Sucessivamente a Direcção Geral de Saúde (e um coro de especialistas independentes que aparece depois a comentar, sem nunca lembrar que são exactamente os que apoiam a Direcção Geral de Saúde na gestão do problema) aparece a responsabilizar terceiros pela evolução da epidemia, quando os números são desfavoráveis.
Quando os números são favoráveis claro que isso resulta das medidas tomadas e da gestão da epidemia feita pelas autoridades.
É um clássico muito usado em conservação da natureza: quando as populações de lince aumentam, é por causa das políticas de conservação, quando diminuem, é por causa das epidemias nos coelhos. E é mesmo, não estou a fantasiar, só que quando as populações de lince aumentam também é por causa das epidemias dos coelhos, que são periódicas. Dão origem a flutuações grandes da população de coelho, que tanto perdem 90% dos indivíduos no início de uma epidemia como a da mixomatose, como recuperam nos anos subsequentes, até à epidemia seguinte, provocando as flutuações da população de lince ibérico que, essencialmente, se alimenta de coelho.
Já foi a vida normal das pessoas, depois de fechar tudo, eram os trabalhadores essenciais e os transportes públicos, depois os trabalhadores da construção civil, depois os ajuntamentos de jovens, depois as praias e o natural desconfinamento do Verão, depois a retoma da vida normal, incluindo a abertura de escolas, agora deu-lhes para os convívios familiares, bodas e baptizados, diz Graça Freitas.
Se desde o princípio se admitisse que as epidemias evoluem com uma lógica interna para cujo controlo total não temos meios nem conhecimentos, e que os nossos comportamentos se deveriam adaptar à situação de modo a minimizar os efeitos da epidemia, em vez de a tentar controlar, nada disto era necessário.
É da natureza das coisas as epidemias crescerem rapidamente, terem um pico que pode ser um planalto e depois descerem. Também é da natureza das coisas terem surtos muito diferenciados geograficamente, funcionando frequentemente por clusters, não sendo fácil, muito menos em epidemias de doenças novas, perceber o que motiva a dimensão desses surtos, apesar de já não estarmos na situação de ter de demonstrar que os surtos de cólera de Londres tinham uma estreita ligação com o sistema de águas e esgotos e com os problemas da sua gestão.
Sabendo isto, em Madrid o surto ter a dimensão que tem (já agora, quando ouvirem dizer que a situação em Espanha está em agravamento contínuo, verifiquem os dados, porque o número de casos em Espanha está a baixar desde meados de Setembro, estando a mortalidade mais ou menos estabilizada), e em Lisboa ter a que tem, facilmente seria percebido como não sendo da responsabilidade das autoridades e das políticas, mas de factores que ou desconhecemos, ou não temos capacidade para controlar, ou as duas coisas.
O que é da responsabilidade das autoridades é a resposta e a adaptação às circunstâncias que não controlamos.
A DGS diz que dois terços dos contágios são de bodas e baptizados, sem que algum jornalista pergunte como raio conseguiram reduzir tanto o contágio por coabitação, que desde o princípio anda pelos 70% e que agora desapareceu de um dia para o outro. Basta olhar para os lares para perceber que aqueles contágios todos resultam de bodas e baptizados internos, porque estando as saídas fortemente restringidas, e as visitas também, só pode mesmo ser por causa das bodas e baptizados que lá têm sido organizadas.
A opção das autoridades dizerem coisas destas, sem fornecerem os dados em que se baseiam para dizer estas coisas, atirando o ónus para cima dos convívios familiares, e pedindo às famílias que convivam menos (pedindo, porque não é fácil ordenar, mas se e quando houver oportunidade é aí que chegaremos), em vez de explicarem de forma clara como os diferentes membros da família podem agir para tornar contactos de alto risco em contactos de baixo risco, insistindo que para os mais vulneráveis talvez seja de considerar o uso de máscaras n95, em vez de máscaras que não os protegem, é uma opção e uma responsabilidade da DGS e das autoridades.
A epidemia vai continuar o seu caminho, provavelmente vai ter o perfil habitual das doenças respiratórias, que têm picos no Outono/ Inverno, portanto o número de casos (que interessa relativamente pouco, sobretudo quando definidos apenas com um teste que gera alguns 10% de falsos positivos, matéria a que os tais especialistas não dedicam tempo nenhum, estranhamente, o que os impede de pedir uma alteração de protocolo para dois testes pelo menos, pelas razões que Luis Aguiar-Conraria explica muito bem no seu artigo do Expresso de hoje) vai provavelmente subir, o número de internados e mortes (esses sim, indicadores relevantes) também, e é bom que os nossos comportamentos se adaptem a esta situação, tendo como objectivo proteger os mais vulneráveis em vez de andarmos a alimentar a quimera de alterar o perfil de evolução da doença.
O que me deixa nervoso é que esta história das bodas e baptizados parece apenas ser um balão de ensaio para cancelar o Natal.
O problema não é bem o significado social do Natal, o problema é mesmo a ideia de que é legítimo pretender criar um homem novo, sanitariamente perfeito, e que para além de legítimo é possível desde que se desvalorize o suficiente tudo o que nos humaniza e nos caracteriza como comunidades de interacção pessoal e social.
Quem definiu bem a coisa foi Paulo Tunhas: "Sem trocadilho, é uma desgraça. É Portugal dos Pequeninos e patriotismo dos pequeninos. Ela é pequenina e trata-nos – incluindo os cachopos e cachopas da AR — como pequeninos, como uma professora primária do tempo do Dr. Salazar. É tudo pequenino. Ponto."
O povo na sua imensa sabedoria já tinha previsto esta situação, é bem conhecido o ditado popular: "a casamentos e baptizados só vão os covidados"
ResponderEliminarquem escolhe burgessos para dirigir a 'pildra' nem isto merece
ResponderEliminarPreparam-se para fechar o Natal, esquecendo-se que é o único pavio de ânimo para milhares de idosos. Mas encontrei nos últimos dias algo pior: há juventude que acata, com naturalidade, o encerramento de concelhos e o isolamento generalizado para essa data. Andamos a chamar de fascistas as pessoas erradas.
ResponderEliminarFica nervoso ? Que pena que nao fique nervoso quando ganha coragem para escrever tanta palermice. 10% sao falsos positivos ? E os outros 90% ?
ResponderEliminarMas.... Henrique.... 10%? O seu afilhado AD diz que sao 95% falsos positivos. As trocas de emails acabaram ? Assim ficam com as cartilhas desalinhadas.
Citar o conraria sobre .... testes PCR é delicioso. Voce ficou senil e ainda nao reparou. A familia nao nota nada ?
Já que o governo está numa de parvoíce, eu também quero contribuir.
ResponderEliminarA minha sugestão é ; alugamos o deserto do Sahará, fazemos umas marcas na areia como fizemos em Fátima separadas por 2 metros, e cada português ocupa um circulo. Ficamos lá assim até ao fim do ano. Contratamos uma empresa chinesa para desinfectar Portugal, e pronto.
Eu ainda não fiz as contas mas acho que depois somos capazes de ter um problema.
Para todos os portugueses ficarem protegidos e garantirem a sua área de segurança acho que não cabemos cá todos.
Não me parece muito inteligente negar as qualificações de Luis Aguiar-Conraria em estatística
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