Lá estive ontem ao fim da tarde no Martinho de Arcada para participar no encontro dos bloguistas com Santana Lopes, moderado pelo nosso João Villalobos, cuja função o impedia de representar o Corta-fitas, tarefa que pesou sobre os meus ombros. Já num outro encontro do género, no Nicola, com Paulo Rangel, fiquei surpreendido com a capacidade de síntese da maioria dos participantes e pela colocação de questões concretas, muitas das quais fogem à agenda mediática, justificando este tipo de iniciativas. Não por acaso, a cobertura jornalística que consegui ver incidia justamente sobre os temas que menos me interessam, ou seja, os da tal “agenda” previsível, como, por exemplo, se as legislativas vão afectar os resultados em Lisboa, se António Costa vai para o lugar de Sócrates no caso de ele perder, se Santana poria arguidos na sua lista de candidatos e coisas no género.
Gosto muito de política e é evidente que esse tipo de questões terão a sua ocasião de ser colocadas e respondidas, mas parece-me muito mais interessante saber o que os candidatos pretendem fazer em Lisboa, uma cidade que carece de diversas intervenções urgentes, se não quiser se descaracterizar mais do que já está, e de melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes.
O Fórum Cidadania Lisboa “roubou-me” uma das perguntas que iria fazer (foram os primeiros e o sorteio coloco-me em quarto…), que incidia sobre este modelo de “reabilitação” agora em voga desde as Avenidas Novas até à ao Chiado (há até um exemplo em plena Rua Garrett) de esventrar os prédios, mantendo as fachadas e destruindo os interiores, com a consequente perda irreversível de inúmeros traços característicos. Santana afirmou-se claramente contra este tipo de intervenções e ao longo do debate, em resposta a outras questões, frisou sempre a necessidade de restaurar e recuperar em detrimento de fazer construção nova.
Quando chegou a minha vez, perguntei-lhe se pretendia reapresentar o projecto dos arquitectos Valsassina/Aires Mateus para o Largo do Rato, aprovado no seu mandato para minha surpresa (tanto mais que conheço pessoalmente a então vereadora do urbanismo, Eduarda Napoleão, e tenho-a na conta de pessoa séria, dedicada e de bom gosto) e que ganharia um grande adepto no actual vereador Manuel Salgado, que disse em sessão de Câmara que ele iria “melhorar” o Largo do Rato, enquanto António Costa ficava mais prudentemente da defesa dos direitos adquiridos dos investidores. O que é facto é que o projecto foi rejeitado das duas vezes, inclusive com o voto de Sá Fernandes, com votos favoráveis do PS.
Este projecto é preocupante não só pelo que representa em si, mas também por demonstrar uma determinada visão da cidade que me parece profundamente errada, de colocar edifícios modernos em “contraste” em zonas antigas. Quando alguém como Manuel Salgado o defende, temo que um dia veremos surgir uma torre de vidro no meio do Chiado ou da colina do Castelo, só para “chocar” e chamar a atenção, que parece ser o mais importante para determinados arquitectos que um dia, numa expressão feliz, o príncipe Carlos de Inglaterra (a propósito do que surgia em Londres nos anos 80) chamou de “pop stars”.
Santana Lopes não quis entrar em detalhes sobre o que o levou a aprovar o projecto, parecendo-me que queria poupar um membro da sua equipa, que tem sido muito atacada e nem sempre se tem podido defender, o que só lhe fica bem. Mas foi dizendo que o projecto lhe tinha merecido alguma resistência e que se houvesse um referendo sobre ele (solução que lhe parece plausível para diversos projectos mais polémicos), votaria “não”. E que é contra esses projectos de “contraste”, porque considera que quem foi eleito para quatro anos não tem o direito de destruir o que permanece há séculos na cidade.
A segunda pergunta foi sobre mercados, municipais e ao ar livre (ambos ausentes das Linhas Gerais do programa apresentado), e Santana não falou dos primeiros, mas mostrou-se favorável aos segundos, inclusive como formas de reforçar a identidade das comunidades. Mas acha que a iniciativa deve partir dos comerciantes e não da Câmara. Pode ser, desde que os fiscais camarários não coloquem todo o tipo de entraves a quem os quer organizar, como vêm fazendo nos últimos anos (incluindo durante o mandato de Carmona Rodrigues) a um dos poucos que existe, de produtos biológicos, aos sábados de manhã no jardim do Príncipe Real.
Quem quiser ver o debate na íntegra poderá fazê-lo em blogues como o Campo de Santana, por isso só quero acrescentar que, sendo eu apoiante de Santana (embora não seja “santanista”, como aliás não sou “ista” em relação a ninguém do PSD…), fiquei satisfeito em vê-lo tão entusiasmado com a possibilidade de fazer de Lisboa uma cidade melhor, em ver que não esqueceu, antes aprimorou, o grande conhecimento que tem dos dossiers, de estar a usar a sua prodigiosa memória para tratar dos detalhes do dia-a-dia da cidade (que fazem toda a diferença para quem nela vive), de reconhecer erros, de nunca mostrar ódio nas críticas que faz aos adversários e de ter ao seu lado pessoas com a qualidade de Manuel Falcão, candidato à presidência da Assembleia Municipal, também presente no Martinho.
Numa apreciação mais geral às eleições em Lisboa, devo dizer que me parece que um dos grandes divisores de águas são os mega projectos previstos para a cidade, que têm influência directa em muitos aspectos, a começar pelo PDM, como a saída do aeroporto da Portela, a nova travessia do Tejo ou o terminal de contentores de Alcântara. Quanto ao resto, fico satisfeito em verificar que todas as principais forças políticas da cidade (incluindo o PCP e o Bloco de Esquerda) estão de acordo em colocar a reabilitação urbana no topo das prioridades, algo que Santana foi o primeiro a fazer na campanha de 2001. Como, para mim, essa é a questão fulcral, não se tratando apenas de recuperar prédios degradados, mas também de melhorar as condições gerais da cidade, desde a limpeza das ruas ao ordenamento do estacionamento, de apagar grafittis a criar mercados de bairro ao ar livre, creio que há motivos de optimismo em Lisboa.
Nota: tenho pena que a sala principal do Martinho da Arcada esteja reservada apenas para restaurante, não funcionando como café, como nos tempos de Fernando Pessoa (na foto).
Foi uma boa tertulia.
ResponderEliminarSantana não se fugiu ás perguntas e esclareceu muitas questões relativamente à cidade de Lisboa
Era para isso que ele lá estava, não para falar de politica nacional
Acima de tudo temos candidato que estuda os dossiers e sabe o que defende e como defende , não se limita a fazer o que o governo quer.
ResponderEliminarPena os 200 kms que me distam dai.
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