segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Uma parábola (no fim) da estação tola

 


Tramado é que esta ingrata civilização do bem-estar e do consumo desempregou os nossos corpinhos feitos para malhar na terra, para caçar, subir às árvores ou para alvorar a fugir dalgum animal selvagem mas deixou-nos um dilacerante apetite de quem precisa de armazenar calorias para uma semana de carência. Nesta cultura de sofreguidão hedonista somos desafiados a corresponder ao primeiro assomo de apetite (não me refiro apenas à comida) e tratar o nosso corpo como tratamos o resto da natureza, num total desprezo pela sua ecologia: são os efeitos colaterais da democratização da alarvidade. 
Aqui chegados, todos conhecemos almas inquietas com a sua decadência física, que a partir dos quarenta-e-tal anos se entretêm em dietas, ginásticas passivas e outros exercícios sem esforço que o dinheiro possa comprar. As mulheres são vítimas privilegiadas desta ilusão: começam cedo no escritório com garrafinhas de água e golinhos de cinco em cinco minutos para iludir o apetite e exercitar a bexiga, um disparate que resulta num corrupio constante, um ver-se-te-avias entre o seu posto de trabalho e a retrete. Perante a ausência de resultados, começa a fase dos chás verdes, bruxarias e outras mezinhas de ervanária: inicia-se assim um desaguisado colateral com os intestinos até estes se tornarem tão preguiçosos como a dona. Passam-se anos nestes rituais, com uma vida cada vez mais próspera e sedentária, num desafio crescente com o espelho e a ingrata balança, até chegar a fase desesperada. Esta surge na sequência duma visita a um dietista famoso ou dica duma amiga, e é constituída por um metódico programa de ingestão de comprimidos coloridos: cada vez mais nevrótica, entra numa espiral de euforia, perde o apetite, a calma, e uns gramas até cair numa depressão depois duma violenta disputa com o cônjuge inocente.


Tudo se irá resolver com uma semana a chocolates e um programa de fim-de-semana de reconciliação com o marido num hotel com SPA e restaurante gourmet. Assim se recuperam todos os gramas e mais uns quilinhos optando então a dondoca por mudar de vida, queimar incenso e passar a vestir balandraus. A moral da história é que as aldrabices não funcionam: não há fuga possível, nem caminho fácil para o sucesso.


É irónico como nesta sociedade que venera o corpo e as aparências não haja parábola mais eficaz sobre as virtudes do mérito e do prazer diferido do que a da forma física. Tal como na escola só se aprende com estudo e empenho, tal como a riqueza só é criada com esforço e trabalho, a partir duma certa idade, a forma física depende fatalmente da austeridade alimentar e de muito, muito, exercício físico. Quem se preocupa com o implacável efeito da gravidade nos seus músculos e outros apêndices, está condenado a trabalhar e suar o corpinho, semana após semana, mês após mês, ano após ano, com muita perseverança e desapego, que o resto vem com as endorfinas e mais algum desapego; afinal, o mais importante na vida nem sequer é isso!


 


Nota: qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é mera coincidência.




Publicado originalmente aqui.

5 comentários:

  1. Tem absoluta razão a Luísa no primeiro reparo. No segundo certamente também terá, mas o que seria duma pobre crónica sem umas quantas generalizações? :-)

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  2. O culto da imagem não é mais que uma escravatura, se bem que não devemos descurá-la. Os factores genéticos aqui são grandes responsáveis logo seguidos pelos estilos de vida e os incomensuráveis erros alimentares. Cada vez mais somos o que comemos (cliché absolutamente comprovado) e não há volta a dar. Tudo aquilo que ingerimos deve ser gasto e não é com uma vida sedentária que se consegue. Os ginásios são um desperdício de tempo e dinheiro (para mim claustrofóbicos).
    Dica (em forma de rotina):
    Andar a pé (durante a semana fazer três vezes o equivalente ao perímetro do Parque da cidade aqui no Porto).
    Um bom pequeno almoço (de há duas décadas sumo de laranja, café com leite duas fatias de pão de mistura com requeijão de cabra e compota de mirtilo). Nunca sair de casa sem tomá-lo. Erro crasso.
    Roer uma maçã a meio da manhã - an aple a day keeps... (no verão uma cenoura, o caroteno faz milagres)
    Almoçar de tudo, excepto fritos, em pouca quantidade, acompanhado de meio copo de vinho tinto (os taninos são um benefício).
    Café (uma indulgência necessária). Beber água sempre que possível mas sem espírito de missão.
    Meio da tarde iogurte ou fruta (NUNCA BOLOS)
    Jantar sopa/ salada, fruta, dois quadradinhos de chocolate negro, a ler, no pc ou a ver tv.
    Fim- de - semana: disfrutar das delícias da nossa gastronomia (faz bem perder-nos nestes pecados e dar prazer ao palato).
    Subir e descer várias vezes vinhas em socalcos, podar; árvores, flores, arbustos, cavar até, mexer na terra.
    Isto é um mero exemplo, outros haverá melhores. Este é, salvo raras excepções, o meu. É um pequeníssimo contributo (sem esforços porque não faço fretes nem tenho pachorra) para 1,64/ 52 kg.

    Nota à nota: lol

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  3. não exagere !!!  não são precisos tantos sacrificios para manter a linha.  só uma certa disciplina  , uma balança na casa de banho para control de peso diário , e , isto não pode faltar , um dia por semana para fazer  quase todas as loucuras alimentares que nos apeteçam ;  uns alongamentos pela manhã , acabadinhos de sair da cama , ou ainda nela , tipo gato. ; no duche , água fria  sempre , no verão , depois da quente , no inverno ; e durma , muito. ginástica na horizontal tb é muito bom para reafirmar músculos e pele...

    batatas fritas , nunca  !!!! assim como a maior parte dos fritos. e manteiga ? deite-a no lixo.

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  4. Eu cá acho que o governo, qualquer dia, ainda descobre o elixir da eterna juventude.

    Ou, mesmo que não o tenha feito, anuncia que descobriu, e o eleitorado acredita.


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