Fernando Santo, um dia destes, explicou muito bem no Observador como a subida do valor das casas, num país em que 70% dos agregados familiares vivem em casa própria, representa uma capitalização apreciável para muita gente.
Escuso de repetir aqui o argumento, muito bem construído e bastante realista, de que o governo deveria olhar para esta poupança seriamente e desenhar políticas públicas (neste caso não se trata de anunciar programas de milhões, trata-se de perceber as virtudes, em qualidade de vida, dos velhos poderem adaptar-se à sua vida actual vendendo casas mais caras e comprando mais baratas, libertando tesouraria para o seu dia a dia e, consequentemente, remover obstáculos fiscais e outros que são incentivos negativos à mobilidade na velhice) para que mais gente se sentisse motivada a procurar ganhos de qualidade de vida transformando capital em liquidez e conforto, na velhice.
Sobra uma outra parte importante da questão da habitação na velhice, a correcção da asneira histórica criada pela legislação do arrendamento, que cheia de bons sentimentos, montou uma armadilha socialmente deprimente para o fim de vida dos arrendatários mais velhos.
Com rendas absurdamente baixas (quando se diz que o parque de habitação social é só 2%, está-se a dizer uma mentira, essa é a percentagem pela qual o Estado se responsabiliza, há uma percentagem maior, provavelmente não muito maior, em que o Estado impõe, unilateralmente, aos senhorios, a prestação de um serviço social totalmente financiado pelos proprietários) e quase impossibilidade de despejo de pessoas mais velhas, mesmo quando já não vivem nas casas que alugam, o Estado condenou milhares de velhos a ficar em casas frequentemente em más condições, por vezes com escadas que as pessoas já não podem subir frequentemente.
As pessoas não podem sair de onde estão, quaisquer que sejam as condições, porque não arranjam casas com rendas semelhantes, mas a situação em que estão é, na verdade, péssima.
O dinheiro e esforço que a sociedade faz para ter creches para toda a gente não tem qualquer correspondência no esforço que fazemos para toda a gente ter uma fim de vida com um mínimo de qualidade.
Uma das minhas tias viveu bastante anos numa casa de Misericórdia local, que ela comprou num modelo em que não podia transmitir a casa a não ser para a Misericórdia, fosse em que circunstâncias fosse, com uma sala, um quarto e uma cozinha, que lhe bastavam, integrada num complexo que tinha serviço de limpeza, alimentação e cuidados básicos pessoais, saindo de um andar em Lisboa, logo que se reformou, para viver largos anos satisfeitíssima com esta situação.
Haverá, com certeza, outros modelos, até porque nem toda a gente mantém a autonomia que a minha tia teve até aos 95 anos, ou idade semelhante, mas a verdade é que ter um programa de acolhimento sério em zonas em que os terrenos e as infraestruturas permitem uma construção muito barata, tendo como efeito secundário libertar casas em zonas altamente pressionadas e como efeito principal melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas mais velhas, não me parece que seja assim tão má ideia.
Custa dinheiro aos contribuintes?
Sim custa, mas não me parece que apoiando directamente os beneficiários e deixando à sociedade, mercado e sector social, o desenho e modelo de resposta, seja um peso astronómico, face ao peso de ter velhos presos nas suas casas e casas presas nos seus velhos.
No fundo, o raciocínio aceita demasiadas premissas do desastre actual: casas como activos, cidades como mercados, mobilidade forçada como racionalidade económica. E depois tenta extrair humanidade daí. Mas às vezes o problema não é gerir melhor a espiral; é travá-la.
ResponderEliminarMuito obrigado pela demonstração de virtude que dará origem a um novo post, a seu tempo, para explicar como fantasias virtuosas condenam velhos à prisão domiciliária.
ResponderEliminarSim, aguardo. No entretanto, espreite a oferta actual da Santa Casa da Misericórdia: hoje, 12 de Maio, 51m2 por 1600 euros. Boa sorte a todas as tias Lisboetas.
ResponderEliminarhttps://scml.pt/patrimonio/arrendamentos/
Não tenho soluções exequíveis mas é chocante a discrepância entre um idoso ou um casal de idosos a viver num daqueles andares do Areeiro ou Av. de Londres, com cinco a sete assoalhadas e um casal (excepção eu sei) com seis filhos e à espera do sétimo e que, apesar de ambos licenciados (à séria, não é sociologia nem tretas do estilo) mas que não consegue melhor do que três assoalhadas e apenas porque foi já há uns anos pois hoje nem a isso chegariam.
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ResponderEliminarNão é por nada mas, se não conseguem mais do que três assoalhadas, por que raio têm tantos filhos?
As pessoas devem adequar a sua fertilidade à sua capacidade de arranjar casa, diria eu, e não esperar que aconteça o contrário.
ResponderEliminarExcelente post. Concordo quase na íntegra.
A únca parte de que discordo é que a subida do preço das casas seja boa porque faz aumentar os ativos de uma data de gente. Porque, como é evidente, esse aumento dos ativos de muita gente faz-se a expensas do empobrecimento dos restantes.
ResponderEliminarBoa sorte a encontrar vagas, preços comportáveis ou respostas minimamente dignas sem listas de espera intermináveis.
O post explica que aquilo que pretende não é o atual estado das coisas, mas sim um modelo em que se constrói novas habitações para idosos em zonas mais baratas e longe das cidades. Uma situação em que os idosos são estimulados a vender as suas casas enormes em Lisboa para irem passar a velhice em asilos (ou outras soluções de residência apoiada) em, digamos, Carrazeda de Ansiães.
Uma coisa que me tem ocorrido é que a geração que hoje não consegue comprar casa será, muito provavelmente, uma geração de herdeiros com bons ganhos financeiros.
ResponderEliminarA minha geração ou melhor, a minha bolha, é constituída por pessoas cujos pais alugavam mas nós compramos (nas décadas de 90 e 2000 e parte de 2010).
Os meus filhos e sobrinhos, que não conseguem comprar, serão herdeiros de casas quando a lei da vida se impuser.
Hoje, casas caras são um problema. Daqui a 20 anos poderá ser uma benção.
Errado, o post limita-se a defender que o Estado não crie entraves, nomeadamente fiscais, a quem queira adoptar uma solução que lhe parece melhor, não é o Estado que decide o que é bom para as pessoas, são elas próprias que escolhem
ResponderEliminarDeve ser uma coisa triste viver com a ideia de que ter um filho é uma coisa que deve ser decidida pelo número de quartos de uma casa.
ResponderEliminarSubidas de preços (ou descidas) não são coisas boas ou más, são realidades.
ResponderEliminarPara umas pessoas serão boas, para outras, serão más.
Não é triste.
ResponderEliminarÉ medonho
A Santa Casa deve ser um Negócio e Pêras
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ResponderEliminarExcelente texto, de quem percebe de economia e imobiliário.
Pena quem mande não ler...
em 1998 comprei a casa a um casal de 80 anos que pretendiam trocar 3 assoalhadas por uma.
ResponderEliminar1/3 do valor da casa reside no terreno que devia ser gratuito.
A subida do preço da habitação faz crescer a riqueza de boa parte da populaçao, o que num país pobre como Portugal é de louvar. Não são muitos os investimentos que valorizam anualmente o que valorizam os imóveis. Em vez de agradecer, os Portugueses querem restrição artificial de preços. Gostam de viver na pobreza, só se pode concluir. Muito bem o hps a denunciar esta mentalidade marxista.
ResponderEliminarMuito gostava eu de saber é porque não começa o Governo um Programa bem estruturado de Habitação Social, cobrindo a totalidade do território.
ResponderEliminarE por favor, um Programa dirigido aos Cidadãos e não á velha treta "dos mais desfavorecidos", ou "mais jovens" e baboseiradas quejandas.
E mais uma coisa; não vejo objeções a que as "Juventudes Partidárias" concorram desde que não seja o resto da Sociedade Penalizada.
A finalizar, um Programa de Habitação Social para Primeira Habitação dirigido ao Conjunto da Sociedade e não às "Camadas Jovens".
Rendas acessíveis de facto e não apenas nos anúncios á Comunicação Social !!
E á pergunta como se financia ?!
A resposta óbvia é tenho mais que fazer
ResponderEliminara oferta actual da Santa Casa da Misericórdia: hoje, 12 de Maio, 51m2 por 1600 euros
Sim. Mas o Henrique Pereira dos Santos não se refere a alojamentos na Santa Casa em Lisboa. Refere-se a alojamentos nas zonas menos povoadas do país.
51 m2 na minha terra arranjam-se por 400 euros, e é uma zona do litoral; se formos para Trás os Montes, Beiras e Alentejo, talvez se arranje por ainda menos.
ResponderEliminarA subida do preço da habitação faz crescer a riqueza de boa parte da populaçao
É verdade. Mas fá-lo à custa dos restantes, daqueles que não têm casa e precisam de arrendar ou comprar.
Completamente errado.
ResponderEliminarA subida ou descida de um preço não faz ninguém ganhar ou perder dinheiro, é a compra, venda ou arrendamento, isto é, o contrato que troca o bem por dinheiro, que faz alguém ficar mais rico ou mais pobre.
Como quer as vendas, quer os arrendamentos, estão a aumentar em número, isso quer dizer que há mais gente a conseguir comprar ou arrendar, e isso não altera nada a riqueza ou pobreza de quem não consegue comprar ou arrendar
ResponderEliminarPelo contrário, prova a pujança económica e financeira do pais e da população. Não fossem os entraves do Estado, melhor seria.
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