Dificilmente haverá assunto mais difícil nesta epidemia que o que a relaciona com a velhice (talvez apenas o do risco associado a outros grupos mais vulneráveis se lhe aproxime, mas ainda assim, a uma distância considerável).
O impacto da covid é esmagadoramente maior nas pessoas com mais de setenta anos.
O simples facto de se fazer notar que isso também é verdade para todas as outras infecções pulmonares é imediatamente rotulado como uma tentativa de desvalorizar o impacto da covid, e não como uma mera consideração pelo contexto dos números.
A esta circunstância, já de si delicada, junta-se a forma como temos vindo a falar sobre o assunto, de que são exemplo as propostas simplesmente desumanas de admitir que o isolamento social estrito, por longo tempo, é a solução possível de que a sociedade dispõe para proteger os mais velhos.
Tenho tido muito cuidado em não falar dos responsáveis políticos e administrativos pela gestão da epidemia porque não gostaria de estar no lugar dessas pessoas, a tomar decisões com profundas implicações, num contexto de elevada incerteza, com implicações éticas evidentes e perante uma sociedade paralisada pelo medo. Eu não sei se alguém saberia fazer melhor e tenho um imenso respeito por essa dificuldade intrínseca, que me tem levado a ficar calado sobre isso.
Abro excepções aqui e ali, como neste caso: ouvir Marta Temido a destratar os responsáveis pelos lares, responsabilizando-os pelo que tem vindo a acontecer, é inaceitável.
Claro que há lares bons e maus, claro que há responsáveis e irresponsáveis, claro que há coisas bem feitas e mal feitas, mas essa distinção faz-se avaliando serenamente o desempenho concreto de cada instituição e cada responsável - coisa em que o Estado português tem demonstrado uma negligência assustadora -, não se faz com acusações genéricas de que não existem ou não foram cumpridos os planos de contingência.
Se o problema fosse simples, dificilmente teríamos 30% de mortos associados a lares em Portugal, 40% na Bélgica e o que se viu em Espanha e na Suécia, para dar alguns exemplos de contextos muito diferentes, mas dando origem às mesmas dificuldades.
Não podemos dizer que a situação favorável de Portugal, até agora, se deve à boa actuação que o país teve e às medidas adoptadas e, ao mesmo tempo, dizer que a actuação não foi boa ou as medidas não foram eficazes nos lares, que deveriam estar (provavelmente estavam, não estou a sugerir que isso não aconteceu) identificados como prioridade das prioridades numa doença infecciosa pulmonar.
Até aqui, é de compreender o contexto que se trata.
Já escrevi um post sobre a desumanidade das soluções e do que dizemos sobre este problema, não me queria repetir.
O que queria dizer é que não sei, não sei mesmo, o que faria se fosse responsável por um lar e me pedissem para não me dar o desamparo de não celebrar a Páscoa de acordo com as minhas convicções mais profundas.
Não está em causa o que penso da Páscoa e do ritual do beijo da cruz - sendo eu agnóstico e avesso a rituais de qualquer tipo, não é difícil perceber que não são as minhas convicções que contam aqui - o que está em causa é ter a humanidade de compreender o pedido de quem me diz que tem uma elevada probabilidade de nunca mais ter outra Páscoa, o pedido de quem tem consciência da sua fragilidade, e me pede que respeite o seu desejo de amparo, correndo os riscos que escolher correr.
Uma coisa é a parte fácil, adoptar todos os procedimentos para baixar o risco, desinfectar a cruz de pessoa para pessoa, etc. (embora me pareça ridículo pensar que o risco de contágio num lar onde as pessoas vivem em comum é tão baixo que é esse beijo na cruz que o altera de forma relevante), outra coisa é saber que não há risco zero, deixar isso bem claro, e respeitar a vontade de quem, ainda assim, entende que a sua devoção é mais importante para si que o risco de morrer amanhã.
E isto é válido para o contacto com as famílias e outras visitas.
É absolutamente desumando impôr a pessoas com um horizonte de vida que reconhecem como limitado, com a consciência da finitude da sua vida, a impossibilidade de fazerem o que entenderem do que lhes resta dessa vida, privando-as do contacto com as pessoas que dão algum sentido a esse tempo, a pretexto de que não podem correr riscos.
Uma coisa é o risco social, em que o Estado tem legitimidade para intervir, outra coisa é o meu risco, que só a mim me diz respeito.
Se alguém numa situação de risco quer maximizar as suas próprias salvaguardas, com certeza, devemos estar lá para as apoiar a fazê-lo com o mínimo e esforço e solidão.
Mas impôr a solidão como solução razoável para defender as vidas de quem não tem interesse nessa vida se não for com os outros, isso acho profundamente desumano.
O padre que autorizou a celebração pascal no lar até pode ter falta de senso (eu não sei, não conheço as circunstâncias concretas da situação e tenho muita relutância em ter opiniões sobre este tipo de situações sem as conhecer em pormenor), mas é bem provável que valha bem mais que uma boa parte das pessoas que o insultam sem nunca terem feito grande coisa para humanizar o fim da vida dos mais pobres e frágeis que se acolhem em muitos desses lares, a única solução de fim de vida que nós lhes deixámos.
Muito bem!
ResponderEliminarO melhor post que li sobre este assunto.
ResponderEliminarConcordo a 100%.
Cumps.
Susana V.
Comoveu-me.
ResponderEliminarO problema de um idoso que vive num lar querer beijar a cruz, ou querer ser visitado pelos seus familiares, não é o risco para esse idoso, é o risco para todos os outros.
ResponderEliminarPorque, se os familiares de um idoso entram num lar para o visitar, esses familiares podem vir infetados e trazerem o vírus para dentro da lar. Uma vez lá dentro, o vírus infeta todos os idosos que vivem no lar - incluindo aqueles que não foram visitados por familiar nenhum e que, por acaso, até nem querem morrer.
Quando uma pessoa decide viver com outras, tem que aceitar cumprir certas regras da casa comum. Quando um idoso decide ir viver para um lar, ou então os seus familiares decidem por ele, o idoso e os familiares têm que aceitar que o lar tem regras para a salvaguarda de todos.
velho-e-relho
ResponderEliminarTem toda a razão.Parabens.
ResponderEliminarObrigado HPS.
ResponderEliminarSugiro ao Henrique que leia um artigo, no Economist desta semana (ou talvez da anterior, não tenho a certeza), sobre os americanos que vivem com outros que não são da mesma família (aparentemente, é uma proporção bastante grande da população americana) e sobre os cuidados que eles decidem ter para se proteger uns aos outros e impedir que o vírus penetre na casa que partilham.
ResponderEliminarComo se torna evidente nesse artigo, quando pessoas partilham uma casa, deixam de ser inteiramente livres de fazerem o que querem e lhes apetece - têm que se subordinar a regras comuns de proteção mútua, acordadas por todos. Mesmo quando, eventualmente, discordam dessas regras ou as consideram muito incómodas ou muito contrárias aos seus hábitos e tradições culturais.
Tens razão Luís, a estratégia de proibir as visitas tem sido um sucesso.
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