Sobre a injusta preocupação do Filipe Nunes Vicente a respeito do papel da Igreja Católica na praga da violência doméstica, ressalta-me um grave equivoco: é o de pensar que “estar no terreno” significa fazer “simpósios, reuniões, sessões de esclarecimento”. Para lá da intervenção social da Igreja com lares, comunidades e outras obras, tenho para mim que o problema, mais do que civilizacional ou legal, é existencial, um plano privilegiado para a actuação da fé. Não descurando a importância do debate sobre estas e outras chagas sociais, neste caso, tenho muitas reservas sobre a eficácia da “propaganda” (contra mim falo, é a minha profissão). Por exemplo, tirando os debates motivados pelos referendos, não tenho notícia que o tema do aborto tenha alguma vez sido assunto privilegiado nas homilias, ou especialmente referenciado pela hierarquia. Acontece que religião interfere a montante, coisa que a Igreja faz há dois mil anos: o apelo a um caminho de santidade, de conversão a Cristo, e que é a última razão de existirmos. Em todas as paróquias, de todos os púlpitos, confessionários; em todas as orações, o apelo é sempre o mesmo e só ganha materialidade com uma prática e consciência profunda: a conversão. Trata-se de um difícil caminho, diferente de pessoa para pessoa, para a liberdade; o milagre do camelo trespassar o buraco da agulha: não pode ser discurso, mas vivência. Tivesse o Filipe vontade e eu ilustrava estas palavras com algumas pistas: comunidades, paróquias, e verdadeiros Santos anónimos, cujo trabalho é verdadeiramente orgânico, ultrapassando em muito a esfera do “terreno”. A bondade é algo bem mais difícil de realizar do que recomendar aos outros, por isso a luta contra a violência doméstica só resulta eficaz se for travada dentro do coração das pessoas. E isso pode significar um longo e duro processo de descoberta do Amor.
Olá, João:
ResponderEliminarA minha contra-argumentação está na caixa de comentários do post ( assim não canso os leitores).
Pois é Filipe, certamente reparou que eu aqui respondo também aos seus contra-argumentos na caixa de comentários - li-os com atenção.
ResponderEliminarAbraço
«A bondade é algo bem mais difícil de realizar do que recomendar aos outros».
ResponderEliminarNão.
Indubitavelmente, se o coração estiver limpo de rancor, da tristeza, da raiva, e de todas essas vicissitudes da vida humana ou terrena - pedras na nossa caminhada-, dar-nos- emos aos Outros de forma serena, sem qualquer dificuldade. Não é preciso força para isso. A coisa sai naturalmente! Nunca é difícil ser bondoso ou bondosa, se realmente assim se quer ser na vida.
Vêem-se recomendações de bondade, sermonários impressionantes, vê-se a «palavra» de Deus na boca de tantos, e basta atentar por vezes num simples acto ou numa simples frase para se ver que aquilo é tudo hipocrisia refinada, que só a tolerância - que não significa aceitação - consegue combater.
Gostaria de ler a sua «contra-argumentação», mas não acedo a ela. Any help on that, please?
ResponderEliminarA insinuações anónimas são uma coisa muito feia, de alma negra... enfim.
ResponderEliminarÓ João, vai desculpar, mas não me parece que rebata. É óbvio que não associamos líderes católicos ( dos grandes aos pequenos) ao combate de um dos piores inimigos da família, o que não significa que não existam palavras privadas e trabalhos meritórios.
ResponderEliminarVeja o link que a Ana Matos Pires recordou. QED .
ResponderEliminarobviamente que não.
ResponderEliminarCreio ter entendido o seu argumento.
ResponderEliminarMas, na minha opinião, este drama exige que se aja, o "estar no terreno" como refere o FNV. Não podemos esperar pela "conversão".
Era para mim, não me importo. O link é esclarecedor sobre a orientação geral. Podem sempre desenhar outra realidade ? Podem, mas com a minha cegueira não contam.
ResponderEliminarEu não sou ninguém para ensinar ninguém. Posso, contudo, sem qualquer pretensiosismo ou imposição de posturas, partilhar o que vou aprendendo.
ResponderEliminarCom a profissão que tenho, naturalmente que a violência doméstica acaba por aparecer como crime a processar. Aquela não se compadece com esperas. Há que actuar de imediato, até porque a vítima quando resolve falar, ou é descoberta, já é vítima há muito tempo. Parece que ganham uma certa admiração pelo agressor, imagine-se!! Porém, pode ajudar-se, mas tudo num esforço comum, onde todos devemos participar.
A Igreja católica como outra qualquer ajuda no que pode, fará o que pode, e a doutrina que o João Távora refere é a base de tudo. Acresce que a mesma não é exclusiva do catolicismo. Ela é de todos os humanos, se realmente quiserem melhorar e não persistir na maldade. Deus não tinha religião e Jesus também não. Simplesmente tinham Palavra e espalharam-na e continuam a fazê-lo. Aí sim, podemos falar de cegueira, pois quantos de nós não se apercebem da mensagem( eu incluída)?
Eu actuo, quando sei de casos de violência. Não me importo se sofrer consequências. Dessas tratarei depois, mas actuo. Isso é também actuar no terreno.
Sem querer contrariar o FNV, até porque se partilha da sua indignação pela violência doméstica - na verdade, por qualquer tipo de violência - penso que é exagerado dizer «com a minha cegueira não contam».
Nem sequer há espaço para isso. Num certo país que conheço bem, a violência doméstica baixou, a partir do momento em que o respectivo sistema penal começou a actuar. Quem bate é de imediato preso, sem qualquer ordem judicial, e depois logo se vê. Nesse país há associações para tudo e mais alguma coisa, e quem na realidade está interessado em actuar civilizadamente e com amor pelo próximo só tem que se inscrever.
Portugal precisa desse tipo de associativismo e apesar de um sistema penal que tornou o crime em causa público, precisa de dar mais força à autoridade. Isso é também actuar no terreno.
Educadinha