terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A vertigem interior

 


Quando pensou que tinha descoberto o tecto do mundo e o centro da terra, aquele povo zangou-se com o seu Deus. De repente estranhou-O, pois no seu sábio parecer Ele deixara de lhe dar espectáculo: nem aparecia nas revistas nem tinha perfil no Facebook. Tornara-se desinteressante, discreto, passivo... um Deus pouco interventivo; sem resposta aos seus interesses imediatos e sem os critérios da pequena verdade instituída. Um Deus que não punha ordem no desacerto e na perversão (por sinal, cunhos sempre alheios) tornara-se numa grande desilusão, enfim, uma inutilidade. Insurgiram-se contra Ele, porque afinal desejavam-nO à sua imagem e semelhança. E que fazer com um Deus que não obedece aos homens “evoluídos”, que não corresponde às suas expectativas?


Mas isso não era grave, pois afinal, para o equilíbrio da economia, bastavam-lhes os seus modernos pequenos deuses, mais palpáveis e descartáveis, sempre sorrindo nas revistas ou novelas, coleccionáveis como cromos ao gosto de cada um. E como era importante “o gosto de cada um”!


Aquele povo sôfrego de redenção acomodou-se a um novo mundo apequenado por auto-estradas e fibra óptica, onde se vivia mais depressa, muito depressa mesmo, sem silêncios e pontos mortos. Para um ou outro mal, logo se conceberam pílulas milagrosas, que afinal a química ainda irá resolvendo. Iludindo o espaço e as sensações, criaram janelas e mais janelas, interactivas, electrónicas, portáteis. Através delas e de um teclado podiam espraiar-se por novos caminhos, brilhos e experiências. Mesmo sem espaço, sem relação, sem compromisso e sem silêncio. Fórmula infalível para que a criatura jamais sentisse a vertigem da sua imensidão interior.


De modo a nunca arriscar um estranho e diferente encontro.


 


Texto reeditado

4 comentários:


  1. Caro João

    Grandiosa "posta"!
    É bem verdade que com comunicações ao segundo e um mundo pejado de falsos idolos e outros tantos falsos profetas, neste mundo de aparências e fogueira de vaidades não sobra tempo para nos ouvirmos pensar... Para os prazeres da introspecção!
    Eu prefiro a palavra "Universo" o João utiliza "Deus" serão apenas designações para algo que nos transcende e que não compreendemos na totalidade... Todavia, não me parece que o Deus ou o Universo se compadeçam com os mercados ou agências de rating, com economia ou globalização, facebook ou twitter!!!
    O próximo grande desafio da Humanidade, será sair da "zona de conforto" e mergulhar no desconhecido em busca de soluções, para a verdade, honestidade e integridade de todos.

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  2. Obrigado por o ter lido, caro Tiago.
    Os bezerros de ouro apoucam a existência, só isso. 
    Abraço

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  3. Caro João Távora, o titulo do seu post e o seu conteúdo levam-me a outros tempos e a Ernst Jünger , que invariavelmente, é alguém cuja obra por algum motivo contemporâneo ou é para mim recorrente ou premonitória e regra geral sempre reconfortante. Assim o é também neste caso, onde o mundo actual é por nós apercebido em termos de informação pré-digerida e fiscalizada, enviada em pacotes desenhados com a dimensão de tempo, intensidade e intencionalidade à medida do consumidor tipo. Deus e a sua percepção pelo vulgo, não escapa a esta manipulação da informação, aliás assim é desde o de péssima memória concilio Vaticano II, pelo que a adoração do bezerro de ouro é sem duvida a mais celebrada cerimónia e a assunção da soberba como virtude uma constante. O espaço interior como local transcendental, isso caro João Távora é apenas para alguns poucos e para linhas escritas em livro, tais como as de"Der kampf als inneres Erlebnis ", que o tempo que nos resta seja profícuo e libertador.

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  4. Caro Velho da Floresta, não conheço a obra de Ernst Jünger, mas prometo nele investir a minha atenção tão breve quanto possível.


    Cordeais saudações

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