Assumido monárquico, católico, conservador e sportinguista, com muita experiência e larga ascendência de derrotados pela história pelo menos desde o século xviii, estou há muito habituado ao sentimento de perdedor. Mesmo assim, ainda é com apreensão que leio no Diário de Notícias o ameaçador prognóstico do fim da gravata, esse ancestral e elegante artefacto de moda masculina. É uma questão de “eficiência energética”, dizem eles... Naturalmente estou preparado para resistir, e se o seu comércio vier um dia a ser proibido, julgo possuir bastantes para muitos anos de luta.
Sobrevivente nesta sociedade massificada e igualitária, considero a gravata um dos últimos redutos da distinção no trajar masculino formal, um subtil e gracioso indício da personalidade de quem a usa. Durante a semana de trabalho gosto muito de a vestir com um discreto fatinho de bom corte, escolhida a preceito, e que com gosto irei despir ao final do dia num impulso libertador. Do mesmo modo, agrada-me ao fim-de-semana usar roupa descontraída, umas calças coçadas e umas sapatilhas. Cada coisa no seu lugar, que para mim a roupa é um espelho da alma e das circunstâncias que vivo: por exemplo, detesto às quartas-feiras europeias ir enfarpelado ver a bola, capricho que me obriga a trazer uma muda de roupa para Lisboa.
Aqui nas Amoreiras, onde trabalho, há muito que observo a moda da “camisa aberta” afectar principalmente os mais jovens executivos. Parece-me que essa adesão provém não só da necessidade de se sentirem aceites, mas duma clara inexperiência de vida, que não lhes ensinou a técnica de, na loja, provar uma camisa com um colarinho de medidas adequadas, que não os estrafegue se estiver abotoado. Assim, até acredito que se sintam muito in, democráticos e ecológicos, encafuados em fatos de marca, com camisa de gola aberta, mais parecendo empregados de restaurante sem laçarote, como quando estão a conferir a caixa ou a fazer a mise en place para o turno seguinte.
Só por curiosidade, é mesmo descendente dos Távoras? Aqueles do Marquês...
ResponderEliminarNão percebi o post... mas quem é que o quer impedir de usar gravata?
ResponderEliminarPedro
Caro João
ResponderEliminarJá reparou que a noticia tem dois sentidos!
Se no Verão não usar gravatas pode trazer poupanças ao nivel do consumo energético do ar condicionado, aumentando dois graus a temperatura, então no inverno a utilização obrigatória de gravatas fará com que seja desnecessário colocar o mesmo ar condicionado a aquecer mais o ambiente.
Se a ONU estiver correcta a utilização obrigatória de gravatas no inverno fará com que o ar condicionado estaeja dois graus mais baixo que o usual, poupando assim muita energia, sobretudo pois no Inverno é que ocorrem os maiores consumos de energia.
João Távora:
ResponderEliminarAssumido republicano, de esquerda, Cristão e sportinguista, também eu gosto de gravatas. Hoje, já reformado, só as uso raramente quando vou a cerimónias ou ao teatro.
Todavia, acredito que quem ler o seu "post" não vai ter a coragem de promulgar qualquer lei no sentido de ilegalizar a venda de gravatas. Mas, se tal tragédia vier a acontecer, desde já pode contar com o meu modesto "stock", para melhor resistir ao cerco. Esta é uma guerra que eu não quero que perca. O único problema será, porventura, o meu gosto não estar à altura da sua exigência.
Quanto ao resto, disponha.
Hádes vir cá almoçar que até te limpas à gravata
ResponderEliminarehehehehehehehehehehehehe....
ResponderEliminarHádes, hádes...
ResponderEliminarRecorda-me um desses experientes "derrotados pela História" que pouco antes da execução pedia ao carrasco que tivesse cuidado para não amachucar o seu colarinho de folhos...
ResponderEliminarCá por mim, prefiro o laço à gravata. Muito mais fresco (como é que o SG da ONU não se lembrou disso?) e denotando sempre muito maior personalidade.
Sou do tempo em que não podia asssistir a uma aula na Faculdade de Direito, sem gravata e, talvez por isso, tornei-me adepto do "papillon"
ResponderEliminarApesar de não ter ascendência nobiliárquica, também sempre dispensei com agrado o ar condicionado ( a única excepção, foi mesmo quando vivi em Macau).
Agradeço os comentários.
ResponderEliminarSim caro Tiago, sou um magnífico objecto museológico.
Caro Luis Bonifácio gosto em vê-lo por cá! Desse fabuloso argumento não me lembrei eu!
Caro Manuel Leão: Teremos muitos mais pontos que nos unem do que aqueles que nos separam... mas de facto as gravatas são escolhas muito pessoais.
Não entendo o melindre do empregado de mesa, pois eu jamais o desconsiderei.
Caro Carlos, a questão da genealogia foi apenas uma tentativa de fazer humor. Obrigado pela visita :-) .
ResponderEliminarO meu profundo asco por gravatas - e por tudo qto me possa apertar o pescoço! - impede q possa oferecer uma a um certo aniversariante... Ganda chatice e desculpa, ó JT!!
ResponderEliminargostei do artigo e também sou descendente dos mesmos. No entanto, com o calor que faz, admito que não faz sentido andar de gravata só para satisfazer o meu ego.
ResponderEliminarhá que ser pragmático e saber perder para ganhar noutras coisa. Pai de numerosa prole, de várias idades, há de tudo desde os engravatados aos que não usam e fixar regras pode...(não as das gravatas) fazer perder filhos!
É preciso ser-se do tempo, nosso e do deles, e nada melhor do que mesmo engravatado...mas chic, senão é uma pepineira, saber ser-se olhado com modernidade e aceitação.
Danam-se às vezes por encontrar Cd's de músicas actuais de que eu gosto, ter iPad, iPhone e quejandos que, reconheço mesmo me dão um jeitão, mas são fruto de uma decisão há muito tomada: diminuir o máximo que puder do gap geracional entre os meus filhos, sobrinhos, amigos deles, etc e eu! Porquê? por amor e por orgulho de os ter.
ResponderEliminarCaro parente,
Antes do mais gostaria de expressar o meu profundo agrado pelas linhas que escreveu.
Com efeito, a problemática da gravata numa sociedade de boné na cabeça e rabo ao léu, é, seguramente a derradeira luta das pessoas que, como nós, continuam a pugnar pela ostenção de simbolos sociais a quem já muito poucos dão importancia.
Vivemos na sociedade do facilitismo, do fast-food, das acções fracturantes (seja lá isso o que fôr), da falta de normas e de regras comportamentáis, cuja (des)implementação, obrigatóriamente obriga que a gravata seja infelizmente tratada como objecto a desnodar e a desaparecer trancada na porta do guarda-fatos.
Mas o hábito - convenhamos - estranho, de usar um pedaço de tecido atado em nó à volta do pescoço, no fundo é, parece-me, uma espécie de profissão de fé de quem, sem ter, como os militares, galões para ostentar, ou como os médicos, estetoscópios displiscentes ao pescoço, pretende transmitir a quem passa um status, uma ordem social, uma determinada responsabilidade de atitudes que já a quase ninguem apetece.
Sobramos nós, monárquicos, conservadores e sportinguistas para, caída sobre a barriguinha saliente, ou escorrida, sem tocar, nos abdominais ginasticados, a usar como simbolos vivos de um presente quase, quase a passar de moda.
E, verdade seja dita, muito os politicos têm contribuido para o mundo fique mais pobre com as gravatas com que os laçam. É que, por modismo ou falta de gosto (principalmente este), ostentam desde a época Socratina, uma gravatas pirosas, monocromáticas, pífias, sem o garbo dos brasões, sem a elegancias de umas riscas bem combinadas, sem a gentileza de uma bolinhas singelas ...
Abaixo portanto as gravatas dos políticos !
Tenho dito.
Olá Manel !
ResponderEliminarFaço questão de ouvir música com critério, num moderno gira-discos de vínil. Os miúdos sabem apreciar a qualidade de boa música no som analógico. De resto a boa música não tem idade. E com a literatura também lá vão - não me meto em modernices que a vida é curta! Não faço concessões e não discuto gravatas, trata-se de uma metáfora.
ResponderEliminarTerá certamente entendido que o tema é um pretexto, uma metáfora.
ResponderEliminarCordeais cumprimentos,
Entedi sim e assim igualmente tentei escrever.
ResponderEliminarProvávelmente com pouco sucesso ... :-)
Cordiais cumprimentos
o meu nome é Bond, James Bond. O cavalheiro deve-se ter enganado.
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