quarta-feira, 14 de abril de 2010

O cinismo - a nova religião de massas


Imagem roubada daqui


 


Também eu nalguns raros momentos de ócio venho espreitando uma ou outra série dos canais temáticos como os Fox e AXN: além do inevitável House, divertem-me em particular alguns policiais como "Lie to me", o "CSI Miami" ou "Ossos". Outras, como “Family Guy”, “American Dad” ou “Os Simpsons”, vejo acidentalmente com os meus miúdos adolescentes. Tal como acontece hoje no cinema de massas, nestes eficazes produtos de entretenimento, para além dum exacerbado relativismo moral, emerge uma nova regra que é quase absoluta: um modelo de herói cínico ou afectivamente traumatizado, com contextos familiares complicados e em permanente crise. Este é hoje o mais vulgar pano de fundo de qualquer filme de acção ou comédia: ele é crises conjugais, padrastos e madrastas em joguetes de sedução com crianças malcriadas, mergulhadas em jogos electrónicos ou de manipulação afectiva. Se para prender um leitor ou espectador é necessário algum sarilho, um acontecimento ou personagem invulgar, aquilo que aqui descrevo é uma uma estranha iconografia, meros cenários, sobre os quais uma determinada acção irá decorrer, seja cataclismo natural, invasão planetária ou investigação policial. 
Este é o destino dum alucinante percurso estético percorrido sob a liderança da literatura, com consequências na vulgarização do cinismo e na liquidação da esperança. Da requintada e fascinante “malvadez” de Flaubert, de Eça e tantos outros romancistas do Séc. XIX que exploraram novas perspectivas e densidades humanas, rompendo preconceitos e tabus, a estética d’hoje inverteu radicalmente os seus valores: sem originalidade ou densidade, o Homem e a Sociedade, desconstruídos, por norma são representados na sua mais negra perspectiva. Hoje, nesta complacente “modernidade”, o cinismo, a descrença e a obscenidade são o mote para consumo das massas, explorado até ao tutano nas mais reles revistas, séries e produtos de entretenimento, influenciando uma dinâmica humana depressiva e autodestrutiva, que, se um dia foi uma moda “chique” de algumas elites, hoje se revela uma óptica quase totalitária, tremendamente vulgar e cansada. 
De resto, entre a mosca que encontra o detrito num idílico campo florido e a borboleta que descobre a flor num pântano de detritos, a minha escolha é clara.

9 comentários:

  1. Caro amigo João de Távora, no AXN, no Sy Fy também existem séries de qualidade, por exemplo o Wearhouse 13, o Lie to me, o CSI NY, o Caprica, o Sanctuary, o NCIS, etc...
    Mas também vejo a Fox, por acaso o House, mas nunca o Lost, aquem a referência mais negativa do seu texto se aplica muito bem...

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  2. Caro Respública, agradeço as "dicas" dalgumas séries às quais eu me queria referir e cujo nome não me lembrava. Assim, explicitei-as no texto. 

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  3. Magistral. Borboleta, sempre. Boa bola, João.

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  4. Fantastico.
    Uma pedrada num charco cada vez mais conformado.
    Parabéns

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  5. Eu até sou agnóstico14 de abril de 2010 às 20:24


    Uns provocadores idiotas vão distribuir preservativos durante a visita do Papa. Talvez uns bons sopapos lhes fossem bem aplicados, com toda a caridade cristã.

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  6. Senhor João Távora não se esqueça que fundamentalmente, todos esses produtos televisivos se destinam ao publico norte americano, a sua difusão no resto do mundo ocidental e ocidentalizado, surge como um nicho de negócio, explorado pelas cadeias de televisão por cabo, que necessitam de conteudos para os seus assinantes. Ou seja toda a nefasta influencia sofrida, pela mensagem transmitida por séries broncas e amorais (quando não imorais), que a nossa sociedade consome é quase acidental, pois que nós (europeus) não faziamos parte do alvo das produtoras americanas, alias os tipos padrão representados nessas séries são americanos, assim como a mensagem (ou pseudo mensagem) que possa existir é dirigida a um espectador americano, infelizmente sendo corruptora, exerce a sua malévola influencia em todo um conjunto de consumidores, que por força de uma aculturação progressiva, se tornaram em proto americanos pelo menos nesse plano. Resta-nos a obrigação de combater essa avalanche, junto dos nossos circulos familiares e sociais.

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  7.  isto é uma vergonha , a série é ultralight , mas eu gosto  mesmo da bones , são super simpáticos  , farto-me de rir com as conversas deles . raramente têm crises de má disposição ou outras. e já não posso com o House.
    também gostei do life in mars...tudo maluco.

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  8. Ora aí está uma boa ideia!

    Os sopapos na fácies imbecil dos provocadores!
    De ambos os lados!

    Que eu também não sou religiosa, mas já não aguento este tipo de gente.

    E a verdade, é que isto tal como está, não pode continuar...
    Portanto, algum dia os sopapos vão ter que começar!

    Maria da Fonte

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