(Evangelho de Jesus Cristo segundo S. Marcos).

Quis o destino que eu nascesse sem quaisquer bens terrenos. Os poucos bens que possuo hoje, chegado ao auge da minha maturidade, são perecíveis ou não têm valor digno de nota. Apesar disso identifico-me dramaticamente com o homem rico retratado no desconcertante evangelho deste Domingo que passou. De resto, parece-me que apenas numa leitura simplista podemos interpretar esta “riqueza” feita dos tais bens materiais. Nesta leitura deparo-me antes com um homem cheio de dispersão (sem religião – “re-ligação”, unidade) de tal forma comprometido com tralhas, vaidades ou efémeros fetiches, que recusou (escandalosamente) um convite, ali directo, pelo próprio Jesus palpável e visível, qual felicidade eterna sem distâncias ou intermediações.
Eu por mim, gostava de atingir a sabedoria despojada do Rei Salomão. Qual era a verdadeira riqueza do Rei Salomão? Eu por mim, sonhei com um templo, uma capela ou um pequeno espaço de oração, rectangular e minimal, e chão pleno de areia do deserto. Paredes brancas, mais nada. À frente, o altar, uma pequena Arca (fraqueza minha), símbolo inspirador do mistério do santíssimo sacramento. Arca que encerrasse verbetes com todos os nomes dos Santos nossos heróis antepassados. Lá dentro, nessa Arca fantástica, permaneceria uma vela acesa, símbolo do sopro da vida que nos foi legada por Deus criador. Seria esta uma “banda larga” na minha relação com Nosso Senhor.
Este ano tenho o privilégio de dar catequese na minha paróquia a um grupo de inquietos e rebeldes adolescentes do 9º ano do Catecismo. São miúdos sedentos de respostas a emergentes, caóticas e desconcertantes dúvidas. Julgo que os posso entender bem, já que fui o mais “ingrato” dos adolescentes. E remeto-os ao diálogo livre e à reflexão. No caminho do conhecimento de uma radical liberdade interior. No caminho exigente para a felicidade que advém da relação e da entrega. Tento transmitir este legado, um difícil desafio por certo, nestes vorazes dias.
De resto aceito a realidade de uma Igreja plural. Às vezes chocantemente plural. Não pretendo ser juiz na estética, ou inquisidor das intenções da cada crente, corrente, prática ou tendência. Fazer caminho na relação com Deus é do foro individual, e recuso a má fé, integrando-me organicamente na minha comunidade, assumindo a doutrina e dogmas da minha religião. E jamais me demitirei da transmissão de uma mensagem que para mim serve a libertação interior e a felicidade, quase sempre diferida, mas verdadeira.
Com amizade dedico este texto ao meu camarada de blog João Villalobos. Sobre o Santuário de Fátima, escreverei noutra ocasião.
Muito obrigado pela dedicatória, João. Um sensibilizado abraço.
ResponderEliminarComo mero observador isento, o post do sr. Villalobos que originou esta «resposta» era, justamente, sobre o novo edifício erguido em Fátima, com ar de supermercado e 35 (trinta e cinco, leram bem) lojas.
ResponderEliminarCaro João, você escreve tão bem e defende com tanta inteligência a sua fé que fico ainda com mais pena de não a ter. Mas são textos como este que me proibem de ter qualquer tentação anti-clerical ou desrespeito por quem é crente.
ResponderEliminarGrande posta!
ResponderEliminarMuitos parabéns e obrigado por este belo texto!
Um depoimento impressionante,revelador de uma fé invejável!
ResponderEliminarTomei a liberdade de o linkar.
ResponderEliminarUm abraço
Se há coisa que me faz confusão, é um ateu que tem pena de não ter fé... É ficar a meio caminho. Se se conclui que não há causas sobrenaturais, há-as naturais.
ResponderEliminarOs sentimentos de exaltação e elevação com que os crentes lhe causam inveja, não são mais que metáforas internas para fenómenos naturais, e essencialmente humanos.
Nada que não esteja ao alcance de quem não crê no sobrenatural.
Aliás, o caminho é bem mais simples e compensador, diria eu, sem o peso da eternidade, e com a certeza de que a felicidade não é diferida mas sim presente em cada uma das pequenas coisas que podemos fazer aqui e agora, por nós e pelos outros.
Excelente testemunho. Permita-me só uma breve interpretação dos prazeres imediatos e, de certo modo, dos bens materiais, que são aqueles que nos possuem e não os que nós possuímos. Estes, os que possuímos, podemos abdicar deles, já os outros, não.
ResponderEliminarPor vezes gostava de ter mais fé daquela que tenho neste momento.Excelente post este,muitos parabens,faz-nos repensar alguns conceitos pré-defenidos por os quais as vezes nos regemos.
ResponderEliminarUm abraço.
Caro I. Rodrigues: Concordo consigo num ponto: a emergência da liberdade e da felicidade (?) deverá ser relativa ao presente. A felicidade diferida a que me refiro é contraponto ao prazer imediato - normalmente perverso e destrutivo (o exemplo máximo serão as drogas?!?). É-o em muitas outras situações em que o cumprimento do dever precede a alegria de atingir um objectivo maior.
ResponderEliminarGostei muito de ler. Abraço.
ResponderEliminarMuito bem.Brilhante.
ResponderEliminarAgradeço os simpáticos (e benevolentes) comentários.
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