segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Das trevas à esperança

Quando Domingo de madrugada acidentalmente sintonizei na TV o final do programa Eixo do Mal, em que os seus intervenientes blasfemavam unanimemente numa despudorada risota por conta da posição da Igreja sobre o “casamento” entre homossexuais, confesso que cedi a um certo desânimo. 


Aquele triste espectáculo não me deveria surpreender, pois resulta, para além da vulgar má criação e mau gosto dos intervenientes, duma perda radical de influência dos católicos na sociedade portuguesa, fenómeno que propícia um primário e despudorado discurso anti-religioso e anti-clerical a que nos vamos habituando. Por todo o lado, dos blogues aos meios de comunicação de referência é cada vez mais vulgar observar um patológico ressentimento e as insinuações mais vis sobre a Igreja, a sexualidade dos padres ou sobre a ignorância dos fiéis: um dia destes na Antena 1, num programa de debate em prime-time “O Esplendor de Portugal” que versa assuntos de actualidade, um dos participantes gracejava, sem causar  qualquer reacção para além de risota, que não deveria ser permitida a circulação de crianças perto dum seminário. Assim, sem mais!


Confesso que a minha primeira preocupação resulta algo egoísta, prendendo-se com a minha manifesta dificuldade em proteger os meus adolescentes deste envenenamento ideológico, que se reflecte implacável nas suas vidas em que, para lá dos ambientes familiares, dificilmente encontram "na rua" referências aos nossos modelos de educação. De facto, nós os católicos praticantes (ou cristãos em geral) somos hoje uma ínfima minoria, e eu não vislumbro inversão da tendência: ao fim de dois mil anos de história a Igreja Católica vive na Europa a sua mais profunda crise desde a fundação, que conduzirá a prazo ao seu desaparecimento na forma como hoje a conhecemos, talvez tornando-se numa minoritária organização semi-clandestina. Uma previsão apocalíptica para a qual não é necessário ser perito.


De resto a História não acabará assim: habituada às mais duras provas de vida, a Igreja de Pedro encontrará sempre lugar nos corações dos homens simples que buscam consolo e redenção, seja na Europa ou em qualquer lado do Mundo. E acredito que, para lá dalgumas criteriosas reformas, o catolicismo sobreviverá e florescerá em África, nas Índias e na Ásia, na senda da dignificação e conforto dos homens e mulheres, espantosos seres únicos e divinais criados à imagem e semelhança de Deus. 

18 comentários:

  1. «Nós os cristãos somos hoje de facto uma ínfima minoria».
    Não, não são. Deixe é de confundir "cristãos" com "católicos". A ICAR não fala por todos os que acreditam que Jesus Cristo era o filho de Deus.

    «a Igreja Católica vive na Europa a sua mais profunda crise desde a fundação, que conduzirá a prazo ao seu desaparecimento na forma como hoje a conhecemos».
    Se por "forma como hoje a conhecemos" está a falar do domínio que exerceu sobre a sociedade secular, então estará correcto. Se não, então deve estar a delirar, certamente.

    A vitimização dos católicos portugueses começa a atingir níveis delirantes, sinceramente.

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  2. Amen ( sem ironia ).

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  3. "...dalgumas criteriosas reformas..."

    Fiquei curioso. Que reformas são essas?

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  4. Embora sendo ateu e nada amigo de certos extremismos da Igreja Católica, causa-me particular asco a hostilização - e ridicularização - radical da educação, influência e valores cristãos, disfarçada de multiculturalismo e da "imperativa laicização".

    Tem toda a razão, João Távora.

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  5. Cá por mim a igreja não tem nada de se meter neste assunto, afinal os casamentos civis, não tem nada a ver com eles ou tem? não vale a pena vir com a ideia do casamento milenar, porque essa piada não " pega", como disse o Daniel Oliveira no eixo do mal, e muito bem...a malta tem memória curta, mas consegue lembrar-se de algumas coisas não?
    João você deve ser um chato a rondar os 80/90 anos, não? Bom nem será, conheço muitos senhores e senhoras com essa idade, que têm uma cabeça mais " aberta " e veja lá, até são católicos!
    Coitadas das suas crianças!

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  6. Além de serradura, não deve haver mais nada nessa cabeça.
    Coitado de si... e, principalmente, das suas crianças (se é que as tem)!

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  7. João Távora:

    Este é mais um equívoco alicerçado em pressupostos distorcidos. Teria razão se os homossexuais reivindicassem um casamento católico ou se - passe o ridículo da imagem - o casamento entre pessoas do mesmo sexo se tornasse obrigatório.
    Não me consta que seja essa a intenção de quem deseja ver este assunto resolvido. Embora não esteja interessado em vir a fazer uso desse direito, pergunto: que direito tenho eu para o negar a quem o quer ter? Este é que é o problema. A Igreja Católica, pode ter a posição que quiser, na sua ordem interna. Ninguém a poderá obrigar a celebrar casamentos católicos entre pessoas do mesmo sexo. Do mesmo modo, também a Igreja não se deverá opor a que sejam celebrados contratos de casamento civis entre pessoas do mesmo sexo.

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  8. Haja decência,

    só para ver se percebo. O senhor acha que há um grupo de pessoas que não tem direito a expressar a sua opinião sobre o que se passa no país?

    Ou seja, há um grupo de cidadão portguesas que não têm o direito a liberdade de associação, de reunião e de expressão, é isso?

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  9. Eu acho que você tem razão em relação ao Eixo do Mal. Também não gosto da risota sobre as convicções da Igreja (e nem sequer sou católica). Agora, náo consigo perceber porquê esta excitação sobre o casamento homossexual, esta discussão, quando este assunto estava no programa do PS, do BE e do PCP e nunca foi discutido na campanha eleitoral.

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  10. Pois é... Se não foi tema de campanha, como é que pode pensar-se que tem o aval do eleitorado?

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  11. Deu uma maioria parlamentar aos partidos que continham essa medida no programa, que aliás não era do desconhecimento do publico em geral...

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  12. Agradeço os comentários aos quais lamento não responder individualmente. Quanto a agressões verbais, elas apenas revelam sobre quem as escreve.

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  13. Pelo contrário, "envenenamento ideológico" é aquilo que se faz a uma criança que cresce numa 'educação católica'. Não a um adulto consciente (não conheço crianças que vejam o Eixo do Mal) que vê programas de debate na televisão.

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  14. Não tens de agradecer, mas para quando um artigo sobre as "reformas" que falas. Seria interessante e inovador um católico falar deste tema.

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  15. A menos que tenha tido a "educação católica" de que fala (como se não dependesse dos pais e fosse a religião a ditar a educação), essa sua opinião (ela sim venenosa) é o seu próprio desmentido.

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  16. Tem a ver sim meu amigo, porque ao contrário do que acontece em Espanha, aqui não há casamento pela Igreja sem casamento civil, eles não estão completamente separados.

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  17. Sr. Z:

    Dando de barato a sua sobranceira ironia do "só para ver se percebo", vou tentar esclarecer (eu deveria dizer que vou fazer um desenho para ver se percebe, mas não digo; limito-me a pôr entre parentesis):

    O que está implicito no que eu escrevi é que a ser aprovada legislação nesse sentido, a Igreja - tendo já manifestado sobejamente a sua posição -, deverá aceitar a legitimidade do estado democrático laico e não lançar, no seio da sociedade portuguesa, um anátema à conta disso.
    E, já agora, digo-lhe: como Cristão penso que já era tempo da Igreja Católica aceitar a realidade há muito escondida por vergonha e preconceito. E a realidade é existirem outras orientações sexuais e que essas pessoas podem ser tão dignas como quaisquer outras. E que também elas são filhos de Deus.

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