Uma das falácias mais clássicas na discussão sobre alterações climáticas é o uso da meteorologia para fazer demonstrações sobre o clima. Quer os negacionistas, que em cada nevão mais pesado se entretêem a ridicularizar o aquecimento global, quer os alarmistas, que a cada fenómeno meteorológico extremo, como um furacão ou umas cheias, apontam o dedo e dizem que está demonstrado o seu ponto de vista, pretendem, na realidade, que falar de meteorologia - o que acontece todos os dias na atmosfera - é o mesmo que falar de clima - que normalmente se caracteriza a partir de observações ao longo de trinta anos.
Ora nestes dias tivemos dois fenómenos meteorológicos, relevantes enquanto fenómenos meteorológicos, mas evidentemente insuficientes enquanto caracterização climática: o PIB do terceiro trimestre de 2016 subiu bastante mais que o esperado e os juros da dívida portuguesa a 10 anos subiram preocupantemente para uma zona unanimemente considerada de risco.
É normal que um governo que não faz a mínima ideia de para onde vai e a que clima quer chegar, que num dia faz uma declação bombástica sobre Portugal ser neutro do ponto de vista de emissões em 2050, e no dia seguinte deixa passar o prazo para travar prospecções de petróleo no Algarve, que num dia embandeira em arco com o efeito do turismo no PIB, e no outro insiste que receber turistas é o mesmo que alugar casas, que num dia quer um choque de consumo, no outro fala do virtuosismo de crescer pelas exportações, enfim, que um governo assim se concentre exclusivamente na meteorologia. Até porque sabe que a física e química da atmosfera envolvem processos muito complexos, o que lhe permite, em cada dia, escolher o fenómeno meteorológico que melhor defenda os seus pontos de vista, esquecendo todos os outros, o que é especialmente gratificante para quem não tem o menor pudor de dizer que o Sol é muito bom para secar o trigo, mas se estiver a chover fala do nabal, como se o cereal não continuasse na eira.
É também normal que uma oposição que se concentra na discussão sobre o clima, uma coisa chata, complexa e difícil de entender e explicar, tenha dificuldades no discurso quotidiano, até porque as pessoas decidem se vão à praia ou cavar batatas em função do tempo que está, e não da caracterização climática do sítio onde vivem.
São opções normais, quer do governo, quer da oposição.
O que já não é normal, e muito menos saudável, é que quem intermedeia o discurso público, procurando tornar inteligível o que é confuso, simples o que é complexo e autónoma a informação que tem origem em partes interessadas, alinhe pela ignorância e o facilitismo, não só confundindo meteorologia com clima, como ainda alinhando na escolha interessada de alguns fenómenos meteorológicos, em detrimento de outros.
"esta semana o registo positivo da economia deixou-o quase sem discurso",diz o director do Público sobre Passos Coelho, na mesma página em que sobre Costa diz "Portugal cresceu acima de todos os parceiros da zona euro; Costa ganhou uma arma (pelo menos para três meses) para deixar Passos Coelho sem discurso político".
Não entro na patetice de discutir se fulano ou sicrano tem discurso político (Sócrates, na opinião dos jornais, sempre teve, Cavaco, na opinião dos mesmos, nunca teve), o que me interessa é esta coisa extraordinária: nos mesmos dias em que o PIB tem um registo trimestral semelhante a vários outros trimestres ao longo dos últimos anos, registo esse que é bom mas tem uma importância limitada do ponto de vista climático (tal como um Inverno especialmente rigoroso diz muito pouco sobre o aquecimento global), os juros sobem acentuadamente, o que é um fenómeno meteorológico de significado semelhante que dá indicações, limitadas é certo, sobre o maior problema da economia portuguesa: a dívida.
O que faz a imprensa?
Contribui irresponsavelmente para o discurso meteorológico do governo (está um lindo dia, que interessa se a previsão para amanhã for de tempestade?) em vez de separar meteorologia de clima e escrutinar, duramente, quer o discurso meteorológico do governo, quer o discurso climático da oposição, contribuindo para elevar o debate público e centrá-lo na substância dos problemas, em vez do ping pong infantil sobre quem ganhou os jogos florais da semana.
Muito bom.
ResponderEliminarTanto aquecimentistas como políticos em exercício apenas "cozinham os livros" em formato cada vez mais sofisticado.
Os primeiros -que só podem ter os seus dados ajuizados secularmente- já cá não estarão para serem ridicularizados ou premiados.
Os segundos, por cá, mudam a carranca e o pessoal embarca rumo ao porão e ainda por cima a bater palmas.
Muito boa a analogia "climática".
ResponderEliminarMas eu já nada espero dos "media" em Portugal, todos alinhados com a esquerdalhada, quase sem excepção.
O Público, então...