Há mortos que nos levam um pouco com eles. Calculo que em Portugal haja meia-dúzia de pessoas que conheçam o Bussunda, o maior humorista brasileiro da actualidade, que morreu ontem, aos 44 anos. Conhecia-o (mal) de há muito tempo, quando, no início dos anos 80, estudámos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele em Comunicação Social, eu em Economia. Depois, também eu, brevemente, em Comunicação Social.
Na altura, já era conhecido como Bussunda, embora o seu nome fosse Cláudio Besserman, e editava, com um grupo de amigos, o jornal Casseta Popular, que se vendia no campus e nas praias cariocas, ou em shows inesquecíveis em pequenos bares de Botafogo.
Falei com ele apenas três ou quatro vezes, mas o humor radical que já então praticava marcou-me até hoje, apesar de nunca mais o ter encontrado. Bussunda nunca poupou ninguém. A Direita, que então todos combatíamos, e a Esquerda, o que então era novidade. Ridicularizava os clichés de todos os quadrantes, com uma crueldade fascinante.
Na altura, eu era militante do PT (e durante um tempo pertenci a uma corrente trotskista, imaginem) e concorri numa lista para a direcção do núcleo estudantil da Universidade. Bussunda e um grupo de “anarcas” concorreu numa outra lista intitulada “Overdose, esfaqueie sua mãe”. Prometeram “caipirinha no bandejão” (nome como era conhecida a cantina universitária) e, antes da eleições, mostrando que iriam cumprir, foram despejar uma cachaça de terceira categoria no aguado sumo de limão que era servido aos estudantes.
Na altura da apuração dos votos, cada vez que um membro da sua lista era chamado para fiscalizar a contagem, ele e os seus companheiros da “Overdose”, devidamente embriagados em pleno anfiteatro da universidade, gritavam “deixa roubar, deixa roubar” e não mandavam ninguém. Mesmo assim, ficaram logo atrás da nossa lista “petista” e à frente da do PC (pró-Moscovo) e do PC do B (maoistas) que ambos desprezávamos.
O seu jornal tornou-se conhecido, a Globo convidou-o para um programa de televisão semanal, que eu costumava ver no GNT, e ele tornou-se famoso em todo o Brasil. Apesar da “normalização”, Bussunda continuava a ter lampejos de selvajaria humorística que trucidaram consecutivamente Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Este último era caricaturado pessoalmente por ele, embora Bussunda o tivesse apoiado em várias eleições.
Mas não eram só políticos. Intelectuais e artistas de novela, empresários e pregadores de moral, corruptos de vária ordem, machões e bichas loucas, ninguém escapava ao humor de Bussunda e do seu grupo.
Em Portugal, nem nos bons tempos de Herman José, nunca tivemos ninguém parecido.
Foram estas as recordações imediatas que me ocorreram quando soube da morte dele, eu que o conheci tão mal. Mas a notícia deixa-me triste e com a sensação de que perdi alguém que iria sempre ridicularizar por mim aqueles que eu não tenho coragem, nem talento, nem oportunidade para enfrentar. Sei que no Brasil há milhões de pessoas que sentem o mesmo.
É bom ter um blogue para poder escrever isto.
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Excelente, oportuna e sentida evocação, Duarte. Continuando ainda no Brasil, e a propósito do que escreveste ontem sobre o Jobim, deixo a seguir a letra da "Lígia", uma canção que também elejo entre as melhores de todos os tempos. Mas a dedicatória, claro está, não é para ti.
ResponderEliminarEspero que a tenhas dedicado bem. Um abraço e obrigado
ResponderEliminarQuando for a minha vez, quero que escrevas sobre mim um texto tão bom como este
ResponderEliminarDuarte: apesar de gostar muito da "Lígia", não sei se será "a" melhor canção brasileira. Gosto também muito dos "Anos Dourados", igualmente do Jobim. E da "Romaria", cantada pela Elis. E da "Valsinha", do Vinicius. E do samba do Chico "Apesar de Você". Qualquer dia elegemos aqui no blogue as 10 melhores canções brasileiras de sempre. Que tal?
ResponderEliminarTu és imortal, Luís! Quanto a ti Pedro, nenhuma das que citas me parece à altura. Mas certamente há outras "melhores canções brasileiras de todos os tempos". Só que desta vez deu-me jeito que fosse a "Lígia".
ResponderEliminarGostei deste post. Não conheço o Bussunda. Mas gostei dele pela entrega. E também concordo que é bom termos um blog para despejarmos algumas coisas que nos enchem a alma. Um grande abraço Duarte!
ResponderEliminarEntão você devia estar inscrito no Bloco de Esquerda, com a Aninhas e a Joaninha.
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