Nalguns comentários aos meus modestos escritos mais “intimistas” aqui no Corta-Fitas, fui encontrando reacções adversas à minha “irritante” escrita “feliz”. Essas críticas acusavam-me de uma visão parcial, ou enviesadamente superficial da realidade. Uns comentários apaguei, outros não; mas até julgo entender bem essa má vontade: a herança do velho pessimismo romântico gerou uma ditadura estética, muito difícil de contornar. A descrença, o sarcasmo e a ironia são motes totalitários dos quais poucos autores escaparam com vida. De facto, “dizer bem” nos dias que correm é difícil, não vende. E no fundo podemos sempre desconstruir uma atitude nobre, um bom sentimento, decompô-lo em partes mesquinhas de modo a não comprometer os parâmetros. No outro extremo, a aberração, o grotesco, garante o sucesso do espectáculo, e relativiza a mediocridade estabelecida.
Em minha defesa, salva-me a mediania da minha escrita, a despretensão da minha existência. Ironicamente, as minhas obvias limitações literárias libertam-me de quaisquer desses deveres ou compromissos estéticos: uso a escrita por motivos profissionais, e estou nos blogues por mero divertimento.
Influenciável, durante a minha prolongada adolescência, empenhadamente alimentei a descrença e a melancolia. Mergulhado nos neuróticos fluidos rosados dos anos 70, durante muito tempo não dispensava a choraminguice de Roger Waters, os murmúrios alucinados de Lou Reed, os selváticos esgares de Patty Smith, ou uma triste balada de Nick Cave. Isso é que era cool. O Homem era mau, a guerra fria condenara-nos a todos, e a culpa era toda do pai. E o fim do mundo era já amanhã, facto que desde logo resolvia tudo. Entretanto ia bebendo da mais negra literatura, de génios como Capote, Camus, Steinbeck ou Malraux até quase perder o pé naquela escuridão. Não havia revolução, não havia resolução, antes uma natureza sem sentido. Existencialmente irrequieto, um dia deixei-me ir ao fundo do meu umbigo - o sítio mais desinteressante do universo. Quando voltei, muito mais tarde, cheguei diferente.
Porque não temos que ser obrigatoriamente infelizes. E porque a depressão é uma luxuosa patologia burguesa. O maior dos egoísmos, um enorme enfado.
Hoje, não tenho grande pachorra para o narcísico pessimismo militante. Tal e qual como a oposta euforia, ambas são perspectivas extremas da realidade, no mínimo inverosímeis. Entendo muito bem o potencial romanesco dum carácter misantropo, amargurado, bipolar. É a adrenalina de caminhar no arame, sobre o vazio, sempre pleno... de angustiadas emoções. Bem jogado, com algum charme, pode ser bom para o engate, um manancial de sedução. Assim se construíram muitos mitos e venerados ídolos do século XX. E depois, o pessoal acasala melhor enroscado, assim, cúmplice contra o mundo, românticas vitimas dos outros... sempre “dos outros”, num opaco limbo irreal.
De facto, a minha vida não produz um romance, não tem heróis ou moinhos de vento. Responsável pelas minhas escolhas, vivo numa família grande e agitada, filhos e enteados, que me fazem a vida negra ou me encantam até aos píncaros. É uma vida normal, um empenhado projecto de compromissos e fidelidade, premissas hoje tão mal vistas e pouco excitantes. Mas este é já um amor quase antigo, construído de rituais e de quotidiano, tantas vezes monótono e feito de acontecimentos singelos. Com os miúdos, os tachos, os sogros, a mobília... e tantos ruídos já tão familiares. Como quando o pequenote, de olhos esbugalhados, se encontra a primeira vez com o mar a seus pés. Ou quando, ensonado a meio da noite, encontro o olhar pisco e sereno do meu amor, sentado ali com o bebé ao colo... seguro. Imagens bonitas onde tudo ganha outro sentido. Um significado ainda maior. Estados de Graça que eu gosto de registar, para nunca esquecer.
Em minha defesa, salva-me a mediania da minha escrita, a despretensão da minha existência. Ironicamente, as minhas obvias limitações literárias libertam-me de quaisquer desses deveres ou compromissos estéticos: uso a escrita por motivos profissionais, e estou nos blogues por mero divertimento.
Influenciável, durante a minha prolongada adolescência, empenhadamente alimentei a descrença e a melancolia. Mergulhado nos neuróticos fluidos rosados dos anos 70, durante muito tempo não dispensava a choraminguice de Roger Waters, os murmúrios alucinados de Lou Reed, os selváticos esgares de Patty Smith, ou uma triste balada de Nick Cave. Isso é que era cool. O Homem era mau, a guerra fria condenara-nos a todos, e a culpa era toda do pai. E o fim do mundo era já amanhã, facto que desde logo resolvia tudo. Entretanto ia bebendo da mais negra literatura, de génios como Capote, Camus, Steinbeck ou Malraux até quase perder o pé naquela escuridão. Não havia revolução, não havia resolução, antes uma natureza sem sentido. Existencialmente irrequieto, um dia deixei-me ir ao fundo do meu umbigo - o sítio mais desinteressante do universo. Quando voltei, muito mais tarde, cheguei diferente.
Porque não temos que ser obrigatoriamente infelizes. E porque a depressão é uma luxuosa patologia burguesa. O maior dos egoísmos, um enorme enfado.
Hoje, não tenho grande pachorra para o narcísico pessimismo militante. Tal e qual como a oposta euforia, ambas são perspectivas extremas da realidade, no mínimo inverosímeis. Entendo muito bem o potencial romanesco dum carácter misantropo, amargurado, bipolar. É a adrenalina de caminhar no arame, sobre o vazio, sempre pleno... de angustiadas emoções. Bem jogado, com algum charme, pode ser bom para o engate, um manancial de sedução. Assim se construíram muitos mitos e venerados ídolos do século XX. E depois, o pessoal acasala melhor enroscado, assim, cúmplice contra o mundo, românticas vitimas dos outros... sempre “dos outros”, num opaco limbo irreal.
De facto, a minha vida não produz um romance, não tem heróis ou moinhos de vento. Responsável pelas minhas escolhas, vivo numa família grande e agitada, filhos e enteados, que me fazem a vida negra ou me encantam até aos píncaros. É uma vida normal, um empenhado projecto de compromissos e fidelidade, premissas hoje tão mal vistas e pouco excitantes. Mas este é já um amor quase antigo, construído de rituais e de quotidiano, tantas vezes monótono e feito de acontecimentos singelos. Com os miúdos, os tachos, os sogros, a mobília... e tantos ruídos já tão familiares. Como quando o pequenote, de olhos esbugalhados, se encontra a primeira vez com o mar a seus pés. Ou quando, ensonado a meio da noite, encontro o olhar pisco e sereno do meu amor, sentado ali com o bebé ao colo... seguro. Imagens bonitas onde tudo ganha outro sentido. Um significado ainda maior. Estados de Graça que eu gosto de registar, para nunca esquecer.
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Sim, João Távora. É isso mesmo : uma escrita feliz".
ResponderEliminar:)
Ó João,quem lhe disse que voçê não sabe escrever? Digo-lhe mais,acho que tem uma escrita,alegre,diga-mos,e intimista q.b..
ResponderEliminarMande-nos sempre mais textos destes.
Um abraço.
ERGELA
Caro João:
ResponderEliminarJá não sei se foi alguém que disse, ou se me ocorreu agora: «Feliz de quem é feliz, desde que não o seja à custa dum infeliz qualquer...» Abraço, JL
já aqui o tinha escrito à conta de outro desabafo e volto a repetir-lhe: obrigada pela partilha .. :)
ResponderEliminarE obrigada por nos fazer acreditar que vale a pena "lutar" por valores que estão em decadência. Admiro-lhe a coragem!
ResponderEliminarE concordo consigo, não há pachorra para estar deprimido, muito embora a bipolaridade seja um mal dificilmente controlado pelos insatisfeitos e todos os que questionam a sua existência e sentido da vida...
A tranquilidade também sabe bem...E oxalá seja sempre muito feliz e faça felizes os que o rodeiam e amam.
A escrita(ou os seu pensamentos e ideias)pode não agradar a todos, mas deve cumprir o seu intuito. Repare... Pôs-nos a falar consigo e a reflectir... Não é maravilhoso?
Tenha lá paciência,Pedro,mas este é mais um daqueles textos onde vou usar a sua rubrica "Gostei de ler".
ResponderEliminarSó podemos agradecer quando nos permitem participar em momentos tão especiais e felizes,como o da primeira ida à praia do Zé Maria.
Obrigada,João!
Uma vida exemplar, pelo que vejo.
ResponderEliminarAcho bem... as infecções de alegria e positivismo são sempre bem-vindas. O quotidiano encarrega-se de nos manter no planeta cinzento, sóbrios e comedidos.
ResponderEliminarJolly good, carry on!, como diriam os "Monty Python".
Só posso dizer que gostei.
ResponderEliminarErnst Jünger: "Quando escrevo sobre o que não gosto não gosto do que escrevo".
ResponderEliminarO pessimismo é excelente no que tenha de ampliador da lucidez, é atroz como postura apriorística que esconde (d)a realidade. Ainda ontem referia o assassínio generalizado da confiança nos nacionais nossos contemporâneos como a degeneração do Destino que se quer nossa marca maior.
O que o João escreve dá um gosto imenso a muito Bom Leitor e até a alguns menos dotados, como este que comenta. Pelo que se não concede, nesse delírio que foi a adjectivação de mediana, aplicada a tão atractiva produção.
Abraço
" É uma vida normal, um empenhado projecto de compromissos e fidelidade, premissas hoje tão mal vistas e pouco excitantes.
ResponderEliminarMas este é já um amor quase antigo, construído de rituais e de quotidiano, tantas vezes monótono e feito de acontecimentos singelos.
Com os miúdos, os tachos, os sogros, a mobília... e tantos ruídos já tão familiares. "
Caro JT,
"Vimos a este mundo buscar um fato", pelo que aprecio a forma como se usufrui "o entretanto". P-A-R-A-B-É-N-S pois,
extensivos a todos os seus.
Post bonito e, tal como disse Su, corajoso
ResponderEliminarNão gosto muito de ocupar a caixa de comentários com elogios a outros corta-fiteiros. Eles sabem que se não apreciasse o que escrevem (o que não tem nada a ver com "concordar" com eles) já não estaria na sua companhia. Mas este post do João está tão bom que não resisto a dar-lhe um abraço.Tanto mais que ele não é um profissional da escrita como quase todos nós. Ele escreve muito bem, no sentido em que escrever bem é conseguir descrever aquilo que, pela sua própria natureza, é difícil de pôr em palavras. Só por este post, a existência do Corta-Fitas está justificada.
ResponderEliminarJoão,
ResponderEliminarEu não o conheço, mas isso não me impede de lhe dizer que gosto muito do que escreve.
Adorei o seu postal sobre "boas maneiras" (sei que o título não é este - mas não o consigo localizar).
Recordo-me de o ter lido e pensar: ainda há, nos dias que correm, homens assim?
(Pena que não haja mais a darem a direita do passeio às senhoras.)
A vida é isso. também se faz de coisas pequenas, tantas vezes confundidas com irrelevâncias e, no entanto, tão carregadas de sentido.
Por fim, parabéns aquele olhar pisco que encontra na noite dentro. É alguém que merece, certamente, este estado de graça que nos descreveu.
céu
O sarcasmo e a ironia não são nunca totalitários. Podem é ser tristes. Quanto aos totalitarismos vêm de quem não duvida, de quem crê - mas crê mal e sem humor e amor.
ResponderEliminarMas acreditar na felicidade, como se vê que acredita, na felicidace das pequenas coisas que tem tão bem contado aqui, não faz mal a ninguém, é bom e sabe e bem.
Creio é que está enganado com o pessimismo estar na moda: não está, passou.
Continue!
O José Mari como vai com a praia?
Ao Dr. João Távora:
ResponderEliminarCreio que há uma gralha no nome de seu Filho. Se o publicar, poderá emendar?
Muito obrigado.
Não publique este comentário... apenas de "correcção"
E continue a escrever, é bom ler o seu optimismo.
Muito bom! (E as minhas desculpas pelo atraso no comentário).
ResponderEliminarObrigado pelos simpáticos comentários. Gostava no entanto de dizer que este texto (que tive um prazer enorme em escrever) esteve alguns dias suspenso, hesitei muito publica-lo na blogosfera, e mais "em ambiente Corta-fitas". Encorajado, acabei por concluir que, apesar de tudo, fazia sentido partilhar estas palavras. Na verdade elas apenas me comprometem no que refere aos princípios que quotidianamente me empenho. E isso é bom.
ResponderEliminarCom amizade,
Escrever bem ou mal... segundo que parâmetros, que formatação?
ResponderEliminarQuando um texto toca fundo, é certamente bem escrito.
« De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer as injustiças,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos erradas,
o homem chega a desanimar-se da virtude,
a rir-se da lealdade,
a ter vergonha de ser honesto. »
Eu acrescentaria:
a ter vergonha de ter sentimentos e expô-los,
a ter vergonha de ser feliz.
E quase nos desculpamos por isso.
Como diz José Gil, vivemos paralizados pela inveja, pelo medo, pela prudência, pelo olhar dos outros, pelo política e afectivamente correcto.
Felizes somos por não nos deixarmos esmagar por isso e conseguirmos manter intacta essa capacidade de maravilhamento e enternecimento perante as coisas simples da vida, a dimensão do olhar esbugalhado, límpido, de um filhote, querendo absorver tudo de cada descoberta que faz; hoje, com o mar; amanhã e todos os dias, com outra coisa qualquer.
Este post é uma lamechice pegada! Ahahah! Um abraço. Gosto de o ler.
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