Ao navegarmos pela blogosfera surpreende-nos como a velha querela jacobina contra as instituições católicas está actualmente tão encarniçada. Parece que a blogosfera funciona como uma camada submersa do discurso político, um tubo de ensaio da retórica oficial, na experimentação de novas receitas ou atalhos na senda do poder redentor. Neste campo de batalha virtual, que abrange ainda uma franja pouco representativa da sociedade, o discurso assume-se mais irresponsável porque menos consequente. Outra constatação é a de que os novos "mata-frades" são hoje insaciáveis neo-liberais, de proveniências ideológicas obscuras, ou simplesmente da tradicional esquerda "pouco sociável". Se não for por isso, custa-me a entender a patológica fixação que a cristandade exerce sobre a tirânica e inquisitorial inteligenzia regimental.Mas no campo da batalha política real, nos media massificados, a propaganda anticlerical e a assunção da sua ancestral antipatia pela instituição católica ganha também novo fôlego, encontra hoje um terreno mais fértil: a religião não tem boa imprensa e a nova burguesia urbana está ressabiada com as suas origens, ofuscada com as cintilantes luzes da cultura shopping, onde não há noite, não há dúvidas e não há “ser”. Definitivamente o sentimento religioso mostra-se um comprovado empecilho à afirmação da auto-suficiência do comum dos mortais e para uma vida orientada para o prazer ou, mais genericamente, para o "mais fácil". O secularismo hoje mostra as garras, num ímpeto de que não há memória.
Não tenho dúvidas de qual é o ancestral desígnio jacobino. Só por ingenuidade ou má-fé alguém não entende que a luta da religião católica, hoje como ontem, sempre foi pela sua sobrevivência. Mas esquecem os seus inimigos que nessa matéria a Igreja, com todos os seus defeitos e virtudes, tem séculos de experiência. A radical proposta de Cristo é por natureza incómoda e inquietante, um “Calcanhar de Aquiles” para as prioridades mundanas e relativismos axiológicos ou meramente instrumentais. Uma mensagem de Amor que lhe confere uma força inabalável para qualquer nova cruzada.
Outro texto pertinente,cheio de questões sobre as quais se deveria reflectir;é inquestionável que a Igreja é servida por elementos mais que duvidosos-estou a lembrar-me do caso recente do bispo que achava que um murro de quando em vez na mulher até era "aceitável",mas tenho conhecimento próximo de outros casos escandalosos-,mas uma coisa são os homens que a servem,e neste domínio há que não esquecer que são muitíssimos os casos exemplares,e outra a religião em si mesma,contra a qual esses ataques se dirigem.
ResponderEliminarai, ai... isto é o chamado Complexo do Martirio (inventei eu agora). Vá lá que a grande maioria dos católicos vive de forma perfeitamente pacífica a sua fé, sem se sentir perseguido pelos fantasmas do Afonso Costa e ter sonhos tremendistas com os leões do coliseu romano.
ResponderEliminarÓ João Távora, olhe que tudo isto dá vontade de gozar muito. É irresistivel. E depois queixe-se que se estão a meter com a fé e a tradição, etc.
Errata:acho que não foi um bispo,mas um outro prelado.
ResponderEliminarTivesses tu passado o fim-de-semana num local onde não chega a TV por cabo e hoje talvez estivesses a dizer umas coisas pouco simpáticas sobre a tão "perseguida" igreja católica
ResponderEliminarDesculpem não ter assinado o segundo comentário, auwle do co9mplexo do martirio. Chamo-me Rui, e por acaso vivi alguns anos na Grécia e tenho lá fortes ligações e assisti lá, há alguns anos, aos protestos da Igreja Ortodoxa e fiéis, quando o governo teve a ousadia (a coragem..) de retirar dos BI a menção das religiões. Fiéis a arrepanhar os cabelos nas ruas, porque estavam a atacar a santa madre igreja. A discussão continuou quando o governo pretendeu autorizar uma mesquita nos arredores (!) de Atenas, a única cidade europeia sem mesquita. Continua agora porque uma comissão governamental pretendeu diminuir nos manuais escolares a importância da Igreja Ortodoxa na independência do País face aos turcos. Resultado, o LAOS (a extrema direita grega nacionalista e ferozmente xenófoba) entrou no parlamento grego nas últimas eleições, e o processo voltou ao princípio, que o respeitinho é muito bonito. João Távora, parece que estou a ler as mesmas crónicas sobre o assunto. Agora em português. Por lá chamam turcos e herejes a quem ousa contrariar a igreja, por cá chamam-lhes jacobinos. É a mesma história e arrepia-me e sinto que não vivo num país civilizado.
ResponderEliminarRui
O D. João Távora está a escrever muito bem, os Apontamentos de Enfermaria são, também, muito bons, o tom geral é muito razoával, está um bom blog este Corta-fitas! Muitos parabéns!
ResponderEliminarCaro Rui: A discussão refere no seu comentário é para mim absurda. num estado evoluído a religião é uma opção intima e LIVRE de cada um. Como já afirmei n’outros textos, sou inteiramente favorável à total separação da Igreja e do Estado. Daí a aceitar passivamente a gratuita difamação (nos manuais escolares ou nos mass media) de uma instituição como a da Igreja em nome de um suposto progresso civilizacional vai um grande passo.
ResponderEliminarÉ exactamente a mesma coisa, João Távora, desculpe que lhe diga. O que chama difamação é mesma coisa a se chama difamação em certos meios religiosos mais susceptíveis (chamemos-lhes assim) que conheço doutras latitudes (a Grécia é só o exemplo que conheço melhor). A Igreja, aqui e em qualquer lado, tem ainda um longo caminho a percorrer para ser verdadeiramente Livre. Olhe, livre de complexos de perseguição, nomeadamente. Tenham calma. Ainda lhe digo que o discurso do seu post me arrepia. Problema meu, dirá. Obviamente.
ResponderEliminarRui
Felizmente não tenho qualquer tipo de "cultura shopping" e gosto tanto de padrecos e bispalhadas como o Diabo, em que você acredita (por oposição ao seu Deus), da cruz. Se as pessoas começam a ter consciência que a religião (qualquer uma) é mais um mal que um bem, é sinal que todos estamos mais informados e racionais. Se ainda há quem acredite em mentiras e histórias da carochinha como Fátima, é com cada um. A única coisa que exijo enquanto cidadão é que o Estado e suas empresas públicas sejam laicos e não misturem as crenças de cada um(respeitáveis)nas suas instituições. É inadmissível que um bispo inaugure obras do Estado, por exemplo. Vivemos numa República laica, se bem que por vezes não parece. A religião só é aceitável desde que seja do foro privado. Saudações laicas!
ResponderEliminarNase kala Rui! Tem toda a razao em comparar as 2 situaçoes. E n viveu o Rui numa altura em q na Grecia SO se admitia o casamento religioso! Nao sendo eu catolico ou mt menos ortodoxo, fui obrigado - e so depois de uma "piquena" contribuiçaozita de uns milhares de dracmas ao sr bispo - a submeter-me a 1 cerimonia religiosa para q a nossa uniao fosse legitimada. Mas a auto-vitimizaçao é a arma de arremesso preferida das igrejas. Quem se sujeita a horas a fio de propaganda religiosa na tv estatal (paga com os impostos de todos!), ou à constante presença de sotainas na vida política do Estado (supostamente laico) e se atreve a queixar, ah! esses são terríveis jacobinos perseguidores da pobrezinha igreja martir!
ResponderEliminarfcl
João Távora, li o seu post com interesse, pois respeito pontos de vista contrários aos meus e prezo o debate. Sobre política, sobre costumes, sobre religião ou sobre qualquer outro tema que me interesse. Por isso entendo que o conteúdo do seu post sofre do mal que acusa: intolerância. Então qualquer crítica que se faça à Igreja (ou mesmo, Deus nos livre, à religião católica) constitui difamação? Isso é o que se poderá apelidar de um acto de fé, que eu, garanto-lhe, respeito, mas do qual discordo. E qualquer crítica à Igreja é a representação de uma ofensiva jacobina? No que me diz respeito, asseguro-lhe que essa ofensiva não é concertada, embora calcule (tenha a certeza) que esta garantia não constitua para si alívio dessa, desculpe que lhe diga, mania da perseguição. Respeitosamente, Tiago Cid.
ResponderEliminarEste post é surreal e ilustra bem o que pensam os religiosos acerca do mundo q os rodeia! A vitimização sempre resultou, desde o inicio da religião, é a táctica preferida, como se vê através das declarações do cardeal Bertone q apela a uma rebelião! Vergonha na cara é q esta gente não tem!
ResponderEliminarSe alguém demonstra intrasigência é e sempre foi a ICAR, q não quer nem por nada largar a teta do estado q lhe dá de mamar! E já nem falo nas ligações cúmplices com antigo regime!
No fds 1/3 da emissão do canal 1 foi dedicada a Fátima, onde pasme-se, estiveram os representantes do estado laico! Falar em ataques jacobinos é estar a crer tomar os outros por idiotas ou viver numa realidade paralela!
Caro Senhor Távora,
ResponderEliminarSinto-me visado neste seu texto por ser católico e não entender essa sua vitimização.
O shopping vai durar menos que a república e essa, graças a si própria, encontra-se nas ruas da amargura. Pode ser que seja substituida por outra forma mais inteligente e mais justa, onde o estado não tente atingir a igreja como medida desesperada para a sua sobrevivência. Claro que a incompetência do lideres não ajuda - já não posso ouvir a sapiência superior do bacharel, nem a omnipresente razão do futuro lider parlamentar do maior partido da oposição.
Quanto aos comentários sobre a grécia, apenas revelam outra face do que acima comento: manipulação de opinião. Os ortodoxos são uma cambada de tipos vestidos de preto com pouca higiene e o estado grego é outra palhaçada.
Virgilio
excelente e certeiro. tiro mortal na jacobinice snob e ignorante. parabéns. j.v.
ResponderEliminarCaros senhores:
ResponderEliminarParece que se está confundir laicidade com laicismo.
Todos somos laicos na medida em que defendemos a separação das Igrejas do Estado (Estado não confessional) e que as diferentes religiões devem ser acolhidas num espaço de liberdade.
Já o laicismo é a ideologia (como todos os outros «ismos»)que procura proibir ou remeter a religião, na melhor das hipóteses, exclusivamente ao foro privado.
Dito de outra forma: a laicidade separa a Igreja do Estado, o laicismo tenta retirar Deus da Sociedade (da Vida.
O laicismo, tem origens históricas na Revolução Francesa e foi particularmente desastrosa para a Humanidade durante as ditaduras do século XX.
Em Portugal, época de laicismo fulgurante foi a da primeira República e é protagonizada por Afonso Costa, com os resultados desastrosos que todos conhecemos.
Muito do apoio social que o Estado Novo teve se deve ao descontentamento gerado por este facto na população portuguesa.
Podemos então(como diz o João) que esta tendencia para impedir a manifestação da fé na Sociedade (nos media, na educação, na saúde, etc..)não é nova.
A laicidade é querida pela Igreja, pelo Estado e pela Sociedade. Já o laicismo poderá ser querido por uns quantos, mas é certamente danoso para todos nós.
Cumprimentos,
Bernardo
Isto é um perfeito disparate. Os ateus são os realmente perseguidos. Poupe-nos.
ResponderEliminar"Parece que se está confundir laicidade com laicismo"
ResponderEliminarJá cá faltava a retórica opusdeiana! Não fuja ao tema, sr Bernardo, o sr JT queixa-se de perseguição jacobina (??) à ICAR. É esse o assunto e não a questão semântica q pretendeu introduzir. E o q ressalta da realidade é justamente o contrário do q é dito no "post": 1 Estado, teoricamente laico mas de tal modo subserviente à igreja ("oficial"), q se pode comparar com 1 Grécia, essa sim de religião oficial. Pelo menos aí não há hipocrisia!
Cumprimentos
FCL
Qual retórica opusdeiana qual quê? O BCJ disse tudo: há por aí quem ache que o Estado deve pura e simplesmente ignorar toda e qualquer religião. E gostariam muito que se regressasse aos tenebrosos tempos da 1ª República, em que os "racionais" e "democratas" mataram padres, expulsaram-nos, exilaram-nos, trataram-nos como criminosos e tentaram impôr a sua ideia anti-religiosa a um povo que não o era(é).
ResponderEliminarQuanto à questão da Grécia, é verdade que lá a Igreja não está realmente separada do Estado. Mas convém lembrar que a sua influência na independência grega foi fundamental e imprescindível. Foram os clérigos ortodoxos que lançaram o grito de revolta que iniciou a luta pela formação do novo estado grego.
PS: os ateus serem perseguidos em Portugal deve ser piada do momento, com certeza.
"O BCJ disse tudo"
ResponderEliminarLOL! E fica TUDO dito, n é sr Joao Pedro? Nada como ter a ultima palavra - mesmo n acrescentando nada de novo! Aliás, até acrescentou 1 mentirita relativamente ao papel dos clerigos ortodoxos - a ver se passava, era?
Pois fique entao na sua, mas n se esqueça de se penitenciar bem (com ou sem cilicio)...
FCL
As barbaridades q os dementes da f� escrevem (e temo q acreditem nelas). "E gostariam muito que se regressasse aos tenebrosos tempos da 1� Rep�blica, em que os "racionais" e "democratas" mataram padres, expulsaram-nos, exilaram-nos, trataram-nos como criminosos e tentaram imp�r a sua ideia anti-religiosa a um povo que n�o o era(�."
ResponderEliminarIsto � a dem�ncia religiosa no seu auge! Algu�m pode levar o Jo�o Pedro a s�rio? O q eu, como laico, desejo � q a IC n�o continue a mamar na teta do estado pq n�o tem de ter qq tratamento especial! O tratamento especial deve ser dado pelos seus crentes. O estado deve estar sp afastado desta din�mica crente/igreja!