Não conhecia Jaime Izquierdo de lado nenhum e não me lembro como começou o nosso contacto, tenho ideia de que um dia Jaime Izquierdo, numa viagem de avião, leu um livro meu de que gostou.
Sei que a partir de certa altura fomos mantendo algum contacto esporádico, chegámos a cruzar-nos pessoalmente algures, e o Jaime tem tido a amabilidade de me mandar algumas das coisas que vai escrevendo, essencialmente à volta da aldeia, no conceito amplo em que usa a palavra.
O Jaime tem umas ideias interessantes especificamente sobre a aldeia e coincidimos bastante no diagnóstico sobre o mundo campesino (para usar uma expressão que raramente uso), nomeadamente sobre o equívoco à volta da ideia de conservação.
É por ele que conheço o conceito de biocracia, que cito, no original, que não me atrevo a traduzir espanhol (Jaime é das Astúrias e à volta da paisagem das Astúrias que escreve): "El concepto de biocracia define um tipo de actitud tecnocrática por el que una corporación bien asentada en la investigación científica especializada e influyente en la política y la administración pública pretende el control del territorio histórico de los campesinos por medio de su mera especialidad académica, la propaganda idealizada de sus "nobles" intenciones dirigida a la sociedad urbana - la conservación de la naturaleza y la defensa de determinados iconos de la fauna - y su influencia en la redacción y promulgación de leyes e normas com las que consiguen hacer legítimas sus visiones y aspiraciones. El concepto fue desarollado por Izquierdo y Barrena".
Acabei há poucos dias um livrinho que me mandou há algum tempo "Una nueva economia para la aldea del siglo XXI" que é um ensaio bem interessante, mesmo que eu tenha as maiores dúvidas sobre as propostas para o futuro das aldeias (é certo que também não tenho propostas melhores).
Por exemplo, quando, partindo do que caracteriza a aldeia ancestral, Jaime constroi um quadro em que à família tradicional, com três gerações debaixo do mesmo tecto e é a unidade produtiva base da aldeia, acaba por contrapor a pequena empresa e a cooperativa de vizinhos (no fundo, replicando a lógico do uso comum do baldio e do conselho de aldeia que o gere) como unidade produtiva base.
A verdade é que a família é a unidade produtiva base, mas o que a define não é isso ou sobretudo isso, portanto não sei como se reconstroi um futuro para as aldeias sem se reconstruir um conceito de família que entretanto se desvaneceu.
O que me interessa, para este post, não é tanto a discussão das minhas dúvidas, mas chamar a atenção para o que escreve Jaime Izquierdo, vale a pena ler, para quem se interessa por esse tal "mundo campesino" que assentava em aldeias que hoje se reduzem a aglomerados de casas, estando em vias de deixar de ser o elemento estruturante da cultura e do território não urbano nem industrial.
Curiosidade por curiosidade, fixei-me na família com três gerações debaixo do mesmo tecto. Por motivos essencialmente económicos vim viver para a província e esfalfo-me e gasto dinheiro para conseguir, de quando em quando, ter algum filho e netos a passarem o fim-de-semana comigo. Invejo profundamente a família de um genro, cujos avós puderam investir tudo o que tinham (ganho fora de Portugal) num prédio de seis andares em Lisboa e tiveram as famílias de 5 filhos e filhas a viverem cada um em seu andar, cimentando relações de amizade entre primos que não encontro noutro qualquer exemplo dos meus conhecimentos.
ResponderEliminarSem ir tão longe, um casal jovem devia iniciar a vida numa casa pequena, mudar para uma maior à medida que o número de filhos aumentava e regressar uma casa mais pequena - e mais próxima de apoios à saúde - após a reforma.
Tudo ideais. A realidade é a avó das gémeas Mortágua a viver sozinha num casarão de 6 ou 7 divisões (não sei mas é o habitual naquela zona das Avenidas Novas) e centenas de jovens casais a terem o primeiro ou mesmo o segundo filho em casa dos pais porque não conseguem aceder a casa própria.