Dramático é como em Portugal, um pequeno país tendencialmente iletrado e com pouca tradição democrática, o espectro ideológico se nos apresente tão afunilado. Nos “media” dominantes, no meio intelectual estabelecido, impera o pensamento uniformizado e cinzento, viciado em meia dúzia de lugares comuns. Os nossos escritores, políticos e jornalistas da moda raramente reflectem efectivas diferenças ideológicas, ou um pensamento original. Quase sempre as suas mais profundas divergências revelam-se tão só nas suas cores clubísticas, ou por meros caprichos de circunstância.
A efectiva democracia só existe se nela organicamente imperar a diferença.
E depois, ser democrata não deveria jamais ser um conceito vazio, uma abstracção, uma teoria; antes uma prática, um desafio vivido – exige maturidade, civilização.
E depois, ser democrata não deveria jamais ser um conceito vazio, uma abstracção, uma teoria; antes uma prática, um desafio vivido – exige maturidade, civilização.
O democrata ultrapassa os seus preconceitos, domina as suas emoções, e escuta, aceita o Outro. Mesmo que esse Outro seja adversário na disputa do seu mais ansiado objecto. Numa civilização adulta, o pensamento e as ideias coexistem na sua diferença, de um extremo ao outro, sem preconceitos, sem amputações.
Livremente como se vai observando nalguma da boa blogosfera.
Oportuníssima reflexão, João. Eu dou braço a torcer: por vezes interpelo com alguma rudeza e liberdade expressiva gente que admiro e acompanho pela imensa e riquíssima bloga. Depois retrocedo ou dos arroubos ou dos excessos havidos e a amizade acontece. Picardias são normais, mas superáveis. Acima de tudo tem de ficar uma coisa mais intensa que a indiferença.
ResponderEliminarEstigmatizar é que não. Fechar os canais e recluir-se nas ideias feitas é que não. Uma coisa é radicalizar e enlouquecer o discurso ocasionalmente, muitas vezes em função de horas pessoais negras e hoje há muitas que só o estecisimo expressionista e exibicionista acalmará.
Outra, bem diversa, é ser, seja em que matéria for, radical e hermético. Bato-me contra o hermetismo relacional e contra a lógica corporativista no plano da bloga, da imprensa. É preciso abrir bem os olhos e compreender que os outros não são parvos.
Um abraço para ti.
Outro para o Pedro Correia, que anda sensível
e precisa de intérprete para me sentir melhor.
PALAVROSSAVRVS REX
Gostei da reflexão: ter a mente e o coração aberto para o Outro, respeitar e aceitar a diferença: ainda estamos longe disso, como também podemos ver na blogosfera.
ResponderEliminarConcordo inteiramente, João.
ResponderEliminarConcordo plenamente, João. Como jornalista entristece-me ver que há uma tendência crescente para o pensamento único e para a abordagem em cadeia de temas que estão na moda. Falta rasgo e, por vezes, lucidez para reflectir.
ResponderEliminarCirúrgica a sua última frase, caro João Távora, ao referir com propósito, e adjectivando alguma da blogosfera. Eu vejo-a como um espelho do que fala. Em muita blogosfera escreve-se o que se adivinha ser apreciado por quem lê. Não sou contra os consensos, mas raramente eles nos projectam mais além, apenas ajudam a resolver o momento. Não é o caso do João e da esmagadora maioria dos Corta-Fiteiros. E ainda bem, digo eu.
ResponderEliminarAbraço.
Isso mesmo caro Mike , a blogosfera tem que ser um espaço de inconformismo. Se não, não faz sentido.
ResponderEliminarGosto de a ver por aqui, Leonor. :-)
ResponderEliminarCaro Carlos: E como tudo seria mais simples num mundo a preto e branco, composto exclusivamente de bons e de maus. Principalmente para o jornalismo.
ResponderEliminarRefere bem "o estigma", caro PALAVROSSAVRVS: os assuntos "que não interessam a ninguém"; as ideias "perigosas". Perigoso mesmo é a ignorância e a sofocante agenda do jornalismo avassalado. Abraço
ResponderEliminarMeu Caro João,
ResponderEliminarconcordo contigo a 100%: A DEMOCRACIA ESTIMÁVEL É A QUE NÃO EXISTE.
Salvo no «Corta-Fitas», em que com grande generosidade e panache acolheram um calejado, embora risonho, adeversário dela, este pobre amigo que tanto Te estima.
Abraço
Muito longe, Cristina. O mais difícil de mudar é por dentro. Fácil é "falar". Beijinho,
ResponderEliminarMas estamos a lutar por Ela, caro Paulo. :-) Abraço apertado.
ResponderEliminarQuanta lucidez, João... não posso estar mais de acordo! Viva o pluralismo e a discussão de ideias, que exige diferenças e cedências, e não o pensamento único.
ResponderEliminar(agora reparo que se gerou aqui um consenso geral, o que não deixa de ter a sua graça) :-)
Nem mais. Exige empatia , o saber colocar-se no lugar do Outro e ter como objectivo o chegar a consensos discutidos em que todos ganham . Eu penso que democracia não é só um sistema político , é uma forma respeitadora do Outro , como ser humano igualzinho a nós , de estar na vida. É que não pode haver Democracia , com D grande, sem homens e mulheres democráticos na vida de todos os dias.
ResponderEliminarGosto muito de Habermas , da importância que dá ao autoconhecimento para a construção de um homem livre ( a vontade - socialmente imposta ?- de poder e dinheiro também aprisiona e muitos nem sequer percebem como a sua procura , e depois da obtenção , a manutenção , os limita e os transforma em seres ridículos e vazios ) e ao diálogo na esfera pública para a consolidação da Democracia.
João Távora:
ResponderEliminarBoa e oportuna reflexão.
Escreve-se muito em "blogs", mas existem temas em que as posições estão completamente cristalizadas. Impera o pensamento único. É o caso do pensamento económico. O discurso é quase decalcado de comentador para comentador.
Foi necessário o aparecimento, à superfície, desta crise para começar a aparecer um certo contraditório. As posições auto-suficientes da generalidade dos economistas e jornalistas, ditos especializados, parece um coro a uma só voz.
Outro traço muito vincado é a intolerância.
Este, ainda é dos poucos "blogs" onde existe respeito pelas posições divergentes, com algumas excepções.
Mais uma vez, o meu apreço pelo "post".
João Távora:
ResponderEliminarEsqueci-me de me identificar.
O Anónimo das 18:45 sou eu.