domingo, 1 de abril de 2018

Prunus cerasifera variedade Pissardii

Na universidade tinha um colega que em todos os projectos que desenhava punha Prunus cerasifera Pissardii (uma pequena árvore, aliás muito bonita) porque são vermelhas e as suas iniciais são PCP (nos planos de plantação eram as iniciais que constavam).


Este meu colega, dono de um agudo senso de humor, estava na sua plena e inteira liberdade de projectista ao ter este critério rígido de projecto, estaria nas mãos dos seus potenciais clientes aceitar ou não projectos com esse critério.


Já se o meu colega resolvesse prever a plantação das árvores com a raiz para cima estaria muito para lá da sua liberdade de projectista, estaria simplesmente a ser parvo, porque as árvores não se podem plantar com a raiz para cima.


Vem esta historieta a propósito de uma chamada de primeira página do Público a propósito de um manifesto que diz respeito à Catalunha.


Chama o Público na sua primeira página "BE, PS, PSD, CDU e PAN unidos num manifesto pela Catalunha", titula a peça não assinada no seu interior da mesma maneira e diz no texto de enquadramento da publicação do manifesto: "Manuel Loff, André Freire e Fernando Rosas conseguiram o que o Bloco de Esquerda e PCP não conseguiram na Assembleia da República: que elementos do PS e do PSD juntassem a sua assinatura, e consequente apoio, a um texto que exige liberdade para os presos políticos catalães".


Publicar um manifesto, qualquer que seja, está dentro da liberdade de escolha da imprensa, não referir as mentiras factuais do manifesto, é feio, mas está dentro da liberdade de escolha da imprensa, mas mentir descaradamente dizendo que porque Pacheco Pereira (o eterno candidato falhado a mártir do passismo) assina um documento isso quer dizer que o PSD se uniu aos outros para dar apoio ao manifesto, ou mentir descaradamente dizendo que na Assembleia da República não houve elementos do PS a apoiar uma coisa do mesmo tipo, está muito para lá da liberdade de escolha da imprensa, é semelhante ao projectista que pretende plantar árvores com a raiz para cima.


O que o Público fez hoje não é má imprensa, é uma fraude, é pretender enganar os seus leitores, é quebrar o vínculo de confiança com os leitores.


Espero que o Público tenha a hombridade de tornar pública a assinatura da peça e que não só assuma que errou (isso é fácil) mas que levante um processo disciplinar a quem for responsável por esta fraude: a imprensa não pode passar o tempo a pedir consequências para o facto de políticos e gestores tomarem decisões erradas, ilegais ou irresponsáveis e, ao mesmo tempo, passar o tempo com panhinhos quentes em relação aos seus jornalistas que fazem isto.


Dizer isto não é atacar jornalistas e a liberdade de imprensa, dizer isto é defender os jornalistas responsáveis que nunca fariam uma coisa destas e que, por causa dos que o fazem, correm um risco muito maior de desemprego por se quebrar impunemente o vínculo de confiança entre os leitores e o jornal.

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