domingo, 29 de junho de 2025

"As casas não são uma mercadoria"

A frase que uso como título do post não é minha, é de André Escoval.


De acordo com o que ontem foi sendo repetido pelos vários orgãos sociais que reproduzem, acriticamente, o que a LUSA escreve, André Escoval é "um dos porta-vozes da organização e membro do movimento Porta a Porta", noutros casos aparece como membro da "Casa para viver", mas isso é irrelevante porque, na verdade, é (ou era, que no PCP essas coisas raramene são a preto e branco) mais um militante do PC a cumprir uma tarefa atribuída pelo partido.


Não admira por isso que quem seja do PC diga frases como esta (versão mais extensa) "As casas não são uma mercadoria, as casas têm uma função social que é as pessoas viverem nelas".


Esta ideia de que as coisas e os serviços se dividem entre mercadorias ou funções sociais é uma ideia que persiste há muito tempo e vai para lá dos limites dos partidos, sendo partilhada por gente com opções ideológicas muito diferentes, apesar do resultado prático dessa tontice que se pode observar largamente em todo o século XX.


Os alimentos não são mercadoria, têm uma função social, ou o trabalho não é uma mercadoria, tem uma função social, que seguem exactamente a mesma lógica, são menos usadas porque a ideia de que os trabalhadores não têm nada que reivindicar o justo pagamento do seu salário, porque não são mercadoria, é uma ideia um bocado incómoda.


As casas (ou a saúde, ou a educação) conseguem facilmente passar em frases deste tipo, desde que ninguém se entretenha a perguntar se os trabalhadores da construção civil devem ser pagos, como vulgares vendedores de trabalho, ou devem ser dignificados como produtores de funções sociais, isentos das questões de mercearia.


Se os fornecedores de materiais se devem alimentar da glória de servirem funções sociais, ou ser justamente pagos pelo serviço que prestam.


Se os produtores de cimento, de madeiras, de metais, etc, usados nas casas, se devem contentar com diplomas de cidadão exemplar no exercício de funções sociais, ou deixar-se corromper pela ideia de receber a justa remuneração do seu trabalho e capacidade de produção.


É a partir desta ideia de que a propriedade, o seu uso e a livre troca de bens e serviços entre compradores e vendedores são coisas intrinsecamente más, porque resultam em negócios, que uma grande parte da sociedade acaba a defender que a casa onde vive não é sua (como acontece com 70% dos portugueses) mas de quem precisa dela e enquanto precisa dela.


É muito fácil ler barbaridades económicas de pessoas cultas e com mundo sobre habitação, em qualquer lado, tendo eu escolhido dois exemplos ao acaso usados por pessoas manifestamente pertencentes às elites intelectuais do país:


"É importante regular o mercado da habitação, que é menos regulado que o parque automóvel [a ideia de que o mercado da habitação não é regulado é tão longe da realidade, que eu nunca deixo de me espantar com estas afirmações delirantes, apesar da sua frequência]. Os bens essenciais não deveriam ser produtos de investimento e especulação [igualmente para esta ideia de que o que é essencial, como os alimentos, deve ser gerido sem ser numa base de mercado, que é uma ideia testada incessantemente durante o século XX, sempre, sempre, sempre, com o mesmo resultado de escassez e fome, que não chega para matar a ideia] ... Um automóvel não pode circular sem estar aprovado pela inspecção, e bem. Mas um edifício de habitação pode estar degradado, dezenas de anos a servir de ninho para pragas de pombos e baratas, ao serviço da inflação sem qualquer agravamento fiscal ou responsabilidade social [se o carro não estiver a ser usado, acontece-lhe exactamente o mesmo processo de degradação, e para que volte a ser útil, precisa de investimento para a sua reabilitação, exactamente como as casas. O que é diferente é a quantidade de gente que acha socialmente justo obrigar alguém a ter prejuízo numa casa, ao contrário do que se passa nos carros, para garantir que a casa é usada, mesmo que em más condições]. E não é drama nenhum regular os preços das rendas [como é possível que alguém, culto, informado, qualificado, não faça a mínima ideia de que as rendas, em Portugal, são fortíssimamente reguladas, ao ponto do Estado definir o seu aumento anual, mesmo contra a lei, como aconteceu no governo de Costa?]".


"a não regulação do mercado da habitação (óbvia e comprovadamente incapaz de se autoregular, algo que - de resto - não lhe é exigido) [o mercado auto regula-se sempre, neste caso, com a restrição artifical da oferta, quer por via das restrições de licenciamento, quer por via da kafkiana regulamentação aplicável à construção, os preços sobem e os mais pobres são expulsos dos mercados formais, resolvendo os seus problemas em mercados informais, esses sim, por definição, completamente desregulamentados, como está a acontecer na habitação] há de ser dos maiores erros dos últimos governos do ps e do psd, incapazes de perceber que não interferir num sector fulcral para a vida das pessoas é o mais rápido e aflitivo gerador de miséria [mas qual gerador de miséria? 70% dos portugueses são donos da sua casa, portanto, de cada vez que os preços sobem, ficam mais ricos, dos outros 30%, há uma larga percentagem que ou está em casas do Estado, com rendas baixíssimas e frequentemente não pagas, ou com contratos antigos em que os senhorios são obrigados pelo Estado a desempenhar a função social de apoio aos mais velhos e aos mais pobres]".


E é nisto que estamos, em manifestações promovidas por gente que acha que as casas não são mercadoria e com a presença e apoio de responsáveis pela lei de bases da habitação, como Helena Roseta.


Ter pessoas com ideias deste tipo a desenhar leis de bases do que quer que seja, isso sim, é o caminho para a servidão e a miséria.

28 comentários:

  1. Para começar informo que não me revejo nas teorias que quem é proprietário deve abdicar do seu direito de fazer com o seu imóvel o que bem lhe apetecer. Nem discuto que existe regulação, só porque o Estado define a percentagem do aumento das rendas. Não estou tão pouco contra o liberalismo que dita que o mercado e o que o mesmo deve funcionar livremente e assim se auto regula.


    Mas o que eu vejo é a impossibilidade de as gerações a seguir à minha incapacitadas para conseguir casa, seja pela via do arrendamento, seja pela via da aquisição. Isto claro, salvo as exceçoes que são a minoria, que o governo com as medidas do IRS e de apoio à habitação ajudou a conseguir uma casa.
    Fala-se em falta de casas, eu acho que o que falta é a capcidade para as conseguir porque estamos a competir num mercado no qual não temos capacidade de acesso. Afinal ainda  há uns anos não se verificava a crise que hoje existe, e a população mesmo com a imigração à vontade, não aumentou assim tanto.
    Assim quando se aponta como solução construir mais casas, se as mesmas não estiverem blindadas ao mercado livre irá acontecer mais do mesmo.
    De igual forma a redução de impostos na construção, licenciamentos, redução dos mesmos, e afins, se o produto dessas medidas não ficar mais uma vez blindado ao mercado livre, a saga continuará. por fim há que ter em atenção que a construção blindada ao mercado, social, tem os seus limites nos recursos existentes. Portanto acho que vamos ter assunto por muitos e longos anos.


    A solução ideal seria os portuguesas terem capacidade de acesso ao mercado livre do imobiliário, mas acho que mais depressa se constroem casas do que isso acontece.
    Enfim aguardemos os próximos tempos.

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  2. Que me diz a isto? Alguém, que conheço, pôs no mercado um apartamento para arrendamento ao preço corrente de 1.500 eur/ mensais, em zona privilegiada de Lisboa. O Estado arrecada ao senhorio 28 º/o da renda.

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  3. "Un Estado--dice Hobbes (Leviatan) -puede forzarnos a obedecer, pero no a que nos convenzamos de un error

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  4. O Estado "rouba" a esse cidadão 420 € mensalmente. Quando é necessário substituir uma porta ou uma janela o Estado como parceiro de negócios desse senhor, também, paga 28% do custo?

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  5. O PCP, tal como os restantes partidos, tem e deve ter o direito de não revelar quem é ou deixa de ser seu militante. O Estado não tem nada que saber quem é ou deixa de ser militante de qualquer partido.

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  6. As despesas de manutenção são dedutiveis aos rendimentos prediais.
    A não ser que os senhorios queiram receber livre de impostos.
    E já agora quem trabalha?  IRS às urtigas.
    Ele há cada cromo.

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  7. "O Estado não tem nada que saber"
    A não ser que a pessoa em causa seja militante do Chega, não é balio?
    Imaginemos Gouveia e Melo presidente da república a nomear um militante do Chega para chefe da casa militar:
    https://www.presidencia.pt/presidente-da-republica/a-presidencia/servicos-de-apoio/casa-militar/
    Uma assembleia da república de esquerda, imaginemos, a da maioria de Sócrates ou a da "Geringonça" ficaria impávida e serena? O que escreveriam os jornais do regime sobre o assunto?

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  8. A sua resposta é extraordinária.
    As despesas de manutenção são dedutíveis nos impostos, mas o Estado não entra com os 28% que cobra a título de comissão de aluguer, limita-se a aceitar que os 100% pagos pelo senhorio não sejam taxados duas vezes, quando é feito o investimento, e quando é obtido o rendimento.

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  9. Em que é que esse comentário completamente inútil interessa para a discussão?

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  10. Caro cromo,
    Imaginemos que compro esta porta:
    https://www.avantiportas.pt/?gad_source=1&gad_campaignid=18271990285&gclid=Cj0KCQjwyIPDBhDBARIsAHJyyVjBXnHtR0qA3LlPL_25NO1OGme0_A8eFcKKscJ3sVOTygf7wE0gVR0aAq4YEALw_wcB
    Por 840 euros, o meu sócio, o Estado dá-me 235 € desse valor? Ou só não me vai taxar duas vezes? 
    (já nem vou falar do IVA, da mão de obra para a montagem da porta, etc e tal, diria que o meu ""sócio" só quer os lucros e não ajuda com as despesas)

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  11. E que tal se trabalhassem para ter uma casa.

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  12. A sua resposta ainda é mais extraordinária.
    Pode não estar de acordo, mas não é assim em tudo? Quando adquire o que quer que seja paga impostos.  Certo? Seja para que fim for.
    Se rentabiliza a sua formação em trabalho prestado, paga impostos.
    Se investiu num meio de produção, paga impostos quando adquire, e paga quando vende o que produz. Certo?
    Então se é assim, porque que raio é que alguém que transforma uma casa num investimento do qual obtém rendimentos, não tem que pagar impostos sobre os mesmos?
    Não paga impostos sobre os rendimentos de investimentos mobiliários?
    Eu considero bem mais escandaloso o IMI na habitação. A casa é comprada para ter um teto e depois paga por algo que é seu e é indispensável à vida em sociedade.

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  13. Em resumo, diga-me qual o rendimento em Portugal que não é taxado, independentemente das despesas para manter a fonte de mesmo?
    Se o rendimento proveniente de rendas, no caso casa como investimento, é para deixar de ser taxado, então que dizer do IMI das habitações e de outros impostos que incidem sobre a posse de bens de suporte à vida de qualquer pessoa, que são taxados aquando da sua aquisição.

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  14. A crise era pior há uns anos?
    "A crise ia-se resolvendo por que se construía mais", sim construía-se mais, mas ia-se resolvendo especialmente porque a percentagem da população que conseguia aceder ao mercado da  habitação era muito maior que hoje.Como já disse: aguardemos.

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  15. Sim, muito pior, mais gente sem casa, mais bairros de barracas e ilegais, casas mais superlotadas e muitas sem electricidade e água.
    Resolveu-se construindo a preços razoáveis, e não com a regulamentação actual.

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  16. O que está a ser dito é que quando existe um imposto de 28%, os preços finais são 128%, e não 100%, ou seja, pelo menos 28% da carestia decorre de opções do Estado, escusam de dizer que são os privados a especular.

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  17. Deixem o mercado funcionar 
    Em breve teremos o Portugal que merecemos.

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  18. Exacto. 
    28% porque sim. Depois de taxar salário que permitiu comprar imóvel, imi, imt, selo, tudo e mais alguma coisa, ainda sacam percentagem de um contrato entre 2 indivíduos. Nem o Corleone faria melhor.
    Todo o tipo de impostos sobre propriedade e imóveis devia acabar. 
    Portugal precisa de um DOGE asap.

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  19. O preço da renda é determinado pela capacidade de pagar por parte da procura e não pelos impostos.
    Se hipoteticamente o imposto desaparecesse os senhorios não iriam reduzir as rendas 28%. Aliás continuariam a estabelecer o preço com base nos valores de mercado com base na procura e respetiva capacidade de pagar, o que significa que de acordo com o que se tem passado iriam aumentar.
    Pago impostos como grande parte, gostaria de não os pagar como grande parte, não desejo que ninguém em especial pague impostos, mas sinceramente não entendo porque é que os senhorios acham que não tem de pagar impostos sobre o rendimento dos imóveis quando qualquer outro rendimento é tributado.
    Quanto a especulação é devida à invasão do mercado por quem tem um poder de compra muito maior que a maioria da população, originando que as casa se transformaram num produto financeiro. Muitas ficam vazias, as que são alugadas, os valores das rendas são incompativeis com os rendimentos da maioria da população e para ajudar nas zonas nobres o AL completa o ramalhete da "escassez".

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  20. Provavelmente é por estas e por outras que quem tem casas não as arrenda! E quem as tem, inflacciona os preços das rendas _o que se compreende_  porque sabe que tem um "sócio" intruso à perna a querer uma "parceria" no negócio... Como diz e bem, nemo Don Corleone faria melhor! 
    Mas claro que os esquerdistas nunca dirão que a cobrança de uma percentagem das rendas (quase 1/3)  é um saque ao proprietário e que se trata duma medida abusiva da parte do Estado e que este devia retirar a malapata de cima, para evitar a inflacção das rendas. Seria uma medida simples e eficaz para que houvesse mais casas disponíveis e a preços mais razoáveis. É quase como o «ovo de Colombo»!
     Mas a esquerda, intrusiva, e sempre  no saque aos "ricos", estará sempre "contra" essa medida, porque a sua vocação é estar do lado do Estado e ter o domínio da sociedade, dando cada vez mais poder ao Estado.  Não quer resolver coisa nenhuma, mas sim perseguir os proprietários, esses malvados "capitalistas", impondo-lhes um tecto às rendas. A esquerda não consegue perceber qual a causa do inflaccionamento das rendas, e não vê que taxar os proprietários que arrendam casas, só está a contribuir para o agravamento da crise da habitação.  No seu afã de querer "taxar os ricos", os "ricos" respondem... e não há casas para alugar!  

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  21. o Estado recebe 28% do mesmo modo que os mafiosos cobram aos negócios.
    Pagam "protecção". 

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  22. "o Estado recebe 28% do mesmo modo que os mafiosos cobram aos negócios.

    Pagam "protecção""
    Com a diferença que os mafiosos protegem de facto. O estado hoje em dia, nem tanto...

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