sábado, 16 de setembro de 2023

Uma pausa e um suspiro

A partir de um comentário ao meu post anterior, que agradeço, cheguei a esta entrevista a Fausto Bordalo Dias.


Aos 26 minutos e 54 segundos, Fausto diz: "Quando uma independência não concorre para a felicidade dos povos, alguma coisa está errada".


Na sequência, Fátima Campos Ferreira pergunta explicitamente: "Acha que a sociedade colonial foi mais protectora das populações?".


Toda a entrevista é bastante interessante, desde que se consiga ultrapassar a entrevistadora, que gosta mais de palavras que da substância das coisas (penso ser por isso que fala duas vezes no "mar da palha" a propósito do se vê da Torre de Belém, demonstrando não saber onde é o Mar da Palha e porque se chama assim, um belo nome, nisso estamos de acordo) mas o que me pareceu o mais interessante da entrevista foi mesmo a pausa, seguida de um suspiro de Fausto, antes de responder a esta pergunta.


A resposta é surpreendente, vinda de quem vem.


O próprio Fausto sinaliza o insólito da resposta pela tal pausa, pelo tal suspiro e pela forma sincopada como diz: "eles viveram mais felizes antes da independência do que vivem agora. Eu sei que isto desagrada a muita gente, mas é a verdade".


Quase se poderia aplicar a este bocado da entrevista uma frase muito interessante de Jaime Nogueira Pinto, no seu artigo de hoje no Observador "Não podemos confundir os esforços para melhorar este mundo, comandados pela ética e pelo humanismo, cristão ou agnóstico, com a hipócrita ou estúpida ignorância da realidade".


Não tenho a pretensão de dizer que Fausto está certo no que diz, não sei medir a felicidade dos povos, mas parece-me hoje inquestionável o que está implícito na primeira parte da resposta que citei: há alguma coisa profundamente errada na forma como, de maneira geral, a indepedência das colónias (e não apenas das colónias portuguesas) concorreu tão pouco para a felicidade dos povos, das pessoas comuns que vivem nessas terras.


Não estou a dizer que poderia ter sido de outra maneira, isso não sei, o que sei é que, frequentemente, a independência dos países correu muito mal para muita gente.


Claro que é preciso ter em atenção que África é a região do mundo que mais cresce em população (quer Moçambique, quer Angola, têm hoje, pelo menos, três a quatro vezes mais gente que a que tinham na altura da independência, apesar das guerras, da fome e das doenças, e é mais ou menos assim em quase toda a África) e que os problemas a resolver são grandes e complexos, mas talvez fosse boa ideia começar por desfazer mitos para se poder olhar a realidade de frente, para a mudar eficazmente.


Sérgio Godinho, no mesmo disco que citei no meu post anterior, tem outra música, "Independência", que remete para erros históricos ("já chega quinhentos anos", diz ele, ignorando que a colonização do interior de África só existe verdadeiramente a partir da segunda metade do Século XIX, por exemplo, Gungunhana é derrotado apenas em 1895, ficando Marracuene, onde se dá uma das grandes derrotas de Gungunhana, a menos de trinta quilómetros, em linha recta, da então Lourenço Marques e Chaimite, onde é preso, a cerca de 150 quilómetros, o que ilustra bem a fragilidade da colonização Europeia de África para além da estreita faixa litoral onde se localizavam os principais entrepostos comerciais) e que, o que me parece bem mais relevante, começa com "Quem diz que sim, quem diz que não, quem diz que sim, quem diz que não, são os movimentos de libertação".


E é este o problema, a ideia de que perguntar às pessoas, dar o poder às pessoas através de mecanismos abertos e escrutináveis, é um frivolidade e um luxo porque se definiu, à cabeça, quem representa o povo: inevitavelmente, quem tem as armas na mão.


A quantidade de patetices que leio sobre o que eram as sociedades coloniais, com sistemáticas referências a um estatuto do indigenato que essencialmente existia no papel, mas com pouca expressão real, e sistemáticas referências a um estatuto privilegiado de cada um dos brancos que por lá andavam, confundindo os privilégios das companhias majestáticas - que existiam - com a vida comum de comerciantes, agricultores, criadores de gado, caçadores e funcionários coloniais que por lá andavam, umas vezes menos duras, outras vezes bem duras, não tem conta e tem livre curso na literatura, incluindo na literatura académica sobre essa realidade.


E é por isso que acho especialmente interessante a longa pausa e o suspiro de Fausto: o mundo é muito maior e mais diverso do que muita gente pensa, e a vida das pessoas comuns, nessa altura, não é necessariamente coincidente com o retrato que serviu de mote à ideia de que "quem diz que sim, quem diz que não, são os movimentos de libertação", sem que nos perguntássemos de onde vinha a legitimidade desse poder, para além das armas.


E, no entanto, essa pergunta deve ser feita sempre e em qualquer lado: qual é a fonte de legitimidade deste poder em concreto?


Sem uma resposta clara a esta pergunta, será difícil definir a melhor forma de contribuir para a felicidade dos povos, de que fala Fausto na entrevista.

29 comentários:

  1. Quando se vai ver com olhos de ver(sem preconceitos e sem palas ideológicas) a quem realmente serviu a dita independência das ex-colónias tudo encaixa melhor e forma-se então um quadro completo. Quem quiser que desenvolva,pois não faltam pontas por onde pegar.

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  2. África:
    brancos nos países muçulmanos, berberes e tuaregues

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  3. Vá lá, de vez em quando o óbvio vem à superfície...
    Juromenha

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  4. A felicidade é em si um conceito Subjectivo e não quantificavel.
    Depende de vários factores, entre os quais as ilusões e expectativas. 
    Hoje é-nos apresentado um mundo de possibilidades desde crianças, a que se junta o conceito de que "podes ser o que quiseres" (quantos dos meus amigos estavam destinados a fazer aquilo que os pais faziam), se tudo ou grande parte não for cumprido, seremos infelizes.
    Depois há a informação, e a vontade humana de querer mais. Coma eu uma malga de sopa todos os dias mais um naco de pão, sou feliz. Mas se descobrir que a uns kms de mim há quem coma bifes e camarão e que há mais para pôr na mesa do que aquilo que tenho, é provável que a felicidade baixe.

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  5. a questão é saber quão felizes eram antes de ser colonizados...eram mais do que antes da colonização? Mia Couto diz que sim e eu penso igual. 
     os índios do amazonas são perfeitamente felizes , bem mais que nós e muito melhor  preparados para sobreviver em condições adversas.
    recomendo ler Ailton Krenak , sou fã.

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  6. O Mia Couto tem problemas oftalmológicos: nunca viu as atrocidades da Frelimo.
    E, estranhamente, também nunca leu os relatos dos que primeiro contactaram com as sociedades pré-coloniais, que duraram até aos inícios do século XX.
    Quanto aos índios, eles parecem ter outra opinião: emigram em massa e raramente recebem imigrantes.

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  7. até parece que por aqui nunca cometeram atrocidades ...assim , nos tempos mais recentes  estou lembrada de 3 guerras mundiais e parece que vamos a caminho da 4ª.  lá por as atrocidades dos colonizados serem feitas em pelota não são mais graves ou "primitivas"

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  8. As atrocidades da Frelimo não foram feitas em pelota e também não exageremos, não se comparam com a segunda guerra mundial.
    A única coisa extraordinária é Mia Couto nunca ter dado por elas.

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  9. Porque será que fazem fila diariamente em frente à nossa embaixada de Luanda1.000 angolanos a pedir visto para Portugal?

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  10. "
    A Marina nunca ouviu falar de antropofagos? E que havia disso nas terras que os portugueses começaram a colonizar?

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  11. Espero que lhes deem (e depois lhes renovem) os vistos depressa. Bem precisamos cá de mais pessoas.

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  12. não estamos  a falar de hábitos alimentares ...felicidade é o assunto  .:)

    e aqui comem-nos de outra maneira , até nós roem os ossos. 70 anos é a idade que se perfila para a reforma , não é?

    também ouvi falar dos bosquímanos , nem a palavra "guerra "conhecem.
    também ouvi falar de navios negreiros e do que lhes faziam os  comerciantes de carne , tal e como o faziam os nativos uns aos outros.

    ouvi falar de muita coisa.

    não vale a pena compararem atrocidades .é um exercício inútil. não somos melhores , diferentes apenas , sendo que a colonização interrompeu a evolução natural dos povos , criou-lhes desejos que talvez nunca viessem a ter além de que matou a diversidade : mac , coca cola e óculos escuros por todo o lado.  que monotonia.

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  13. Se bem percebo o seu conceito de felicidade, felizes são as pessoas que abandonam os velhos e deficientes que já não conseguem angariar o seu sustento, para evitar o consumo de recursos que fazem falta ao grupo, como fazem os bosquímanes, é isso?

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  14. É absurdo tentar quantificar se eram mais felizes os povos pré-colonizados.
    Nunca poria assim a questão, porque as sociedades pré-coloniais desconheciam muitas coisas e viviam bem com isso, porque  
    Será motivo de Felicidade, viver-se no Desconhecimento e na Ignorância de outras realidades que nos podem "acrescentar" ou melhorar a nossa vida? Pergunto o que é a Evolução do Homem? (A escrita, por exemplo, ignorada por alguns povos pré-colonizados, será que lhes fazia falta? Evidentemente que não! Mas não acho razoável defender-se que eram mais felizes assim e portanto, devíamos mantê-los intactos nesse "estado de pureza" intocada).
      
    Nem sei como se pode fazer essa apologia! Sabemos como era a vida dos povos que estavam na "base da pirâmide" dessas sociedades: as necessidades diárias eram muito reduzidas e muito rudimentares, portanto fáceis de satisfazer, ainda que algumas das "tarefas" fossem bastante penosas e difíceis de contornar para as resolver (e estou apenas a lembrar-me _ porque a lista seria extensa_ das suas deslocações diárias para se abastecerem de água (quando havia...) e dos perigos que enfrentavam nessas longas caminhadas).
     Mas os perigos não se ficam por aí. Como eram sociedades organizadas em regime tribal (sobretudo as africanas) estavam constantemente sujeitas aos ataques de tribos vizinhas e portanto necessitavam de formas de se defenderem da invasão e ocupação dos seus territórios e das ameaças à própria vida. Logo, em circunstâncias tão adversas e cruéis, com lutas sangrentas, não havia lugar para códigos "morais" de conduta: a Lei que imperava era a da selva, i.e., a do "mais forte". (Lá cai por terra esse "mito" do bom selvagem que tanto tem entusiasmado as sociedade actuais).


    O viver quotidiano era simples, frugal (não podemos dizer que "dispensavam os confortos", porque nem os conheciam), pois o que era indispensável e seu principal foco era a luta diária pela sobrevivência e satisfação das necessidades básicas.
    Eram formas de vida muito precária, cheias de adversidades constantes, as suas casas eram do mais elementar e resistiam mal às intempéries; e a vida era uma labuta diária e interminável sobretudo na busca de alimentos em alturas de escassez.


    Sabemos que eram sociedades que viviam "para" o dia-a-dia, "para" o presente, "para" se conservarem vivos, preservarem a espécie e perpetuá-la e pouco mais.
    Por isso certamente poucos projectos e poucas aspirações teriam para o seu futuro, por ele ser tão incerto. 
    Eram, pois, sociedades com poucos "desejos", dum modo geral. Assim sendo, o seu grau de Felicidade dependia de muito pouco para se sentirem "realizados". Suponho que fosse proporcional à satisfação das suas poucas necessidades e desejos. 
    Será isso suficiente para considerarmos os povos pré-colonizados  mais felizes?  
    Já agora, a talho de foice, façamos uma pergunta:
    --Seriam mais felizes os Homens, antes da descoberta do fogo ou da roda? Ou da escrita? 

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  15. Pode não ser o seu, mas é (era) o deles.
    A África não era uma utopia kumbaya que os neo "historiadores" querem vender, mas também não ficaram todos contentes quando o europeu lá apareceu para lhes dar progresso.
    A História humana está cheia de acções e hábitos no mínimo questionáveis, acho que nenhum povo pode passar por impoluto se alguma vez chegarmos a colocar no excel as fórmulas para cacular as famosas reparações. 

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  16. Reparações a quem? Aos descendentes dos que escravizaram as pessoas que depois venderam aos comerciantes europeus ou árabes?

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  17. E as sociedades pré-colombianas, Marina? Nunca ouviu falar de canibalismo, de escravatura e da prática de sacrifícios humanos para aplacar os deuses? Ou simplesmente para que o sangue humano que escorria pelos degraus das gigantescas pirâmides trouxesse a chuva e as boas colheitas?
    E da escravatura praticada nas sociedades pré-coloniais em África? E as atrocidades duma crueldade inimaginável contra os seus inimigos?
    Ai esse Mia Couto!... esse Mia Couto!... 
    (nos manuais sobre a arte da sobrevivência também deve haver um capítulo sobre como camuflar a subserviência).

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  18. Anonimo 10:06


    Exactamente isso. Ignorância é bênção,  como se diz. A felicidade (que por si é variável, pois posso ser feliz hoje e infeliz amanhã) depende do que conhecemos, e do que pretendemos.
    Na nossa sociedade evoluída há quem seja feliz apenas se tiver o último gadget, ou conseguir adquirir a peça de roupa da moda. Dirão que felicidade material não é real, mas na verdade felicidade não é quantificavel. 
    Ser temente a Deus, ter família,  viver o dia a dia sem provações, é isso que vale? Há quem tenha isso tudo mas seja infeliz por factores externos que nem controla, como o aquecimento global ou a guerra na Ucrânia. 

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  19. Reparações a quem?
    Não sei, quanto muito terei que as pagar. Mas há quem diga ter direito a receber. Podemos discordar, mas não ignorar 

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  20. Em 1974 serviu claramente os interesses do império americano e seus clubes multinacionais(por um  lado) e do russo-soviético e seus agentes no Ocidente e em Africa.

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  21. O comentador Balio terá receio que se não vierem imigrantes aumentar as receitas da segurança social, lhe venham a fazer cortes nos seus privilégios de funcionário público. Faz sentido.

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  22. A minha família é mista. Desde os meus bisavô, trisavô e dois irmãos, todos militares com carreiras ultramarinas que vários descendentes se miscigenaram e vieram a ocupar todo o espectro social depois da descolonização, desde ministros em Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe a quase indigentes. O capítulo sobre Angola, soma deslocados, fugitivos em condições extremas, "retornados" de terceira geração angolana e quarta africana, que, de boas situações se encontraram com uma mão à frente e outra atrás, e também mortos diversos na guerra civil.
    É essa bagagem familiar e pessoal que me permite apreciar a coragem intelectual de Fausto Bordalo Dias e creio que entender o quanto lhe terá custado fazer essa afirmação. De facto há pausas e suspiros mais eloquentes do que discursos académicos.

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  23. Obrigatório ouvir:
    https://www.youtube.com/watch?v=32gU7uqmn2w

    e
    https://www.youtube.com/watch?v=OzpQ3kPfQh4

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  24. Isso se metade deles não vierem (como podem constatar se forem ao centro de Lisboa) para polir as calçadas com as solas e receber subsidios costistas e ursulianos.

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  25. Em 1974 serviu claramente os interesses do império americano


    Já muito antes de 1974 os EUA eram anti-colonialistas e estimularam o fim dos impérios coloniais. Em particular, Salazar e a sua obsessão de manter o império colonial português nunca foram apoiados pelos EUA. Portugal estava sozinho do ponto de vista diplomático muito antes de 1974.

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  26. os que escravizaram as pessoas que depois venderam aos comerciantes europeus ou árabes


    Bem, eles só escravizavam as pessoas porque sabiam que depois poderiam vender esses escravos aos comerciantes europeus ou árabes.


    Ou seja, foi devido à existência de uma procura por parte de comerciantes europeus e árabes que alguns africanos foram escravizadas por outros africanos.


    Não se pode pois desta forma ilibar os europeus e os árabes da escravização.

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  27. Dizes cada disparate. A escravidão era generalizada em África antes da chegada dos europeus.

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