Nas recentes eleições internas do PSD, o tema do liberalismo voltou a ser discutido. Muitos apoiantes de Pedro Passos Coelho e muitos comentadores da Imprensa e da blogosfera ficaram muito satisfeitos por identificarem o carácter “liberal” do candidato, por oposição ao “pragmatismo” de Manuela Ferreira Leite, que geralmente é avaliado como incapacidade para atingir um nível “ideológico” e frequentemente associado a oportunismo e outros males que afectam o governo das nossas sociedades ocidentais. Só para situar Santana Lopes neste gosto pelos rótulos que há entre nós, ele era despachado, injustamente a meu ver, como “populista” e estava o caso arrumado.
Se Passos Coelho se considera liberal, tanto melhor para ele, mas acho que é preciso desenvolver um pouco a ideia, não basta enunciá-la. Digo isto apesar de verificar que estamos a viver um momento de infantilidade dos analistas, em que basta Obama dizer que quer “mudar” e que “nós podemos” para ver gente, que eu julgava intelectualmente válida, considerar que isso é extraordinário, nunca visto, um novo Kennedy.
Nada tenho contra os liberais, e acho que eles cabem muito bem dentro do PSD, mas, por favor, repetir o que Thatcher e Reagan disseram há 30 anos sobre o papel do Estado na economia e na sociedade parece-me, no mínimo, insuficiente. Na altura, isso representou uma ruptura, foi corajoso, foi uma novidade. Hoje, já nem os conservadores britânicos o fazem, preferindo antes avaliar a necessidade de um Serviço Nacional de Saúde ou de uma regulamentação estatal nos assuntos ligados à preservação do ambiente e do património.
Em Portugal, o liberalismo é uma confusão. Ou é acompanhado por fundamentalismo católico (o que para mim é contraditório) ou é considerar que o Estado deve ser gerido como uma empresa ou é simplesmente uma arte mágica através da qual basta privatizar, libertando os indivíduos e as empresas do jugo estatal, para tudo mudar se transformar. Não seria melhor desenvolver um pouco mais estas ideias (e eu estou pronto para ouvi-las) e dizer em que sectores e com que “forças da sociedade civil” se quer diminuir o papel do Estado em Portugal? O problema é que isso se confunde com “pragmatismo”. E "isso", para quem se julga ideologicamente puro, é que não pode ser.
Coitados... ainda não perceberam que o Liberalismo se resume à organização da sociedade em termos jurídicos (e tudo o que isso significa para a vida de cada um). Democracia representativa, liberdade de expressão e de organização as Cartas Universais, etc. O problema surge quando tentam passar a mensagem como se se tratasse de um programa económico de desenvolvimento. Esses cavalheiros devem ignorar o facto de em Portugal, durante o Liberalismo (Monarquia Constitucional), o Estado ter sido o verdadeiro motor da economia, criando infra-estruturas e possibilitando a chegada de capitais estrangeiros. Serviu sempre como garantia. A 1ª república nada fez e a 2ª fez pesar decisivamente o controle estatal, controlando preços, cerceando a actividade de empresas no espaço ultramarino, promovendo Planos de Fomento, etc.
ResponderEliminarQuando possuímos uma iniciativa privada especulativa e pouco interessada em produzir artigos valiosos e inovadores para exportar, pouco se pode fazer. Investem na bolsa, no betão/imobiliário, constroem resorts fora do país (é legítimo e até desejável), compram Ferraris e pouco mais. O estado foi e continua a ser fundamental para a nossa pequena economia. se não querem ver a evidência, paciência.
"repetir o que Thatcher e Reagan disseram há 30 anos sobre o papel do Estado na economia e na sociedade parece-me, no mínimo, insuficiente. Na altura, isso representou uma ruptura, foi corajoso, foi uma novidade."
ResponderEliminarFaltou-lhe dizer que foi desastroso, também, e hoje estamos todos a pagar por isso.