Campo d’ Ourique foi durante muitos anos o centro do meu mundo. Um mundo quadriculado e plano, bom para andar de bicicleta, com o melhor cinema de Lisboa, o Europa. Sempre me pareceu o bairro perfeito, onde morava parte da minha família, se circulava com relativa segurança e possuía a mais útil carreira de autocarro, a nº 9, directa para a Avenida da Liberdade e para o mundo. Cresci num terceiro andar, com a escola da câmara logo ali em baixo. O ruído da agitada reinação nos recreios da manhã ou da tarde inspiraram por certo a minha infância feliz.Com uma família conservadora e os irmãos em casa, foi muitas vezes com os miúdos da rua que eu aprendi os mais fascinantes segredos da vida. No meio de jogos e correrias, de bicicleta ou com a bola nos pés. Ali ao lado da minha casa, ficava a Praça Afonso do Paço, um rectângulo inclinado com descampado ao meio, perfeito para o deslizar da minha reluzente bicicleta. Era ai que marcávamos o alcatrão com autódromos pintados a giz, nos quais nos debatíamos em corrida com os melhores e mais afinados modelos “matchbox” de cada um. A cada saída da pista, retornávamos a última meta atravessada. O primeiro a completar uma volta ganhava. Ao cair do sol de Setembro, mesmo antes de recolher a casa, ainda valia galgar o muro lá em baixo na encosta e trepar à copa da figueira para apanhar os últimos figos doces. E assim romper umas calças e esfolar um joelho.

Mais tarde, mais crescido, quantas vezes à saída da Escola Manuel da Maia, ainda roubávamos tempo e ao fundo da Coelho da Rocha parávamos para a futebolada da ordem. Marcadas as balizas com as mochilas, dois para dois com "guarda-redes avançado", esgalhávamos um animado desafio, que com sorte não terminava com os atletas em fuga depois de partido um vidro.
O nosso pesadelo morava ao lado, ali em baixo da rua Maria Pia. Os “índios” do Casal Ventoso permaneceram toda a vida uma ameaça constante, signicavam o fim da brincadeira, em fuga ou em lágrimas. Uma bola de futebol, mesmo de plástico de má qualidade, era um bem escasso que atraía demasiadas atenções. Os jogos eram disputados com "um olho no burro e o outro no cigano". Nem de longe imaginávamos então o protagonismo que esse malfadado bairro inevitavelmente tomou nas nossas existências.
A minha vida em Campo d’ Ourique também se jogava às escondidas ou à bola nos pátios e jardins da magnifica Igreja do Sto. Condestável. Isso acontecia a seguir à catequese, antes da missa vespertina ou quando de passagem para a Travessa do Patrocínio, a casa dos meus avós. Este omnipresente templo neo-gótico que se vislumbrava da minha janela (construído com a colaboração do meu avô José, engenheiro civil), foi o palco dos meus primeiros e íntimos passos de aprendizagem espiritual.
Depois Campo d’ Ourique também me lembrará sempre o Jardim Maria da Fonte (da Parada), ao qual lá em casa chamávamos o Jardim das Rãs. O Eduardo dos Livros onde se podia comprar um número atrasado do Diário de Notícias, trocar uns livros do Patinhas, comprar cromos mais difíceis ou até Valores Selados. E havia os esplêndidos bolos da Aloma. E a Laranjina C, mas isso já é outra história. De Campo d' Ourique foram os meus primeiros amores e foi a minha primeira namorada.E havia a Compasso, loja onde se encontravam todos os discos, livros e artefactos que fariam a felicidade de qualquer pessoa. Eram longos os momentos de deliciosa cobiça que nos concediam na loja, a mim a ao meu irmão. Era assim que plenos de desejo e de bolsos invariavelmente vazios, folheávamos as últimas novidades da BD e pedíamos para rodarem um LP meticulosamente escolhido nos infindáveis escaparates da música.
Assim, foi em Campo d’ Ourique que eu cresci. Que me fiz rapaz, a bem e a mal. Que atravessei
e palmilhei tantas vezes, tantos quilómetros. Para ir à escola, ao liceu, à praça e à farmácia, aos meus avós, à igreja. Para todo o lado e para o inferno também. Finalmente para mim prevalecerá sempre uma alegre recordação deste bairro burguês de toponímia republicana, mas afinal tão luminoso e desempoeirado, feito à medida das pessoas. Um sítio onde se pode ser feliz.Fotografias daqui
Campo d’ Ourique foi durante muitos anos o centro do meu mundo.
ResponderEliminarE do meu.
E em alguns aspectos (nostalgicos) ainda é.
E as matinés de domingo no Europa? Excelentes filmes de Walt Disney e Westerns que aì víamos...
E o 9... que me trazia sempre de volta a Campo d'Ourique...
Ali ao lado da minha casa, ficava a Praça Afonso do Paço, um rectângulo inclinado com descampado ao meio, perfeito para o deslizar da minha reluzente bicicleta. Era ai que marcávamos o alcatrão com autódromos pintados a giz, nos quais nos debatíamos em corrida com os melhores e mais afinados modelos “matchbox” de cada um. A cada saída da pista, retornávamos a última meta atravessada. O primeiro a completar uma volta ganhava. Ao cair do sol de Setembro, mesmo antes de recolher a casa, ainda valia galgar o muro lá em baixo na encosta e trepar à copa da figueira para apanhar os últimos figos doces.
Pois era... assim mesmo! Hoje, quando de visita chez mes parents (R. Pereira e Sousa), passeio o cão por essa praça...
Ainda assim o fiz esta semana ;-)
Também andei no Manuel da Maia, antes de ter seguido (naturalmente) para o Pedro Nunes.
E sim,
O nosso terror era a nossa vizinhança. Os “índios” do Casal Ventoso permaneceram toda a vida uma ameaça constante, o fim de qualquer brincadeira, em fuga ou em lágrimas.
(...)
Nem de longe imaginávamos então o protagonismo que esse malfadado bairro inevitavelmente tomou nas nossas existências.
Nem mais caro JT :-(
Para mim, o Jardim Maria da Fonte sempre foi o "Jardim da Parada".
E ainda gosto de tomar a bica no "Meu Café" ou na esplanada da "Tentadora"... ou até no "Ertilas" (onde se vendiam os melhores, e maiores, Ovos da Páscoa). O "Canas" perdeu agora a piada...
Também reparei esta semana que já não existe a "Compasso"... Quem autorizou o fechar da "Compasso"? Comprei aì tantos livros e discos... Ficou-nos a "Concorrente" e a mui especial e imutável "Ler"!
O "Eduardo dos Livros" onde se podia comprar um número atrasado do Diário de Notícias, trocar uns livros do Patinhas, comprar cromos mais difíceis ou até Valores Selados.
Saiba que ainda hoje sempre que aì entro me lembro das bombinhas chinesas, pózinhos de comichão, bisnagas e as máscaras de carnaval que sempre compravamos. E os tais quilos de livros aos quadradinhos... Em quase nada o interior desta tabacaria-livraria-jornaleiro se alterou :-))
Finalmente para mim prevalecerá sempre uma luminosa recordação deste bairro (...) feito à medida das pessoas.
Um sítio onde se pode ser feliz.
BIS!
Um bairro espectacular. Até hoje.
Bem Haja pelas belas memórias ;-)
Caro João,C.Ourique ainda é hoje apesar dos anos passados (se não fosse a próximidade com o Casal Ventoso) um dos melhores bairros de Lisboa para viver,onde ainda hoje o pequeno comércio dá uma vida própria aquele bairro,os cafés,em especial o Canas,aquela fabulosa igreja,o mercado e tantos outros pontos de interesse que faz daquele bairro muito especial.
ResponderEliminarNota:Sugeriro a visita ao meu:o de Alvalade.
Um abraço.
Caro JT o avô José não seria antes engenheiro de minas?
ResponderEliminarO melhor de tudo eram as criadas que havia em casa de cada um.
ResponderEliminarCarissimo,
ResponderEliminarObrigado. Bem Haja!
Forte abraço de um ex-morador da Luis Derouet esquina com a Almeida e Sousa
Hoje moro tout a proche da Miss Pearls. A Gente cresce e ... Mas a familia ainda lá está (Após 50 anos mudaram para um Predio na Sol ao Rato - Com elevador)...
Boa semana,
Pois sim. Vivi um ano em Campo de Ourique e jurei para nunca mais. O carro foi assaltado 3 vezes, a casa uma, não podia sair à noite sob pena de não ter onde estacionar o carro quando voltasse e na Értilas discutia-se, como numa aldeia, as minhas obras na casa de banho. É mal servido de transportes públicos e não tem um bar de jeito. Assinado: O iconoclasta que habitou na Silva Carvalho e não passa por lá sem se rir.
ResponderEliminarObrigado pelos simpáticos comentários, especialmente do Cartas de Londres que pelos vistos é vizinho da casa dos meus pais.
ResponderEliminarCaro João: Lamento o seu azar e as más memórias que lhe traz este bairro. De resto Campo d’ Ourique não necessita de uma grande rede de transportes pois vai-se a pé para todo o lado, inclusivamente para os transportes públicos. De resto, tremo quando oiço falar de pais de jovens adolescentes que actualmente vivem nos subúrbios (como eu) e têm que ir buscar as crias ao cinema ou à estação do comboio às tantas da manhã. Isso não seria necessário em Campo d’ Ourique, mas há gostos para tudo e quem goste de morar nos subúrbios :-).
Caro JT,
ResponderEliminarOs nossos pais é que (ainda) são vizinhos! Vivi em Campo d'Ourique (chez eux) até 1985 mas parti para o estrangeiro em 1991.
De momento, resido em Londres, hence assinar (no feminino) como "Cartas de Londres"...
Planeio voltar a viver em Lisboa, de preferência em Campo d'Ourique ;-)
Muito agradáveis de ler, estas memórias.
ResponderEliminarGrande post João. Com alguns anos a menos que o meu amigo, partilhei de alguns dos prazeres de que falou nos anos em que frequentei os Salesianos. É, de facto, um dos grandes bairros de Lisboa.
ResponderEliminarAbraço
Solarengo?
ResponderEliminarHá por lá algum solar?
É que, para cheio de sol, a palavra é soalheiro, sabia?
Descobri este blogue há pouco tempo. É uma delícia, farto-me de rir. Aqui há lugar para santos e para pecadores!
ResponderEliminarQuanto a Campo de Ourique:
A Compasso foi transformada num misto de loja chinesa/loja do preço certo
A Concorrente vende tralha, muita tralha a euro e meio
O Eduardo dos Livros já não é o que era. O que os salva são os totolotos e os Euromilhões.
O Canas tem preços especiais à hora de almoço
A Tentadora readmitiu um velho empregado que num ataque de fúria matou a namorada a sangue-frio perante o olhar impávido do filho desta. Ele vai preso, os amigos do balcão visitam-no, ele sai e volta a ter emprego. É a chamada reinserção social.
O Rei dos Bifes já ardeu não sei quantas vezes mas continua a funcionar.
O Ruacaná já nao serve de palco de encontro antes de noitadas mal planeadas
Os meninos do Manuel da Maia já não roubam desalmadamente os meninos dos Salesianos.
20 anos depois, continuo a adorar Campo de Ourique!
Maria Pia, Pereira e Sousa, Saraiva de Carvalho... foi este o meu seguimento. Em pequeno tive a "sorte" de aprender o conceito (de pequenino se torce o pepino) e foi o que fiz, o pesadelo que mora ao lado e que nos segue para qualquer lado. Há quem não entenda isso, há quem negue ou esconda, mas Campo d'Ourique é e será sempre o melhor bairro de sempre. O sr. Eduardo foi operado aos olhos, estava quase cego, agora encontra-se bem melhor... com a idade parece cada vez mais bem disposto. Canas, O meu Café, Tentadora, Estrelas Brilhantes, O Sr. Oliveira, A Bonina, e mais tarde Às de Comer entre tantos outros que foram abertos, sitios que fui acompanhando enquanto a minha avó bebia o seu chá com as amigas e eu jogava à bola na rua. A gatronomia rica d'O Comilão, Stop, Verde Gaio, Coelho da Rocha, Tremp, O Correio, Sal e Pimenta o Sr. Correia, o Sr. Cardozo, o Sr. Jorge, uma terra de Senhores, alguns já esquecidos ou nem por isso, o Sr. Idalino, o verdadeiro Rei do(s) Bife(s) e o Sr. Manel (Rei das Moelas), A Tasca da Tia Matilde, o grande Xurrex ao lado de um cinema que, de forma bastante infeliz, continua fechado passados tantos anos e de onde não me recordo ter visto nenhum filme, do Cinema abandonado na Domingos Sequeira por burocracias da Junta, onde ainda permanece incógnito o valor que alguns vão poder meter ao bolso. A grande Compasso que jamais iria resistir, vendo as Valentins de Carvalho a morrerem aos poucos, seria previsivel. A quantidade de lojas chinesas que existem no nosso bairro são parte da globalização, mas questiono-me que é feito do BAIRRO? A praça mantém-se, As Igrejas também, algumas delas foram abertas (devido a globalização mais uma vez), mercados continuam a abrir... estão-se a acabar os páteos, vêem os edificios, retirou-se a fonte do final da Ferreira Borges para se contruir outro edificio novo. O quartel mantém-se por mais quanto tempo? O Jardim da Parada? A Praça? O Cinema Europa? O Teatro da Domingos Sequeira? A Escola da Camara? Manel da Maia, Josefa, Salesianos, Pedro Nunes, O Águias de Campo D'Ourique? Aquela loja das sandes de torresmos da Saraiva de Carvalho ainda existe? Já não... Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, parece que tenho que evoluir, não posso parar...
ResponderEliminarOlá
ResponderEliminarÈ incrível mas estou vivendo desde à 25 anos em França , claro está venho todos os anos a Lisboa Campo de Ourique, (onde nasci). Quando leio os recites parece-me quase ver a minha infâncias certeza que nos cruzámos milhares de vezes nas ruas de campo de Ourique na Manuel Damaia, jardim da parada, Canas, o Ertilas, o Gigante etc...etc... Eu sou da infantaria 16 ao pé do quartel. Pequena via os soldados marcharem todo o longo da minha rua por baixo da minha janela. Troquei muitos cromos no Eduardo dos Livros, mais tarde andei com um moço da Compasso.
permito-me juntar aos srs., o sr. Sebastião das salas de jogos e o sr. Victor do Citânia.
ResponderEliminarcumprimentos,
LM
ResponderEliminarCaro João!
Vivi cerca de 30 anos no nº 26 da Rua Pereira e Sousa, mesmo à esquina com a Praceta Afonso do Paço. Que belas memórias este seu artigo me fez relembrar. Partilho de todas elas (com excepção as belas experiências mais próprias de rapazes:)) E que saudades do bairro que apesar ter sofrido também ele com a mudança de atitudes e mentalidades e evolução (para o bem e para o mal) dos tempos continua a ser um Centro Comercial local um bairro onde existe tudo, com a excepção dos cinemas que fecharam todos. Saudades de tempos que não voltam!! Obrigada João
soltei umas teimosas e pouco convenientes lagrimas, saudosista como sou, não puderia deixar de o fazer.
ResponderEliminarAdorei ler, revi-me nestas suas reminiscências e ADOREI, também eu sou do "velho" campo ourique, nasci e vivi nos Prazeres, onde ainda vive minha mãe, mas é sempre com muita tristeza e nostalgia quando vou a esse bairro, só é pena sentir-me uma perfeita turista, já não o conheço!!!
Agradeço as suas simpáticas palavras, Isabel.
ResponderEliminarNão cresci em Campo D'Ourique mas paredes meias, na Estrela.
ResponderEliminarConheço bem o bairro. A casa, as ruas, e todo o ambiente.
Gosto desse viver de bairro. o único senão é mesmo, nos dias de hoje o estacionamento