sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O efeito catastrófico da aliança entre a ignorância e o poder (sobre fogos)

"o amigo e seus compinchas não vêm que só com herbívoria em abundância é que isto lá vai? Neste momento, o agricultor recebe 20 euros/ fêmea de pequenos ruminantes ano a partir de um efetivo de 10 fêmeas adultas. Este valor por animal é muito baixo para que a atividade seja atrativa, mas também, e sobretudo, porque não tem em conta os serviços de ecossistema e sustentabilidade florestal que esta atividade oferece. Está na hora de mudar isto, é preciso fomentar a pastorícia, para isso é preciso propor que este valor passe para os 80-100 EUR/ fêmea adulta. Fazer esta mudança é muito importante, a herbívora é fundamental na preservação do nosso território".


Eu tenho uns admiradores cuja actividade mais relevante, no que me diz respeito, é demonstrar que sou um estropício moral e uma fraude intelectual e o parágrafo acima é de um desses admiradores que, até quando concordam comigo, fazem um grande esforço para demonstrar que eu só digo disparates.


No caso do primeiro parágrafo deste texto, trata-se de uma crítica à minha ideia de que é preciso pagar a gestão de combustíveis finos a quem a faz.


É público que o que procuro é uma maneira simples, operacionalmente simples, de concretizar esta ideia que, em si, é bastante consensual, o problema é que mal se começa a passar da ideia geral de pagamento do serviço de gestão de combustíveis finos para a concretização da ideia, as divergências explodem (eu próprio divirjo de muitas das coisas que já defendi no passado, por isso mudei de ideias, de maneira geral sempre no sentido de pensar em soluções mais simples e mais exequíveis).


A crítica acima é uma das mais habituais, e consiste no vício de raciocínio mais abundante nesta discussão.


Primeiro imagina-se uma situação ideal (o que é preciso é inundar isto de herbivoria, a forma mais eficiente é com rebanhos, vamos tornar a actividade de produção tão atractiva que toda a gente vai querer ter rebanhos) e depois desenha-se um mecanismo para atingir essa situação ideal, que é independente da realidade existente.


O resultado da adopção da proposta enunciada acima é que o incentivo à produção tem de ser tão alto que, para além das distorções de mercado, abre possibilidades interessantes ao seu uso para fins diferentes daqueles que justificam que os contribuintes paguem o incentivo.


No caso concreto, é muito fácil que a adopção da proposta faça aumentar o efectivo pecuário, sem qualquer efeito na gestão de combustíveis, por estarem todos estabulados.


A resposta a isso é condicionar o incentivo à criação em extensivo, com pastoreio. O resultado, para dar eficácia a esse condicionamento, é criar um sistema de fiscalização que, evidentemente, não consegue controlar se os animais estão uma hora no pasto do lameiro próximo ou se fazem uma volta no monte para comer mato e abre portas a acordos entre os fiscais e os fiscalizados para dividir a meio o incentivo, mantendo os animais em estabulação.


É exactamente o mesmo problema das centrais de biomassa (de resto, se eu tivesse um rebanho de cabras apresentava uma candidatura ao apoio das centrais de biomassa e gostaria de ver os avaliadores a demonstrar que as cabras não são centrais de biomassa), com um forte incentivo à produção, esquecendo que a dieta das centrais (materiais densos com elevada intensidade energética) é incompatível com a dieta dos fogos (materiais finos, essencialmente ar e água, com baixa intensidade energética), o que vai ter como resultado que as centrais ou vão à falência, ou consomem materiais que pouco influenciam na progressão do fogo.


É por isso que nos últimos tempos me tenho focado numa só proposta, com um resultado bem definido, fácil de verificar e directamente relacionado com a progressão do fogo (a quantidade de combustíveis finos que existe num terreno) e orientada para a realidade económica e social existente, em que diferentes pessoas e entidades, em diferentes contextos, fazem opções económicas diferentes que podem ter como resultado a gestão de combustíveis finos, sendo o apoio para todos os que obtém esse resultado, seja de que maneira for.


E, já agora, com um incentivo que apoia o que existe, mas é insuficiente para gerar uma actividade cujo objectivo essencial é captar o financiamento (essa é a outra crítica mais frequente, que o valor de incentivo proposto não dá para limpar mato sem objectivo, o que é verdade e é uma das características essenciais da proposta, exactamente para não incentivar actividades que não têm sentido económico).


O que tem bloqueado este tipo de propostas (não, não sou o único, a fazer propostas), quer sejam sobre gestão de combustíveis, quer sejam sobre a separação de funções de protecção civil e gestão do fogo florestal, é uma coisa terrível, bem visível na globalidade do sistema de protecção contra o fogo: a aliança entre a ignorância e o poder, bem ilustrada pela coligação informal autárquico-bombeiral, apoiada pela corporação dos jornalistas (estou a fazer uma generalização injusta para com os excelentes comandantes de bombeiros, que os há, e os autarcas mais sensatos, que também os há).


Sem resolver esse nó górdio da mesma maneira que Alexandre o resolveu no seu tempo, talvez com a actualização tecnológica que nos permite usar motosserras em vez de espadas, não vamos lá.

15 comentários:

  1. 3 gerações fomos nascer à mesma casa de família enquanto houve médico na zona. a Família teve rebanhos de cabras e ovelhas e manada de vacas.
    plantou sobreiros, oliveiras, pinheiros e eucaliptos. passado que não volta.
    atualmente sentado na poltrona em Lisboa não tenho dúvidas sobre como resolver seja o que for: com excepção do meu cotidiano.
    na rua com frequência ouço:
    ' à sua cabra'
    'à sua vaca'


    gosto do que escreve  e também mudo muito de opinião porque as circunstâncias se alteram e nós idem

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  2. Ora aí está um belo nicho de mercado em perspectiva, win-win: a gestão do território. Basta que o estado entre com o dele (nosso).

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  3. Sendo os terrenos rurais uma mercadoria, tal como os alimentos ou os imóveis, é deixar o mercado operar com minima intervenção estatal. A procura e oferta individuais irão criar riqueza que permitirá melhor gestão dos terrenos.

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  4. O problema é quando a melhor opção é o abandono, que tem efeitos sociais catastróficos

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  5. Teremos de viver com isso.  É o pequeno preço a pagar pelo liberalismo. Isso do papá Estado só traz desilusões. 

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  6. Não é novidade o uso da pastorícia para "limpeza" das propriedades. O problema está na contenção dos animais num local limitado. Conheço um caso de um jovem (empreendedor?!) que resolveu comprar um terreno com+-2000m2 que devido à localização não era atraente para nada mas razoávelmente bem limitado por um muro e curso de água . O terreno era só silvado e um pouco de mato. Comprou duas Ovelhas e em menos de uma semana ficou a modos que campo de futebol. Vendeu as Ovelhas e está agora à espera que o "matagal" cresça novamente...

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  7. Eu tenho a certeza de que o poder está bem informado e conhecedor, não está na ignorância. Da mesma forma que, quase a 100%, não decidem a preceito porque não querem ou outra intenção fala mais alto.


    O conhecimento e saber estão aí à mão de semear… optam pela gestão natural de 8 em 8 anos. E o cinismo de oferecer uma esmola a quem activamente tudo fizeram para prejudicar.

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  8. O Estado tem uma função social da qual não se pode demitir 
    Ou também defende liberalismo na saúde,  educação e segurança? Só falta dizer que se um hospital der prejuízo é para fechar... ou que a escola é para dar lucro.

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  9. Gosta-se de chamar ao outro socialista ou estatista, mas no fundo n9 fundo o Estado é que é.
    Mas na prática seria fazivel, até que as cabras se sindicalizassem.

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  10. Teria sido mais acertado comprar cabras. Duvido que as ovelhas seja eficazes em grandes silvados e mato mas se a ideia era só "amandar umas bocas" tudo bem.

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  11. As cabras até a casca das árvores comem, ovelhas é capaz de ser mais soft.

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  12. Anónimo sem penas, a saúde é um negócio como qualquer outro, e deve obedecer àscregras de mercado. O Estado não tem que andar a subsidiar. O mesmo nos terrenos. Se não há interesse individual... isso do "interesse colectivo " quem define, o comité do Bloco?

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  13. E que tal colocar o Iva zero para productos provenientes do gado caprino?

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  14. E estamos a viver com isso, com os belos resultados que se vê. Rodeado de uma bolha, tudo é aceitável, em nome de princípios gerais e abstractos. É assim que os burocratas atuam.

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