da sua origem estava legitimado.

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  13. Vê-se à légua que não anda por aí, fora do condomínio fechado, ou se anda é surdo. E cego voluntário.

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  14. Viajar à noite num comboio de Sintra ou de Cascais aconselha-se vivamente.

    Circular por uma zona de divertimento noturno, como o Bairro Alto ou Santos, também faz muito bem.

    De preferência, experiências a fazer sem companhia.

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  15. Estou de acordo. Os palavrões fazem muita falta, sobretudo quando bem empregues. O que acho confrangedor é ver gente que parece não conhecer outro léxico e os emprega como a criança que acabou de os aprender. Sou professor e passo o dia a ouvir um na boca das raparigas e outro na dos rapazes. Duas palavras, ainda por cima repartidas por sexos,  é muito fraco conhecimento lexical. Sem falar na (im)pertinência do seu emprego.

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  16. Exactamente.

    Falou quem sabe e não se recusa a constatar a realidade.

    A rasquice a que se chegou é confrangedora.





     

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  17. Sim, concordo consigo. Naturalmente, que não me referia ao caso concreto que menciona, francamente desolador e preocupante. O que pretendi comunicar foi a origem de alguns «palavrões», que a muitos não passa pela cabeça e cujo uso adulterado levou ao sentido ordinário com que é grosso modo utilizado, minorizando, assim, o efeito que poderia alcançar-se num discurso - até escrito - de registo mais cuidado.

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  18. Ui, já fez e gostou. Diga-nos mais. É agora que estamos em week end de verão, um roteiro seria benvindo.

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  19. VIRULENTA! Faça cópias de vez em quando!

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