Temos uma certa tendência a domesticar o Natal. Usamos uma infinidade de palavras bonitas e simpáticas que, às vezes, acabam por esconder a força da sua fragilidade. Falamos vagamente de um espírito de família que se renova mas, tirando as críticas repetidas ao consumismo, parece haver pouco em que o Natal nos ajude a olhar para a cultura na qual vivemos, descobrindo-lhe os enganos e as falácias.
A crítica ao consumismo tem o mérito de nos ajudar a compreender como uma boa parte das farsas que condicionam o modo como olhamos a realidade está associada a teorias económicas. Na sua pretensa objectividade científica, tais teorias dizem-nos que o seu olhar sobre a realidade é neutro. Mas não é. Qualquer teoria económica tem associada a si uma visão concreta do ser humano, uma ética e, ao colocar em prática os seus princípios, ela pode também moldar o ser humano e a sociedade à sua imagem.
A máxima "não há almoços grátis", celebrizada pelo economista Milton Friedman, é um bom exemplo de uma aparentemente inócua regra económica que acaba por afectar, de um modo decisivo, o modo como nos olhamos a nós próprios e o modo como avaliamos a nossa capacidade de nos relacionarmos uns com os outros. Basta pensar em alguns estudos psicológicos que procuram provar o interesse próprio (um certo 'egoísmo') como ponto de partida de toda a acção humana, para compreender como esta forma de olhar a realidade se pode converter num modo cínico de pensar o ser humano. Tal cinismo está muito presente em discursos que falam da impossibilidade do amor gratuito e desinteressado ou da generosidade. Tal cinismo é também revelado nas ideias dos que se dizem descrentes do bem comum e apenas exigem todas as garantias para que cada um procure livremente o seu próprio bem e o possa viver sem condicionalismos. Num mundo assim, ninguém dá nada a ninguém. Ninguém se dá a ninguém. Todos os almoços têm um preço.
Enganos, falácias e farsas são palavras fortes. Mas, se confrontarmos a visão de um mundo sem almoços grátis com aquilo que na tradição cristã nos é revelado pelo Natal, não será difícil entender como aquela visão economicista é pobrezinha e falseia a dignidade do ser humano criado à imagem de Deus. O Mistério da Encarnação (concepção, nascimento de Jesus e a sua vida no meio de nós) é um momento decisivo de uma aventura em que Deus se comunica de um modo pessoal ao ser humano e lhe indica o caminho de uma humanidade vivida em plenitude. Esse caminho abre-nos a possibilidade de um amor desinteressado e gratuito, ensina-nos a mesa como lugar onde a comunidade se constrói e o seu ponto culminante é antecipado por uma refeição onde a vida nos é oferecida de graça. Se não deixarmos que esta economia de Deus transforme pouco a pouco os princípios do nosso agir económico, então o Natal será humana e culturalmente irrelevante e os pendões que orgulhosamente colocamos à janela não passarão de um adorno que rapidamente voltará ao armário das arrumações e de que nos esqueceremos até que no próximo ano voltemos a fingir o Natal.
Zé Maria Brito daqui
Caro João Távora um Bom Natal para si e para todos os corta-fiteiros.
ResponderEliminarAgradeco e retribuo, caro Respublica
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