Insurjo-me contra o argumento de que uma organização estar orientada para o lucro a impede de contribuir mais para o bem comum que outra organização que não tem fins lucrativos.
Argumento que o essencial para avaliar isto é se a organização é mais ou menos eficiente, isto é, se entrega mais resultados usando menos recursos, sendo irrelevante saber quem é o seu proprietário e o que o motiva.
Dou exemplos concretos relacionados com a prestação de serviços como a educação, a saúde, a gestão do fogo, a habitação, etc..
E argumento, bem ou mal é outra discussão, que perseguir o lucro é um forte incentivo à melhoria da eficiência e à procura de resposta ao utilizador.
Dou ainda um passo no sentido de dizer que num sistema estritamente privado, ficam de fora as pessoas que não têm recursos para obter os bens ou serviços de que precisam, portanto acho normal que a sociedade, por via filantrópica ou com dinheiro dos contribuintes, se organize para não deixar essas pessoas para trás.
De maneira geral nem perco tempo a explicar que para os mercados funcionarem, é preciso confiança e que isso se reforça com sistemas de justiça que sejam reconhecidamente justos.
Tudo isto decorre de haver problemas, em todo o mundo, sobre as melhores soluções que as diferentes comunidades têm para garantir um tratamento humanista aos seus membros (por exemplo, o Hamas acha que o melhor é estoirar os recursos em túneis e armas, e localizar as suas infraestruturas militares no meio de civis, porque antes de garantir uma vida razoável aos palestinianos, é preciso eliminar Israel, já a generalidade do ocidente tem um problema de sub-financiamento da sua defesa porque acha que há outros destinos prioritários a dar ao dinheiro dos contribuintes).
Parecer-me-ia uma discussão que nos interessa a todos, no sentido em que todos reconhecemos problemas, por exemplo, no sistema de apoio à velhice, em que há uma evidente escassez de infraestruturas de apoio e uma generalizada qualidade abaixo do que seria desejável, nos meios de apoio que existem.
Aparentemente estou enganado, há bastante mais gente do que eu pensava para quem o importante é mesmo atribuir sistematicamente mais poder ao Estado, o garante do bem comum, para nos defendermos dos interesses económicos que só nos querem explorar.
Começa-se logo a discutir o conceito de eficiência, não porque haja qualquer dúvida sobre o sentido em que o conceito é usado acima, mas para poder chegar onde se quer: os malandros dos privados, para terem mais lucros, vão cortar nos ordenados e na qualidade, por isso o lucro é prejudicial.
Depois atiram-se gráficos e estatísticas sobre o sistema de saúde americano que é mais caro e tem um problema grave de acesso de quase um quinto da população, como demonstração de que os privados não são perfeitos.
Há até quem diga que se fosse tudo privado, não havia médicos para os velhotes que vivem no fim do mundo, coisa que faz parte da argumentação inicial, mas que se esquece para poder dizer que sem o Estado, seria tudo muito pior.
Eu tenho uma filha a viver nos Estados Unidos, que passa a vida a dizer mal do sistema de saúde dos EUA (e tem um bom seguro), mas o facto é que vive lá, não vive cá.
Porquê?
Porque lá tem oportunidades que não tem cá, incluindo o facto de pagar muito menos impostos do que cá, o que contribui para que o seu rendimento lá seja muito maior do cá.
Vamos esquecer o argumento de que os EUA são ricos porque são exploradores imperialistas que sugam as riquezas todas do mundo (nem as derrotas no Vietnam ou no Afeganistão, só para dar dois exemplos, convence esta gente de que o mundo não anda a toque de caixa dos americanos).
Em primeiro lugar, o sistema de saúde americano está muito longe de ser um mercado perfeito (de resto não existem mercados perfeitos) e está muito longe de não ter intervenção do Estado.
Em segundo lugar, sendo verdade que é um sistema caro e com problemas de acesso a percentagens muito grandes da população, também é o sistema mais inovador e com maior satisfação do cliente em muitos aspectos, sendo além disso o sistema que melhor paga aos seus profissionais (essa é uma das razões mais relevantes para ser um sistema caro).
Ou seja, não é um sistema perfeito e até pode nem ser o melhor do mundo (aparentemente não é) quando visto globalmente, mas não diz nada sobre o que pode fazer o reforço da intervenção dos privados na melhoria da eficiência global dos sistemas de apoio social em Portugal, visto que grande parte dos problemas que se verificam nesse sistema existem também noutros bastante mais estatizados (como o do Reino Unido).
Para além disso, discutir as vantagens comparativas do sistema americano em relação a outros globalmente mais eficientes (como os sistemas de boa parte dos países ocidentais mais ricos), é muito pouco útil para a discussão sobre os riscos de falência do estado social que se têm vindo a acumular nesses países (de que uma das consequências é o aumento do apoio social e votação em ideias mais nacionalistas).
A mim faz-me confusão que se gaste tanta energia a bloquear discussões ignorando os argumentos e repetindo, sistematicamente, as mesmas tretas baseadas na ideia de que basta encontrar uma imperfeição num mercado ou numa empresa privada para concluir que o melhor é confiar cegamente no Estado.
"Os malandros dos privados para terem mais lucro vão cortar nos ordenados e na qualidade" - é verdade que há muito boa gente que acredita neste disparate mas pela minha experiência de trabalho em empresas privadas, cortar nos ordenados leva à fuga dos melhores quadros (os mais inovadores e produtivos) para os concorrentes dando-lhes vantagens competitivas e o corte na qualidade, num mundo onde não dá para competir pelo preço contra os mercados asiáticos com custos de produção muito menores, é um suicídio completo (não é por acaso que foram as quinquilharias de má qualidade e baratas a irem em 1o lugar para as fábricas chinesas e companhia).
ResponderEliminarMas enfim, continuemos com esta mentalidade "prequiana" à lá PCP do 25 de Abril que vamos longe, mas tão longe que não tarda chegamos à cauda da Europa.
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ResponderEliminarTem toda a razão.
ResponderEliminarOs americanos que conheço dizem isso do SNS europeu gratuito deve ser uma boa porcaria, porque se não for a pagar é porque é mau. E têm razão. Recebe-se o que se paga. Nos EUA há tratamento médico de excelência, profissionais bem pagos, cobertura universal, todos saem a ganhar. De longe o melhor sistema de saúde do mundo, e houvesse coragem política, seria o vigente em todos os países europeus ocidentais.
E no entanto há quem o faça
ResponderEliminarNão se pode dizer que Portugal seja um país que pague bem na área em que opero (daí saídas para outros países, mas sem o impacto mediático dos tadinhos dos enfermeiros), sendo que horas extra e pressão diária são mato. A falta de recursos qualificados e experientes é uma realidade, sendo forte o influxo de brasileiros , sendo alguns de qualidade... dúbia. Mas são baratos, e mais barato que manter um portuga descontente que se avia para a Finlândia, por isso siga.
Existe muita, ou vai existindo, mobilidade dentro do mercado nacional, também porque há pouca flexibilidade para aumentar salários, mas não só , infelizmente ainda se gere muito em Portugal com a filosofia de que ninguém é insubstituível, e de que o mais fácil de arranjar não é uma cadeira ou uma mesa, mas algo para meter entre ambos.
Mas que sei eu de gestão e eficiência, estou cá é mesmo para aprender.
Qual é a utilidade de escrever esta estupidez a propósito de um post que explicita e claramente diz o contrário desta estupidez?
ResponderEliminarTodo o texto é uma estupidez (parece claramente uma interpretação abusiva e com o único intento de matar a discussão) ou apenas partes, e quais?
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ResponderEliminarBoa prosa.
Especialmente porque do início ao fim faz exactamente aquilo que acusa os comentadores de fazerem em relação aos seus textos. Afinal a raça humana, mesmo em espectros opostos da ideologia, é mais homogénea dos as ciências sociais fazem crer (eu sou mais biologias, portanto...)
Interpretar argumentos baseado não no que dizem mas naquilo que pensa que dizem, concluindo com tiradas (as tais abusivas contra as quais se insurge) que aparecem não das palavras escritas mas da cabeça de quem as lê.
Não me lembro de alguma vez aqui ler que "o melhor é confiar cegamente no Estado", mas poderei estar equivocado, e se sim, os comentadores (os próprios, não os outros que se acham telepatas) devem corrigir-me.
Que o meu texto seja uma estupidez, dou de barato, mas ele não é um comentário a um texto de terceiros.
ResponderEliminarO que me espanta é a estupidez de escrever uma estupidez como comentário a um texto com o qual essa estupidez não tem qualquer ligação e que se limita a repetir uma estupidez que o texto original manifestamente contesta.
O que é que o faz andar aqui a perder tempo a ler coisa idiotas e comentar idiotices?
ResponderEliminarPorque não vai, por exemplo, dar uma volta que o dia está bonito?
Ou seja... achar que o sistema de saúde americano é de longe o melhor sistema de saúde do mundo, e houvesse coragem política, seria o vigente em todos os países europeus ocidentais é uma estupidez. Quem acha isso é estúpido.
ResponderEliminarMuito bem, entendido. Afinal sempre é mais o que nos une do que o que nos separa.
Podia responder, mas qualquer que fosse a resposta seria alvo de uma interpretação abusiva.
ResponderEliminar(já argumentos...)
Estupidez é fazer o comentário que fez sobre o texto em concreto, quer porque não conheço (não quer dizer que não haja) uma única pessoa que tenha essa opinião, quer porque o texto que comenta não dá a menor hipótese de considerar essa estupidez como extraível do texto que comenta.
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ResponderEliminarO sistema americano não é um sistema nem um mercado livre é uma aberração.
É melhor informar-se melhor e deixar de ler jornais portugueses. Os únicos sistema de saúde na OCDE que não são fortemente intervencionados pelo estado são os veterinários.
A sua filha, residindo nos EUA, deve conhecer pessoas com essa opinião. Questione-a sobre o assunto.
ResponderEliminarAberração porquê?
ResponderEliminarQuanto muito o Obamacare danificou o sistema, mas continua a bater os europeus socialistas de longe
A realidade é a madrasta das convicções e dos dogmatismos.
ResponderEliminarTodo este post exala um forte odor a dissonância cognitiva, aquela frustração que resulta de se ver o sistema de crenças, as convicções e os dogmatismos abalados, quando não mesmo destruídos, perante a evidência da realidade traduzida em números e gráficos.
Já tinha escrito isso tudo da última vez.
ResponderEliminarRegisto que evitou responder ao facto de uma das razões para o sistema ser mais caro é pagar melhor aos seus profissionais e de ser um dos sistemas mais inovadores e com melhores indicadores de satisfação do doente em muitos aspectos.
Não vou perder tempo a responder a uma opinião (não a um artigo científico) que diz que os dados empíricos parecem sugerir indícios de que isto ou aquilo, evidentemente.
1º parágrafo - parcialmente verdadeiro, talvez 10%, mas este seu post demonstra que nunca é demais repeti-lo.
ResponderEliminar2º parágrafo - exemplo de afirmações que carecem de demonstração.
3º parágrafo - os gráficos a que faço referência mostram dados empíricos; aquilo que designa por opinião está em acordo com os dados empíricos mostrados nos gráficos; logo, trata-se de afirmação verdadeira que não carece de demonstração.
As afirmações do segundo parágrafo carecem de demonstração?
ResponderEliminarBasta procurar informação sobre as razões para o sistema de saúde americano ser tão caro, vai verificar que da esquerda à direita, está muita gente de acordo (e os outros não o contestam) que é essencialmente uma questão de preço: os remédios e tratamentos são mais caros, os profissionais são mais bem pagos e o custo administrativo também é mais alto.
Até encontra artigos que têm como título afirmações do género "É o preço, estúpido".