
O boneco acima é uma imagem do satélite MODIS AQUA de ontem, 29 de Julho, às três da tarde.
O boneco ilustra aquilo que sabe qualquer pessoa que tenha interesse na gestão do fogo, que é muito diferente de ter interesse no espectáculo do fogo, a situação complicada de gestão do fogo desse dia, a essa hora, resulta, essencialmente, das condições meteorológicas, o que no boneco se vê pela direcção do fumo dos incêndios, consequência da direcção do vento entre Leste e Nordeste.
Todos os anos, quando arde, vejo as mesmas pessoas a ser ouvidas para analisar as situações críticas (eu incluído), a dizer essencialmente o mesmo (ontem, até o patrão dos patrões dos bombeiros, António Nunes, dizia que, dadas as circunstâncias, uma boa parte do que os aviões andavam a fazer era dar conforto às pessoas, porque com terreno tão acidentado e inacessível não conseguiam pôr "botas no terreno" para consolidar a supressão) e, cinco minutos depois de saírem do estúdio, a esmagadora maioria do jornalismo, quer pivots, quer repórteres no terreno, voltarem às tretas dos meios aéreos, dos incendiários, dos eucaliptos, da imprevisibilidade do vento, dos meios empenhados no combate e essas coisas todas que os tais que se interessam pela gestão do fogo, cinco minutos antes, tinham dito que não eram coisas muito relevantes.
Ontem tive a honra de ser interrompido pelo directo com o Senhor Primeiro Ministro e tinha acabado de dizer que a conversa dos meios aéreos não interessava nada, e como foi uma interrupção inopinada e ninguém mais me disse nada da televisão em que estava a falar, fui ficando na video chamada, para saber se voltava a entrar em antena.
Foi assim que, dois minutos depois de eu acabar de dizer que a conversa dos meios aéreos não interessava nada, verifiquei que o senhor que acompanhava a visita do senhor primeiro ministro à autoridade nacional de protecção civil, em vez de querer saber por que razão se estava na protecção civil em vez de se estar na secretaria de estado das florestas ou na presidência do conselho de ministros, em vez de querer saber por que razão o governo tinha excluído os privados do acesso ao programa de gestão activa da floresta, em vez de querer saber por que razão a senhora ministra do ambiente tinha mandado o fundo ambiental voltar a financiar centrais de biomassa, quando a mesma medida, tomada por José Sócrates, já tinha sido tomada e abandonada por falta de resultados, quer discutir uma treta qualquer sobre a importância que na situação que se vê no boneco acima, teria ter 72 ou 79 meios aéreos.
E é isto, permanentemente, alimentado por directos infindos, em que repórteres no terreno conversam com bombeiros e autarcas (sim, os autarcas, que passam a ser especialistas de gestão de fogos por ganharem uma eleição, coitado do Emanuel Oliveira, para saber alguma coisa de uso tradicional do fogo foi fazer um doutoramento porque ninguém lhe explicou que bastava concorrer a uma autarquia), e depois correm a ouvir aquele senhor do Chega que fala sempre muito zangado com tudo, e tem sempre dez soluções milagrosamente simples para problemas complexos (parece o Bloco nos seus tempos áureos), e nem são capazes de reparar que a senhora ministra da Administração Interna, embora com alguma falta de propriedade de linguagem compreensível, disse duas coisas sensatas: 1) que não sabia grande coisa do assunto, e portanto se iria informar com quem sabe (ninguém lhe explicou que para isso a Autoridade Nacional de Protecção civil não é o sítio certo, mas enfim, compreende-se que tenha sido enganada); 2) que ter 72 ou 80 meios aéreos seria irrelevante para alterar a situação que estava a ocorrer.
Tenho insistido que, actualmente, em matéria de fogos, só tenho uma proposta: pagar 100 euros por hectare a quem tenha o seu mato com menos de 50 cm de altura.
Acho que vou começar a insistir numa segunda proposta, mais complicada, cursos intensivos e obrigatórios de gestão do fogo para os jornalistas, sem os quais ficariam impedidos de fazer peças ligadas ao assunto.
até ao 'cu do mundo' que é a aldeia de
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ResponderEliminarSubscrevo
Triste espectáculo. Fruto de ter de criar "conteúdo"24/7, e da curiosidade mórbida dos espectadores.
Depois, com o advento da internet e do google, criou-se a ideia de que qualquer um é especialista, basta "pesquisar", consultar fontes, que bota faladura sobre tudo e um par de botas, seja fogo, Gaza, economia ou habitação. Basta ter cara laroca, cair em graça, ou ter uma "plataforma". É giro nos programas de bola, em temas sérios nem por isso. Mas as tv continuam a dar palco a comentadores profissionais ao invés de pessoas com conhecimento técnico ou académico das suas respectivas áreas.
Os fogos existem em grande quantidade, só porque são um negócio para muitos. São uma conquista de Abril. Antes havia poucos e eram controlados..., porquê? Porque os bandidos estavam na cadeia, não em São Bento!
ResponderEliminarProf. Henrique Pereira dos Santos, permita-me a ousadia de dizer que na zona onde eu e toda a minha família vivemos e temos atividade agrícola e florestal, Grândola, a presença de um helicóptero estacionado em todos os períodos críticos de incêndio desde 2010 tem sido um garante de ataque inicial/primeira intervenção que tem impedido que muitas ignições se transformassem em incêndios, permitindo que a região do Alentejo litoral coberta por este meio aéreo tenha áreas ardidas bastante reduzidas nos últimos anos.
ResponderEliminarA serra de Grândola é de orografia muito complexa, e os areais existentes nas zonas que não são serra são também muito difíceis para os meios terrestres.
Henrique,
ResponderEliminarGrato pelo tempo que dedica a partilhar as suas opiniões. Gosto sempre de pessoas que partilham o que sabem sem pruridos de serem aceites ou não. Obrigado.
Posto isto, faço-lhe uma questão. Porque motivo não acredita nas centrais de biomassa. Várias vezes faz referência às ditas centrais e indica que não fazem parte da solução. Já em tempos lhe perguntei porque não acredita nelas mas não me lembro da sua resposta ou não me chegou a responder. Note que não acho que tenha de me responder, o blog é seu e deve somente escrever o que quer, sucede que tenho bastante curiosidade em perceber o seu ponto até porque sugere várias vezes que se devia subsidiar a limpeza do mato (a tal proposta de x€/hectar) mas o que se faria a esse material?
Obrigado,
No tempo da outra senhora,“havia poucos fogos e eram controlados” porque, em 1960, 45% da população vivia da agricultura, em 1974 eram 30% e agora são 4,5%, a maior parte de idade avançada. Os terrenosque agora são pinhal, eucaliptal e matos eram terras de pão ou de pasto. Havia muito pouco que ardesse e havia muita gente para apagar.
ResponderEliminarPois eu proponho que se pegue fogo, em Novembro, Dezembro, Janeiro e Fevereiro a grande parte da floresta, em cortes continuos de fogo, principalmente em áreas inacessiveis. É deixar arder no Inverno, fiquem descansados que as árvores não morrem e a flora regenera.
ResponderEliminarEssa foi das melhores que ouvi.
ResponderEliminarA dieta do fogo e das centrais de biomassa é substancialmente diferente, o fogo come materiais finos sem grande intensidade energética, a central quer comer materiais densos com grande intensidade energética.
ResponderEliminarO fogão era a lareira, a lenha bem contada.
ResponderEliminarA Pobreza de então verso o inferno atual.
Em menos de nada, já veio o senhor Secretário de Estado da Protecção Civil desmentir a MAI. Um dos inúmeros presidentes de Câmara PSD com 3 mandatos (no caso, o de Ansião) que o Dr. Montenegro encaixou no governo e nas empresas públicas e que dominam a arte do lero-lero para jornalistas e outros lorpas.
ResponderEliminarDe fogos florestais não percebo nada. De incendiários de opinião percebo os que estão no governo a dizer o contrário do que disseram quando estavam na oposição e vice-versa.
ResponderEliminarÈ para isto que os jornalistas trabalham para o espectáculo politico/partidário e conversa de café.
por vezes é impossível voar com fumo intenso, como em Arouca
ResponderEliminarsentado no sofá percebo de tudo
ResponderEliminarSó não concordo com "
ResponderEliminarSe é certo que em certas situações os meios aéreos não servem para parar o fogo, também é certo que noutras situações podem dar uma ajuda se também houver combate no terreno. Claro que se não houvesse eucaliptos esses meios aéreos seriam ainda menos necessários
ResponderEliminarPortanto, 100 euros por hectare deve ser entendido como um incentivo ao cuidar da floresta. É isso?
ResponderEliminarAlguém sabe quanto se paga para limpar um hectare de floresta?
Eu diria que tal seria possível se fossem "dados" 500 para uma despesa de 450, por exemplo. O resto é conversa.
Não é o resto que é conversa, é o mesmo argumento repetido incessantemente, apesar das explicações, é muito cansativo tentar discutir um argumento com quem não quer saber de argumentos
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