sábado, 4 de janeiro de 2020

Deus... nos ajude

(...) A nossa conceção de justiça, por exemplo, depende da existência de Deus. Não há direito natural (“direitos humanos”) sem Deus. Não vale a pena abanarem a cabeça, porque um raciocínio cem por cento secularizado não nos garante os direitos humanos. Sem transcendência, isto é, sem uma dimensão independente da imanência física, a soberania da ciência, da economia e do poder político, torna-se impossível contemplarmos algo como o amor, na nossa vida privada, ou a justiça, na nossa vida coletiva. A ideia de “injustiça” é uma criação da Bíblia. É a essência dos salmos: fazer uma injustiça é ferir Deus. E claro que o Novo Testamento, a adenda das adendas, aprofundou esse espírito: magoar um ser humano é como magoar Deus; toda a vida humana é sagrada e inviolável; os poderes humanos e terrenos não podem violar a vida humana. Deus, e não o homem, é rei. Só esta premissa nos liberta das ditaduras terrestres da cidade dos homens; só esta premissa nos liberta do relativismo dos nossos totens, nações, classes, impérios, partidos, fações, tribos, modas.


Também é por esta razão que a moral estoica e “moral” hedonista não são suficientes. Santo Agostinho, o grande degrau depois de Paulo, atacou os hedonistas porque estes diziam (e dizem) que basta o prazer para que uma vida humana mereça ser vivida. Mas o que acontece quando a receção de prazer desaparece? Santo Agostinho também atacou os estoicos, porque estes diziam (e dizem) que basta a autonomia racional do “eu” para que a vida tenha a sua moral e felicidade. Mas o que acontece quando o “eu” não tem ou perde a autonomia racional? Ou seja, a sacralidade da vida humana não pode estar dependente de capacidades mentais e/ou neurológicas, porque, caso contrário, um bebé, um deficiente mental e um idoso com Alzheimer passam a ser vidas não sagradas, tocáveis, violáveis. A sacralidade da vida humana não depende de qualquer critério humano e mensurável. Todos os seres humanos, seja qual for a sua funcionalidade, são sagrados porque foram criados por Deus. Só este salto de fé pode fechar o círculo dos direitos humanos, os direitos inalienáveis que são intrínsecos à condição humana, direitos que não dependem de poderes terrenos. (...)


 


Henrique Raposo hoje no Expresso 

4 comentários:

  1. Que disparate. O nosso conceito de justiça não vem de Deus mas sim do respeito pelos direitos dos outros. 
    Alem disso a vida humana nunca foi inviolável aos "olhos de Deus". 
    O catecismo da igreja católica aceitava até há pouco tempo a pena de morte. Isto quase 200 anos depois de alguns estados seculares a retirarem da sua legislação.

    Deus não é necessário á justiça nem á sacralidade da vida humana. Poderá ser até contraproducente. Basta ler um pouco da bíblia para se perceber como é fácil "merecer" a morte ao olhos de Deus: Trabalhar ao sábado; desagradar ao pai; ter as convicções religiosas erradas; etc.

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  2. Então só podemos concluir que os macacos andam a ler a Bíblia às escondidas. 

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  3. Exatamente. Os animais superiores têm conceitos de justiça, de respeito pela vida, têm moralidade, etc. Essas não são sequer caraterísticas humanas, muito menos caraterísticas divinas - são caraterísticas dos animais superiores (alguns mamíferos, pelo menos).

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  4. O Henrique Raposo faria bem em deixar-se de especulações filosóficas e dedicar-se, em vez disso, à experiência e à ciência - ou seja, à observação do mundo à volta dele. Do ponto de vista filosófico, isto é, racional e especulativo, o Henrique Raposo tem razão - é preciso um Deus para fundamentar, do ponto de vista racional, uma série de coisas (já Descartes tinha descoberto isso). Mas, do ponto de vista científico, experimental, Henrique Raposo não tem razão - existem montes de animais superiores e montes de culturas humanas que, sem terem Deus, têm no entanto todas essas coisas (direitos humanos, justiça, etc).

    (Cum saber de experiância todo feito, já dizia Camões.)

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