A Bíblia, sendo considerada pelos Cristãos uma obra de inspiração divina não é no seu todo dogma ou matéria de fé. Trata-se de uma “colectânea” de vários livros extraordinários, escritos em épocas diferentes, no espaço de 1.600 anos, em vários estilos e muitos deles metafóricos ou poéticos. Para os Cristãos, a Bíblia divide-se em duas partes principais: o Antigo Testamento e o Novo Testamento, que no seu conjunto descrevem, sob distintas formas e perspectivas a peregrinação do Homem no conhecimento de Deus. O que é doutrina para os cristãos está contido nos Evangelhos (Novo Testamento), os ensinamentos de Jesus Cristo que indicam o caminho da salvação e da vida eterna.
De resto, como afirma o Luis Naves aqui em baixo, a Bíblia, mesmo que do ponto de vista meramente filosófico e literário vale como uma Obra Prima da humanidade, e a sua leitura convém ser feita seguindo algumas regras ditadas pela Hermenêutica, a ciência que trata da interpretação dos textos.
Mal comparado, qualquer um pode, por imodéstia ou leviandade (ou mais prosaicamente por falta de ouvido) depreciar Beethoven, e aviltar a sua obra, mas tal juízo resultará certamente num disparate que só ao próprio deixará ficar mal.
Subscrevo na íntegra. Subscreveria também que o último parágrafo fosse o seguinte: "Mal comparado, qualquer um pode, por imodéstia ou leviandade (ou mais prosaicamente por falta de ouvido) depreciar Saramago, e aviltar a sua obra, mas tal juízo resultará certamente num disparate que só ao próprio deixará ficar mal. "
ResponderEliminarO caso deste escritor que nestes dias acaba por preconizar o fim da sua própria pátria de nascimento, parece intencional, decorrendo normalmente de um percurso de vida pautado pelo endurecimento da convicção num destino de predestinado e ao encontro daquele que afinal foi o verdadeiro Mito do Século XX. Pouco lhe importam as histórias, os contos, as experiências e desejos individuais ou colectivos - estes stricto sensu, há que frisar - dos homens que fizeram a pequena e a grande História. O devir de uma supersticiosa certeza, numa constante e maniqueísta liquidação de "inimigos de classe" - descurando assumida e completamente as realidades da inter-permeabilidade entre algumas ou todas -, conduz ao dogma que impõe a destruição do outro. Um dos derrotados do século - e aqui já o alçamos a um muito contestável estatuto que pouco interessa reconhecer ou não -, Saramago finge não ter compreendido a vastidão imensurável de um legado que antes de tudo tenta impor regras onde o conceito de Bem pode ir-se adaptando aos novos tempos e realidades que a sucessão de gerações infalivelmente estabelece.
ResponderEliminarPara Saramago, a Bíblia parece ser um ...manual de maus costumes, crueldade e do pior da natureza humana... Curiosa conclusão que não atende à realidade de outras épocas e á própria necessidade de afirmação da certeza de pertença a um determinado grupo. Apesar disto, não existe vivalma sobre este planeta, que jamais tenha escutado uma só palavra do escritor, acerca dos manuais de brutalidades, das cartilhas que impõem pela mais iconoclasta violência, a "construção científica" de um outro homem, tão desumano como Moloch ou tão escravizado a uma quimera como os ilotas. Saramago nem sequer dá conta da clara cópia do preceituado necessário à construção do seu Novo Templo, de uma religião tão tingida de vermelho como as escadarias sacrificais dos aztecas.
Realmente S. Paulo é pensamento e peras. Caramba! Mas é assim tão mau não gostar da Bíblia e dize-lo? Olhe porque raio é 'culto' conhecer Beethoven e sem interesse nenhum saber quem é Maxwell?
ResponderEliminarGostei do texto, mas a comparação entre a biblia e Beethoven não faz muito sentido: que eu saiba, Beethoven nas suas composições nunca apelou à violência, nunca proibiu ninguém de fazer seja o que for, nunca interferiu de modo autoritário na vida de ninguém.
ResponderEliminarO mesmo não se pode dizer da biblia. Durante muito tempo (e ainda hoje!) há quem se guie pelo seu texto literalmente, ultrapassando todos os limites do bom senso. Basta apenas mencionar o criacionismo (a tentativa de encaixar o mundo que observamos com a "cronologia" que a biblia nos dá do início do mundo).
O grande problema é ao longo destes 2000 (ou mais) anos, a biblia foi olhada como muito mais do que apenas do ponto de vista "filosófico e literário". Foi, efectivamente, interpretada como a Palavra de Deus, e é com base nela que a Igreja Católia, por exemplo, "abomina" completamente os homossexuais, considerando-os "contra-natura".
A biblia (ou, vá, sejamos correctos, parte dela) "cristalizou" no tempo uma série de regras, tradições, posturas e atitudes que pertencem a um passado distante e que simplesmente não fazem sentido na nossa sociedade actual. Ou alguém acha que hoje em dia faz algum sentido o "pai deitar-se com a filha", matar alguém por ser homossexual ou não comer marisco(sim, está na biblia, em Leviticus 11 e Deuteronomio14)?
Curiosamente, algures durante estes 2000 anos, chegámos à conclusão de que afinal podemos comer marisco (apesar da biblia proibir), mas ainda há quem ache que ser "maricas" é "ofender a Deus"... Qual o critério que leva essas pessoas a interpretar assim a "Palavra de Deus" (porque não o contrário, aceitar os homossexuais e banir o marisco, por exemplo?) é algo que suponho que nem a hermeneutica conseguirá explicar... E não, a "desculpa" de que "se toda a gente fosse homossexual acabava a humanidade, por isso é melhor proibir, punir e perseguir!" não serve... Por essa ordem de ideias, quem usa contraceptivos deveria ser severamente punido e castigado. Mas... ó diaxo, realmente a igreja catolica ainda o faz, de certa forma...
Resumindo, os problemas da biblia são basicamente os seguintes:
- é um "saco de gatos" - tem livros lindíssimos e outros abomináveis. O facto de ser designada por um único nome, singular, é muito enganador. Não é "um" livro, é um conjunto de livros, bem dispares por vezes.
- é tomada por algo que não é - a esmagadora maioria das pessoas, sejam católicas ou não, acha que a biblia foi ditada por deus numa tarde de doming em que não tinha nada de especial para fazer. Puro engano. A biblia foi escrita por homens, e se foram "inspirados" divinamente, satanicamente, por divas, mulheres, rapazes, faunos ou fadas, apenas eles o saberão. E o deus de um pode muito bem ser o "demonio" de outro, como a própria biblia refere...
- é usada como "desculpa" para forçar comportamentos aos outros - se este ponto pode ser "positivo" caso se trade de algo com manifesta mais-valia, torna-se declaradamente negativo quando se fala de assuntos que são do foro estritamente pessoal ou ainda pior, quando está em causa a vida das pessoas. Porque raio é que raio é que as testemunhas de jeova recusam transfusões de sangue PARA OS SEUS FILHOS, quando isso lhes poderá salvar a vida? Pode-se sempre contra argumentar, referindo que as "leis dos homens" também impõem comportamentos. Pois impõem. Mas as "leis dos homens" mudam e evoluem com a sociedade. A biblia permanece imutável há 2000 anos. E por muita "hermeneutica" que se queira utilizar, parece-me mais ou menos claro que quando deus proibe de comer certo tipo de animais, é mesmo isso que ele quis dizer, seja há 2000 anos, seja hoje em dia...