Chamam-se Manuel ou Joaquim e partiram aos 10, 15 ou 20 anos de idade para uma grande cidade brasileira, deixando para trás as suas aldeias transmontanas, minhotas ou beirãs, que na altura nem luz eléctrica tinham. Trabalharam duramente durante décadas e décadas, às vezes passando anos a fio sem um único dia de folga, até abrirem a sua padaria, o seu açougue, o seu boteco. Mesmo patrões de si próprios, não descansaram até melhorarem de vida e, sobretudo, conseguirem proporcionar aos filhos possibilidades de estudar e terem outras profissões e outro nível cultural.
Durante esses anos, o Manuel e o Joaquim foram “gozados” pelos brasileiros, a sua estranheza pelas luzes da cidades valeu-lhes serem sempre os “burros”, alvo de piadas diárias que envergonhavam os seus descendentes que, evidentemente, só queriam ser brasileiros e de Portugal conheciam apenas o galo de Barcelos em cima do frigorífico. De facto, fora algumas façanhas futebolísticas (um fraco consolo no país do futebol…), o vinho e a comida, a música de Amália e a beleza idealizada da aldeia natal, Portugal poucos motivos de orgulho lhes dava e, mesmo hoje, apesar do desenvolvimento, continua sempre atrás de italianos, franceses e, agora, até dos galegos espanhóis…Mesmo assim, o Manuel e o Joaquim permaneceram fiéis ao seu país, suportando todas as humilhações que os brasileiros lhes impõem em nome do futuro que o Brasil lhes deu e, principalmente, que deu aos seus filhos e netos.
É natural que Maitê Proença peça desculpa aos portugueses que vivem em Portugal e que não queira perder os euros que nós pagamos pela sua fama. Aliás, aqui na nossa terra, podemos bem com ela e com as suas piadas, até é de “bom tom” concordar que somos “esquisitos” e fica lindamente estranhar nos jornais e na blogosfera reacções de indignação, mostrar enfado com o “nacionalismo” do povo, dar a entender que se conhece pessoalmente a Maitê e que ela até é muito divertida…
O que não tem desculpa é a vergonha e a tristeza que Maitê Proença causou ao Manuel ou ao Joaquim quando eles viram na televisão da sua sala de estar (talvez tendo ao seu lado filhos e netos) que, passados tantos anos, continuam a ser o “burro” das piadas e que aquela mulher bonita e sofisticada até cuspiu nos Jerónimos, o monumento que simboliza o orgulho das Descobertas, entre o riso de aprovação de outras mulheres bonitas e sofisticadas. E é a esses velhos e honestos portugueses que Maitê tem que pedir desculpa. Até porque se calhar eles são os seus avós.
O melhor que li sobre este "caso".
ResponderEliminarMuito bom.
Naquelas imagens gravadas em Lisboa, eu não vi nenhuma mulher bonita e sofisticada. Vi uma «coroa» tonta.
ResponderEliminarNão tinha pensado "nesses" portugueses! Os que ajudaram e ajudam o Brasil a ser uma terra de esperança. Obrigada por me ter lembrado.
ResponderEliminarPuseste-me a chorar. O Manuel e o Joaquim, tadinhos, a ver o seu país ser vilipendiado num programa de gajas de há dois anos. Deve ter sido um choque.
ResponderEliminarPor outro lado, se tivesse sido, tinhamos ouvido ecos na altura em lugar de um movimento tardio e idiota de bullying nas redes sociais com uma décalage incompreensível.
Enfim...Eu gosto das maminhas da Maitê e cada um tem as suas fraquezas. Estou certo de que o Manuel e o Joaquim, portugueses de cepa, as partilham comigo :)
Abraço
Acontece que o Manuel e o Joaquim não têm acesso aos media e muito menos às redes sociais. Estão habituados a que façam pouco deles no Brasil. Talvez esperassem é que no seu país defendessem a sua dignidade, que é a dignidade de todos nós.
ResponderEliminarOh, please! Não vem qui não tem... :)
ResponderEliminarQuando alguém usa "Oh, please!" como argumento fico logo arrumado. De qualquer maneira, se te pus a chorar já atingi um do meus principais objectivos quando escrevi este post.
ResponderEliminarDeixe lá, Duarte. Há por aí cada tontinho à solta...
ResponderEliminarExcelente post, meu caro Duarte. Talvez uma das melhores abordagens que li sobre o assunto.
ResponderEliminarParabéns.
PS: a criada do senhor João (Villalobos) será brasileira?
Não vale a pena dar ainda mais importância ao caso desta "burra". O MST que trate do assunto!
ResponderEliminarConcordo. Este assunto já chegou ao nível das novelas, acho que temos que nos deixar de novelas.
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