quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Casamentos e divórcios: algumas considerações empíricas

Tenho muita dificuldade em aceitar que o conceito de “casamento”, que define uma vetusta instituição (actualmente fragilizada, eu sei, e muito por causa da desconsideração com que tem sido tratada), seja hoje corrompido pela intenção de que este abarque a relação homossexual que, sendo respeitável,  não deixa de ser de natureza diversa. Eu temo que a soma duma precipitada revolução demográfica e de costumes perpetrada tão abrupta e radicalmente no ocidente, acabe por debilitar irremediavelmente o tecido social, de espalhar muita inadaptação e dor em muitas existências anónimas. Falo por exemplo do paradigma cada vez mais comum dos filhos únicos de famílias desmanchadas e perdidas nos grandes subúrbios por conta da prenunciada extinção das pequenas comunidades provincianas, e do modelo de família sólido e literalmente fecundo que estruturou a sociedade durante séculos, e de que eu privilegiadamente ainda usufruí. Extintas tais realidades, não haverá Estado que substitua essas redes de afecto, solidariedade e pertença. E suspeito que não serão os “Facebooks” da vida a colmatar os vazios deixados por tão profunda revolução. 

7 comentários:

  1. Isso tudo e ainda não temos casamentos de homossexuais. Quando isto acontecer, então, ó meus amigos, vamos ter uma praga de gafanhotos gigantes durante sete dias e sete noites.

    Renato

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  2. Uma mãe que vive com o seu filho único também é uma
    família :)

    É a família tradicional que vemos caracterizada nos livros e nos filmes? Não. Nem poderia ser. Já dizia o Camões (e o Zé Mário Branco), mudam-se os tempos, mudam-se as vontade.

    Mas eu acho que o conceito de família evoluiu muito, e é,
    hoje, pelo menos por estes lados do mundo, um conceito suficientemente abrangente para que ultrapasse o casal formado por um homem e por uma mulher, com os seus 2.2 filhos.

    E se a instituição "casamento" não tem pedal para evoluir juntamente com as pessoas, então extinga-se, de facto. Mas extinga-se para todos.

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  3. O problema é a confusão que se faz entre o casamento e o matrimonio.

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  4. o desaparecimento da família alargada , mesmo com a cusquice e controle , pode crer que foi das piores coisas que a vida na cidade trouxe.
    mas duvido que esta crise acabe assim de pé para a mão , suponho que está para lavar e durar e as pessoas terão de retornar à aldeia e plantar para comer. não acredito que , daqui por 2 , 3 anos , quando o subsidio acabar , haja indústrias onde empregar. e serviços já rebentam pelas costuras , assim como a construção secou. toca de repovoar outra vez.

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  5. Estou para compreender o que é que o casamento de casais do mesmo sexo tem a ver com «os filhos únicos de famílias desmanchadas e perdidas nos grandes subúrbios». Chama-se a isto misturar alhos com bugalhos com o intuito de desconversar.

    Para informação do João, muitos desses filhos únicos são-no de famílias onde um dos elementos do casal descobriu que não era bem aquela família que queria ter. Nesse aspecto, permitir-lhe ter a que pretende pode ajudar a amenizar o problema. Note também que esses casos estão a suceder sem casamento de pessoas do mesmo sexo, por isso não lhe atribua males que nem sequer tiveram oportunidade de fazer.

    Não gosta do casamento homossexual? Bom, isso é obviamente por motivos religiosos, que são legítimos. Como a ICAR ainda não os celebra, esteja descansado. Só não venha é negar a felicidade de que «privilegiadamente ainda usufru[iu]» aos outros.

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  6. Caro JT,

    Que visão mais catastrófica, caro João! A mesma que testemunhamos, ao longo dos séculos - senão milénios (desde o Antigo Egipto, por ex) - expressa por arautos da desgraça quando se confrontaram com as mudanças sociais e/ou políticas do seu tempo. Mas o mundo continuou e não se assistiu a menhum apocalipse.

    Lembro-me dos inflamados sermões contra o divórcio e do alívio de tantos e tantas quando este foi finalmente autorizado.

    O casamento civil, tal como o entendemos hoje, existe há muito pouco tempo. Não é, nem pouco mais ou menos, a "vetusta instituição" a que te referes. Não foi, não é, nunca será património de qualquer igreja. Os teus argumentos são em tudo iguais aos que apresentavam os que se opunham às uniões interraciais. Também eram sinal dos tempos, bla-bla-bla e, afinal, legalizados e aceites que foram, ainda não foi dessa que nos sobreveio o apocalipse.

    A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo que se instituirá - disso não se duvide - não imporá nada a ninguém (muito menos à igreja), nem retirará ou atingirá qualquer direito de qualquer outro cidadão. Não será por aí que "o céu nos cairá sobre a cabeça", ou, tampouco, será o mundo destruído num apocalíptico caos social.

    É uma medida de justiça que só peca por tardia.

    Abraço

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  7. É o clássico e eterno, "onde é que isto vai parar". No big deal.

    Pedro

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