quarta-feira, 12 de abril de 2006

O Grande Inquisidor

Considero-me um agnóstico tranquilo, sem necessidade de anti-clericalismos ou ataques a quem tem a fé que eu não tenho. Aliás, algumas das melhores pessoas que eu conheci eram, e são, católicos. Algumas das piores, mais chatas e mais falsas, também, mas isso agora não interessa. O que me traz ao tema é que fiquei assustado com João César das Neves, no último debate Prós e Contras, na RTP 1. Algumas pessoas sempre me avisaram que há em cada católico português um espírito inquisitorial escondido, que quer impor a "Lei de Deus" à sociedade. Sempre achei que eram exageros e polémicas ultrapassadas, típicas do século XIX. Porém, estava eu descansado nessas certezas, na segunda-feira à noite, preparado para ver um debate sobre o futuro da Europa, quando me salta um César das Neves belicoso, de olhos esbugalhados, eventualmente excitado por estar sentado ao lado de um cardeal a quem queria mostrar serviço e virtude católica, a acusar uma estupefacta Fátima Bonifácio de defender quem "mata criancinhas" e a querer por força que António Barreto (que o aturou com uma boa educação e uma paciência verdadeiramente cristãs) aceitasse que o que dividia de facto os europeus era a criminalização do aborto, os casamentos entre homossexuais, as uniões de facto e mais não sei quantas coisas que o chocavam. Tudo isto com um ar de detentor da verdade revelada, de desprezo pelos "ignorantes" que não pensam como ele, a dizer petulantemente coisas que até eu sei que são disparates (no género, "na Idade Média, a maior parte das pessoas tinha escravos..."). A cena foi ainda mais irritante porque cada declaração contra "os ateus" era acompanhada por palmas de uma plateia de jovens que deviam vir directamente do lançamento do livro do cardeal Saraiva Martins. O qual, aliás, se mostrou bem mais sereno e tolerante que César das Neves. Não sabia que ainda havia católicos assim em Portugal. É gente como César das Neves que afasta os europeus da religião.

11 comentários:

  1. Tenho pena de não ter visto o programa, na esperança que tivesse argumentos para assumir o contraditório deste seu pequeno testemunho. Confesso que admiro a coragem das posições de João César das Neves. Admito que muitos cristãos não sabem lidar com a sua "insegurança" que é conviver com a "inteligência" reinante inquisidora e moralista, e muitas das vezes de uma enorme agressividade. Ser Cristão, é a assunção disso mesmo e de um papel evangelizador. Não é fácil nos tempos que correm Duarte.

    ResponderEliminar
  2. Inquisidor e moralista é o João César das Neves. Assumir um papel evangelizador é o quê? Arvorar-se em dono da verdade? A moral não é propriedade exclusiva dos católicos que além do mais, neste país têm o costume irritante de confundirem no seu discurso catolicismo com cristianismo, como se não existissem outras religiões cristãs, com atitudes perante a vida bem diferentes (e nalguns casos mais coerentes) que a sua...

    ResponderEliminar
  3. Esqueci-me de referir que o meu comentário anterior era dirigido ao João Távora. Com o que Duarte Calvão afirmou concordo plenamente. Do João César das Neves bem podemos dizer que é um dos muitos fundamentalistas católicos que pretendem ser mais papistas que o Papa. E que prestam um péssimo serviço à própria igreja que pretendem servir.

    ResponderEliminar
  4. É Obra de Deus, dêmos graças ao Senhor!

    ResponderEliminar
  5. Caro João, sabe que eu seria incapaz de atacar alguém por ser crente e por defender aquilo em que acredita. Mas daí a querer impor aos outros o que é uma crença pessoal, vai uma grande distância. Tente ver o programa, que creio que é repetido noutros canais da RTP na TV Cabo, e depois diga-me o que acha.

    ResponderEliminar
  6. Caro Duarte: Ser democrata é muito difícil. Não é uma abstracção. É aceitar efectivamente ou outro com as suas diferenças NA RELAÇÃO. Para mim é um exercício difícil, mas do qual não prescindo. Quem é que pode dar lições de tolerância? De resto, o Cristianismo está MUITO, MAS MUITO antes da moral. De resto, a Igreja não depende só de si para se livrar de tanto ressentimento acumulado. Naturalmente, pela sua natureza terá que conviver com ele.

    ResponderEliminar
  7. A maior das confusões permanece: ser cristão não é exactamente o mesmo que ser católico! Os católicos existem desde o Concílio de Niceia e cristãos existem desde que Cristo escolheu os discípulos e falou aos que o quiseram ouvir. Não foi Cristo que disse "oiçam os que tiverem ouvidos para escutar"? E não foi Ele também que afirmou "atire a primeira pedra o que não tiver pecado"? Pergunto: porque se consideram os católicos os-sem-pecado para demolirem o semelhante e o condenarem? É que se actuarem segundo o pedido de Ratzinger/Bento XVI e cortarem qualquer comunicação com os que se afastaram da doutrina católica, como viverão consigo? Basta usarem preservativo,tomarem a pílula contraceptiva ou recorrerem a qualquer outro método anti-concepcional, e já se terão que afastar de si próprios. Não será? Vão cortar a comunicação com o irmão/ã, primo ou amigo porque se divorciou? É que estes são exemplos, até inocentes, de gente que se afasta da doutrina católica! Mas se fizerem o que o Papa diz, estarão a contrariar as palavras de Cristo. Como ficamos?

    ResponderEliminar
  8. Vocês andam é a ver demasiada televisão e a ocupar demasiado tempo com a Internet. Não sabem que isso é pecado?

    ResponderEliminar
  9. Não é bem assim!
    Comprei, li e gostei de vários livros de João César das Neves e ainda não comprei nenhum seu.

    ResponderEliminar
  10. O César das Neves é um palhaço.

    ResponderEliminar
  11. Deixemos de lado os insultos que um ou outro palhaço (esses sim) aqui deixaram e peguemos apenas nas notas sérias. Concordo com o autor: O JCN consegue raiar o campo do odiento e é pena. Infelizmente há, e sempre haverá, "católicos assim" mas sinto-me lisonjeado pelo facto de o autor ver no católico alguém que tem obrigatoriamente de ser "melhor que os outros"... pois JCN's abundam em todo o lado e não me é dado assistir a grande procupação por esse facto...

    caocompulgas é que está um bocado confuso: se há alguém que se considera com pecado é o católico que se arrepende, confessa e pede perdão. Ratzinger/BentoXVI nunca disse aquilo que ccp afirma nem a doutrina que ccp aqui refere alguma vez foi a doutrina da Igreja. Convido-o a aprofundar este tema antes de falar sobre ele.

    Voltando ao autor, peço-lhe que se desengane: asseguro-lhe que não é o JCN & Ca. que afastam os europeus da religião. Antes fosse... Pode servir como uma boa desculpa mas as razões são bem outras...

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...