Luis Aguiar-Conraria tem hoje um bom artigo no Expresso: "Os lares-prisão".
O problema dos lares, ao contrário das escolas, é um problema complicado para o qual não existem seguramente soluções simples e, provavelmente, não existem soluções que não sejam parciais e falíveis.
Luis Aguiar-Conraria não foge a essa complexidade, pelo contrário, procura discuti-la.
Não vou atrás da pergunta falaciosa "qual é a tua solução?" de que fala no artigo porque o facto de eu não ter uma solução para um problema não significa que as soluções que estão a ser aplicadas devam ser aceites sem discussão. As soluções devem ser discutidas cada uma por si, pesando prós e contras.
É absurdo verificar que as duríssimas soluções adoptadas (e é bom relembrar que metade dos centros de dia continuam fechados), que afectam a vida das pessoas que estão nos lares, e respectivas famílias, de forma profunda, não estão a dar os resultados pretendidos e, mesmo assim, persistir nelas.
E isso é completamente autónomo em relação ao facto de alguém ter uma solução global melhor.
Interessa-me a discussão sobre a responsabilidade individual numa epidemia.
Luís Aguiar-Conraria lembra que damos autonomia às pessoas para pedir ajuda para morrer, aprovando a eutanásia, mas não as deixamos escolher os riscos que querem correr numa epidemia. E identifica bem a dificuldade: a eutanásia é uma decisão sem efeitos directos em terceiros, mas o risco de contágio de um, é o risco de contágio de todos.
Imediatamente me lembrei das minhas discussões recorrentes com Pedro Bingre sobre a responsabilidade dos proprietários na correcta gestão das suas propriedades, quando colocam em risco terceiros.
O Pedro e eu estamos de acordo na responsabilidade de um proprietário de uma casa em ruína que põe em risco quem passa no passeio: o risco decorre do estado de conservação da casa e as consequências do mau estado do bem privado reflectem-se no espaço público, sendo claro o vínculo concreto entre a propriedade privada e o risco público e é inegável a responsabilidade do proprietário em fazer desaparecer esse risco.
Onde divergimos é quando deixamos de estar a falar do risco concreto e passamos para riscos difusos como os associados aos incêndios, em que não é o estado de conservação de um terreno que está em causa mas o estado de conservação de um conjunto de terrenos - a acumulação de combustível de um terreno, numa matriz sem risco, não tem grande risco para os seus vizinhos, é o conjunto de terrenos que cria a matriz de risco.
O risco associado a um surto de covid num lar não é criado por uma pessoa infectada, mas pelo contexto de cada lar que facilita a propagação do contágio.
O argumento, tal como no caso dos fogos, é o de que se todos gerirem o seu terreno não existe risco de incêndio e, consequentemente, todos são responsáveis e é legítimo à sociedade exigir que cada um faça a sua parte.
Só que não é bem assim porque há razões igualmente sociais que condicionam as escolhas dos proprietérios: as opções de gestão de um terreno não são uma simples escolha do proprietário, dependem das condições naturais do terreno e das condições sociais e económicas em que a actividade de gestão é exercida, isto é, não havendo liberdade de escolha, não há responsabilidade individual.
As pessoas que vivem lares não têm liberdade para fazer as escolhas que entenderem e, consequentemente, não são responsáveis por serem veículos de uma infecção que é um risco colectivo que depende do contexto em que os utilizadores dos lares estão, independentemente da sua vontade e das escolhas que fariam, se pudessem.
Um dia destes falaram-me de uma senhora com mais de 90 anos, com bastante autonomia, que vivia num lar onde preferia estar, mantendo, no entanto, a sua casa. Quando começaram os problemas da covid, desapareceu do lar e quando a responsável do lar finalmente a conseguiu contactar a resposta às perguntas foi desarmantemente simples: "óh! filha, aí é que não fico, não é por ti, que me tratas muito bem, não é pelo lar, onde estou muito bem, mas ao mínimo problema prendem-me aí dentro e eu não estou para isso, de maneira que prefiro estar por casa, mesmo sozinha, a fazer a vida que entender".
O que é relevante é que a maior parte dos utilizadores dos lares não tem esta liberdade de escolha, está onde está, nas circunstâncias em que está, sem que tenha alternativa.
Responsabilizar cada uma destas pessoas por garantir a quebra da cadeia de contágio só pode resultar na actual desumanidade irresponsável promovida por quem é responsável por ter lares com contextos que dificultem o contágio, seja de covid, seja de gripe, seja de qualquer outra doença infecciosa.
É, provavelmente, impossível impedir a existência de surtos em lares (como em qualquer outro sítio), tal como é impossível acabar com as ignições nos fogos e com a presença do fogo no território.
Responsabilizar os proprietários por assegurarem a gestão que poderia melhorar o contexto para a gestão do fogo tem dado péssimo resultado e tem permitido ao resto da sociedade eximir-se ao pagamento da gestão de serviços de ecossistema que permita gerir serenamente o fogo.
Responsabilizar cada utilizador de um lar pela quebra de contágio, obrigando-o ao isolamento, à perda de contacto com a família e amigos, tem dado o mesmo resultado que o mesmo modelo tem dado nos fogos - há uma quantidade apreciável de surtos em lares - e permite aos gestores dos lares e respectivas tutelas dizer que se está a fazer tudo o que é possível, sem que na verdade se invista seriamente na melhoria do contexto dos lares para lidar com doenças infecciosas.
Talvez esteja na altura de dizer que temos de olhar para os lares pelos olhos dos seus utilizadores, incluindo o medo que uma situação destas forçosamente cria, mas assumindo as responsabilidades colectivas que temos: quando optamos por estoirar o dinheiro que estoiramos na TAP, nas festas, festinhas e festarolas desde aldeias a Lisboa, passando pelo São João, nas autoestradas vazias, e em muitos, muitos outros sítios, estamos a optar por diminuir o dinheiro disponível para resolver problemas colectivos para os quais o mercado não tem resposta satisfatória.
E não é fazendo dos lares prisões que vamos fugir aos problemas, verdadeiramente complicados, que vamos ter de gerir no apoio à dignidade da velhice.
ResponderEliminarO que a malta quer é Aval Presidencial para assassinar os velhos e velhas À vontadinha... Este ano já tivemos a época de caça durante a Primavera
https://i.postimg.cc/cLgCkmcg/Mortes-Diarias-2020-PT-02-Out-velhos.jpg
Resta-nos esperar que o caçador mor da república volte a declarar nova época de caça durante o Outono e/ou Inverno.
Temos de tornar a SegSocial e CGA sustentáveis dê por onde der!
a pandemia arrasta.se penosamente por ser desde o início um problema criado pelos pulhiticos
ResponderEliminarontem foi o 3º dia pior ao fim de 7 meses de desastre
e o pior é a tendência
.....e não podemos esperar pele eutanácia!!!
ResponderEliminartiro na nuca sai mais barato
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ResponderEliminarÉ curioso como um dos indivíduos, deste mundo, mais protegido contra potenciais re-transmissões de este vírus, rodeado de exagerados cuidados no seu círculo de relações, foi contamindo. Aparentemente por uma jóvem colaboradora.
No binómio perfil do Indivíduo vs um Vírus potencialmente letal, haverá 4 situações a considerar.
1) Indivíduo saudável (sem pré-condições) vs vírus já de fraca virulência (retransmições sucesssivas).
2) Indivíduo saudável vs vírus de alta virulência, (fresquinho, recém chegado do fabricante(?).
3) Indivíduo débil (de saúde) vs vírus já de fraca virulência.
4) Indivíduo débil vs vírus de alta virulência.
O cidadão, individualmente, deve estudar a sua conduta de acordo com o seu perfil. Cada nova vaga(?) de este vírus tráz novas susceptibilidades. Criteriosamente evitar exposições desnecessárias. Curiosamente o insólito aconteceu.
Eu assisti às consequências do isolamento nas capacidades da minha mãe que, estando num lar, passou a estar isolada dos restantes utentes porque tinha de sair para fazer hemodiálise. Dias seguidos sozinha, apenas com a televisão, com visitas breves dos funcionários durante o dia, sem visitas dos familiares (uma ou outra vez, excecionalmente à janela) e mesmo com contactos diários por telemóvel, começaram a cobrar o seu preço e a demência começou a instalar-se. Apesar de todas as precauções, a Covid-19 vai chegar a todos os lares, mais tarde ou mais cedo, a não ser que consigamos testes que permitam o rastreio diário com resultados imediatos de todos os que entram no lar. No contexto atual, não salvamos os mais velhos da COVID e também não os salvamos da depressão, da demência e do sentimento de vazio e de inutilidade da vida que é estar numa "prisão" sem capacidade de decisão e sem poder estar com aqueles que mais amam.
ResponderEliminarCaro Senhor
ResponderEliminarReceio que a " discussão" e premissa que a sustentam não tenham qualquer fundamento jurídico o, ético.
Compararmos as externalidades de um bem real, pela su indevida utilização, ou inação, não pode ser comparado às consequências ( externalidades ?) decorrentes de uma decisão individual tomada dentro das leis vigentes, do respeito pela autonomia individual, e pela história.
As consequências prejudiciais no primeiro caso são abordadas por áreas do direito, que não as que decorrem das segundas, decorrentes de actos individuais sobre a forma de vida que as pessoas prosseguem.
A título de exemplo extremo, um bem inadequadamente e perigosamente "usado" poderá acarretar uma expropriação utilização por conta dos proprietários pelas autoridades/ estado; já no caso de haverem consequências indesejadas do comportamento individual, não se "nacionaliza (ainda !) o indivíduo.pderá até, sujeito a confirmação pelo tribunal restrição da liberdade, mas não se fazem "obras" contra a vontade do indivíduo ( ninguém me pode obrigar a pôr máscara: podem me prender, limitar determinados acesso, impedir, mas não forçar comportamentos.
Não aconselho pois uma perspectiva económica, ou florestal, na abordagem à dignidade humana: esta está muito acima dos objectos das ciências que abordam os aspectos anteriores.
Melhores cumprimentos
Vasco Silveira
ResponderEliminarA CUVID não chega a lado nenhum, porque não existe nada de novo.
Quanto ao teu comportamento face à tua mãe... Coitada dela por ter crias como tu.
ResponderEliminarAté agora ainda não conseguir SUPERAR UM NORMAL ANO DE PNEUMONIA, que em média MATA ~6.000 tugas!
Por isso não vejo porque razão o gado anda tão assustado!
https://blasfemias.net/2020/10/02/querem-falar-sobre-discriminacao-e-maus-tratos-no-presente
ResponderEliminararrepiante!
Fui eu que aprovei este comentário, mas continuo com dúvidas se o devia ter feito.
ResponderEliminarComo suponho que os leitores habituais do corta-fitas já terão percebido a inimputabilidade deste comentador, talvez tenha feito bem, suponho que na verdade ninguém liga nenhuma ao que escreve o seu autor.
ResponderEliminarAté fiquei admirado por ter passado pelo NEOPIDE...
Mas no fim de contas estamos ao mesmo nível, pois também ninguém liga ao que tu escreves.
Há uma coisa que podia ser feita de imediato: proibir que se designem por LAR estabelecimentos que mantêm idosos "presos". Lar é outra coisa, lar pressupõe família, que é o que essas casas raramente são.
ResponderEliminargostei do desafio e apelo á discussao, admitindo logo no inicio a complexidade da coisa e das possiveis soluçoes moderadores do risco.
ResponderEliminarAlias diz que é impossivel eliminar o risco, tambem nos lares.
Mas depois despista-se na curva da tap, estradas vazias e mais. Desconversa. Mesmo que se perceba a intençao, boa, de dar mais meios, aos lares e nao só, para moderar o risco.
E até "toca" num problema que ninguem enfrenta em tudo o que se escreve : nesta fase de crise pandemica, e a menos que evolua a proteçao nos lares e a vida dos idosos, a familia adota-los. Claro que nem todos tem familia. Claro que muitos nao tem mobilidade e necessitam de muitos cuidados. Claro que as familias nao tem tempo nem dinheiro. Claro...claro... Mas insisto : perante a iminencia do fogo, nao seria logico que as familias fossem buscar os seus idosos ?
ResponderEliminarBaseiam a narrativa da palermia em testes PCR com taxas ridiculamente altas de falsos-positivos.
E os números são produzidos a critério e na quantidade pretendida com a escolha da população-alvo...
São testes de banda larga e fragmentos ADN, a analogia é que se fossemos a testar quem era hipopótamo, os humanos também davam positivos porque também são mamíferos e teem o ADN das orelhas...
Mas vá lá, podemos chamar-lhes "hipopótamos assintomáticos".
Onde é que estão os postulados de Koch ?
Estaríamos ao mesmo nível se eu fosse a algum lado em que escreva repetir exaustivamente comentários chamando idiotas a todos os que não pensam como eu, mas a verdade é que nunca fui a um blog seu e passa a vida aqui, de maneira que seguramente não estamos ao mesmo nível.
ResponderEliminarEu posso estar num nível muito mais baixo que o seu, mas seguramente não no mesmo nível.
ResponderEliminarPor isso é que os políticos (desde presidente até ao último deputado(a)) passando pelos profissionais da doença não gostam dessa técnica... Não conseguem encher os bolsos!
ResponderEliminarNão estão em lado nenhum...
Existem dois "trabalhos" sobre o hipotético novo vírus, NENHUM deles cumpriu, ou sequer se deram ao trabalho de tentar verificar, esses postulados.
Mas como me disse um médico investigador espanhol:
"
Bom dia. O que escrevi aqui foi um desabafo sobre a minha incapacidade de dar a volta à situação e poder dar melhores condições à minha mãe enquanto foi viva (a minha mão já morreu e não foi por covid) que, julgo, será o problema de muitos dos familiares dos utentes dos lares. Os impedimentos de visitas foram impostos pelos lares (seguindo as diretrizes da DGS), impedido os familiares de terem contacto direto com os utentes, apenas sendo possível por telemóvel (video e/ou áudio). Para a maioria dos utentes esse contacto não chega porque nunca estiveram habituados a ele e porque o contacto físico também é importante. Para além disso, a separação das equipas de apoio e a eliminação de atividades culturais e recreativas, mesmo no próprio lar, leva a que o contacto e a atividade diária dos utentes seja reduzida com consequências para este. Como é referido noutro post mais recente, retirar os utentes dos lares será uma reação impossível para muitos familiares, devido a várias causas, e a contestação ás regras não é feita porque por um lado vem de cima e por outro porque ninguém quer ser responsabilizado por um surto num lar, afetando outras pessoas para além do seu familiar.
ResponderEliminarImpedir a entrada da Covid nos lares é impossível e por isso assistimos todos os dias a casos em lares, uns atrás dos outros até ter dado a volta a todos (e provavelmente uma 2ª e 3ª volta). A única maneira de criar uma barreira seria testar todos os que entram, todos os dias, com resultados imediatos e impedindo a entrada dos infetados e isso não me parece que para já seja possível.
Carlos Santos
(não coloquei o nome antes porque nunca tinha feito comentários e não sabia como funcionava).
Eu é que lhe peço desculpa por ter aprovado um comentário javardo.
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