
Tirei esta fotografia hoje de manhã, quando fui dar uma volta na Mata da Machada/ Barreiro, sem nenhuma razão de especial, talvez me tenha interessado pelo facto dos salgueiros já estarem a abrolhar.
A fotografia não tem nada de especial, o que me interessa nela é o que vejo sem que lá esteja.
Há algum tempo esta fotografia teria sido impossível de tirar do sítio de onde a tirei porque esta área estava cheia de acácias que tapavam a vista.
O projecto a que estive ligado consistiu num projecto de controlo de espécies invasoras, chorão e acácias e, nesta área - não em toda a mata - as acácias desapareceram, para já.
Eu sei, como sabe qualquer pessoa que tenha trabalho no controlo de invasoras, que raramente se pode falar de vitórias definitivas, o que se procura é o controlo de um processo natural que sabemos todos que, salvo raras excepções, pode sempre voltar ao ponto de partida quando se tira a pressão da mola.
No caso das acácias, não só podem ter ficado raízes que lancem rebentos de raiz ou de toiça, mesmo que, como é o caso, só se tenham cortado acácias depois de se ter a certeza de que estavam mortas, o que se conseguiu descascando as árvores. Para além disso, o mais natural é que estejam, naquele chão, milhões de sementes de acácia à espera de oportunidade.
É muito frequente haver quem, querendo livrar-se das acácias, as corte enquanto estão vivas. É um método que em relação a uma das espécies pode dar algum resultado, mas no geral acaba por aumentar o problema em vez de o resolver. Nem por isso deixa de ser um método usado frequentemente porque é muito intuitivo: se se atacar de frente um problema, com uma estratégia agressiva, não gradualista, é evidente que o problema se resolve. A questão é apenas a de mobilizar recursos suficientes para que o ataque seja verdadeiramente forte e adequado à dificuldade do controlo de acácias.
Gosto de olhar para esta fotografia e ver lá o salgueiral que lá estará daqui a uns anos (tenho esperança de que ainda venha a aparecer também o freixial, mas cada coisa a seu tempo) que tem agora muito mais oportunidade de se desenvolver e expandir, a partir dos salgueiros que já lá estão e aproveitando o espaço, a luz, a água e os nutrientes que deixam de lhe ser retirados pelas acácias.
E sei que é possível exactamente porque não fizemos o que é vulgar e intuitivo, sabemos que o controlo de invasoras é mais uma questão de informação e inteligência que de força, sabemos que temos de contar com a forma como o problema se desenvolve para poder actuar onde se pode obter o máximo resultado com o mínimo esforço e, nunca por nunca, ter a sobranceria de pensar que sabemos o suficiente do assunto para decidir em função das nossas convicções e não em função do caminho que a natureza nos vai mostrando.
Nos meus sessenta anos, quase quarenta dos quais a gerir processos naturais com objectivos de conservação da natureza, fiquei convencido de que gerir vírus, elefantes ou ecossistemas pressupõe três coisas essenciais:
1) Gerir a incerteza - qualquer que seja o processo natural que queiramos influenciar, fá-lo-emos sempre, sempre, num contexto de incerteza;
2) Optimizar o conhecimento existente - a redução da incerteza não se resolve primordialmente produzindo nova informação no meio do processo de gestão, ou adiando o processo de gestão até ter toda a informação necessária. O conhecimento novo está carregado de incerteza e introduz mais entropia no contexto de incerteza com que temos sempre de lidar. Onde vale a pena investir é na optimização do conhecimento que passou o teste do tempo;
3) Ter a consciência da nossa pequenez - a verdade é que sabemos menos do que pensamos, sabemos menos do que precisamos, podemos menos do que nos dizem e a natureza é infinitamente mais poderosa e complexa do que possamos imaginar. A humildade é a principal armadura de que dispomos para nos defender das consequências dos erros que, forçosamente, iremos cometer na gestão de processos naturais.
O corolário é que temos de adoptar as acções cujos efeitos secundários sejam menos irreversíveis e nos pareçam mais úteis, no longo prazo, ao mesmo tempo que olhamos com a maior atenção para os resultados que vamos obtendo.
A tentação de ver os resultados que queremos, e não o que realmente ali está, é o maior risco que corre o gestor de processos naturais, sejam eles controlo de invasoras, manipulação de sistemas, epidemias, restauro de ecossistemas, optimização de serviços de ecossistema, o que se quiser.
Alberto Caeiro explica tudo isto muito melhor que eu (esquecendo o segundo verso, bem entendido):
"Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava."
ResponderEliminarGosto de olhar para esta fotografia e ver lá o salgueiral que lá estará daqui a uns anos
De verdade? Eu em terras em que planto choupos, eucaliptos e (no passado) freixos, considero os salgueiros como uma verdadeira praga. Crescem a uma velocidade estonteante e não deixam crescer as árvores que me interessam.
Sendo o seu comentário muito interessante, talvez eu possa reforçar a ideia central que queira ter no post: a transformação faz parte da natureza, ou seja, as duas coisas que no seu comentário parecem antagónicas, não me parece que o sejam.
ResponderEliminarTive de cortar muito do que escrevi, na reacção ao seu belo texto/foto. Porque nunca tinha comentado aqui, no C-F. Mas o que elogio, é exactamente ter feito sentir aos leitores a transformação, que, em Caeiro não está.
ResponderEliminarApreciei o seu texto e o "fecho". Percebo neste contexto que rejeite o 2º verso.
ResponderEliminarEmbora para Caeiro, seja o mais importante precisamente "esquecer" o que "ensinaram", "apontaram" e "disseram". Raspar todas as camadas e toda a experiência acumulada na memória, que são um estorvo: de nada serve Ver com o olhar de "ontem".
Olhando para a bela foto, Caeiro diria:
o seu entusiasmo é ilimitado. Ou quase.
ResponderEliminarResta a sabedoria da experiencia, a moderaçao (humildade ).
ResponderEliminarFiquei a saber por um post de Henrique Pereira dos Santos.
Fico muito contente, embirro com acácias e todas as invasoras. Alguém trabalhou muito bem para se conseguir este efeito, que espero que seja duradouro.
Vou tentar repartilhar, porque é uma informação importante, merece a divulgação possível.
Vejo demasiada gente deliciada com a "beleza das mimosas"...