segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Rui Tavares é um pândego

Na sua crónica de hoje, Rui Tavares atribui à Bíblia, a frase "De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades", dizendo que está na parábola dos talentos.


Como o texto de Rui Tavares dá como exemplo prático da aplicação desta ideia a Wikipedia, e não sendo a Bíblia uma coisa em que eu seja versado, resolvi ir verificar na Wikipedia se a frase, ou ao menos a ideia da frase, estaria na parábola, coisa que contrariava, em absoluto, a vaga ideia que eu tinha da parábola.


«Pois é assim como um homem que, partindo para outro país, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens: a um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade; e seguiu viagem. O que recebera cinco talentos, foi imediatamente negociar com eles e ganhou outros cinco; do mesmo modo o que recebera dois, ganhou outros dois. Mas o que tinha recebido um só, foi-se e fez uma cova no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles. Chegando o que recebera cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito; entra no gozo do teu senhor. Chegou também o que recebera dois talentos, e disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito, entra no gozo do teu senhor. Chegou por fim o que havia recebido um só talento, dizendo: Senhor, eu soube que és um homem severo, ceifas onde não semeaste e recolhes onde não joeiraste; e, atemorizado, fui esconder o teu talento na terra; aqui tens o que é teu. Porém o seu senhor respondeu: Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e que recolho onde não joeirei? Devias, então, ter entregado o meu dinheiro aos banqueiros e, vindo eu, teria recebido o que é meu com juros. Tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem os dez talentos; porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem, ser-lhe-á tirado. Ao servo inútil, porém, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá o choro e o ranger de dentes.» (Mateus 25:14-30).


Encontrar aqui a ideia de uma sociedade decente se funda na exigência de cada um segundo as suas capacidades e a cada um deve dar-se em função das suas necessidades, só alguém que escreve como se representasse o povo, ou pelo menos os 99% que são explorados pelos 1%, ou mesmo a esquerda, mesmo depois de obter 39 430 votos, isto é, 0,37% dos votos em eleições livres.


Mas claro, como Rui Tavares é da corda, pode continuar a escrever coisas destas, e a ser ouvido por alguns jornais e televisões, como se dissesse alguma coisa em vez de só falar.

10 comentários:

  1. Rui Tavares deve ter ouvido falar na teologia da libertação, qualquer coisa que adapte a religião ao socialismo.

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  2. Um pândego, seja. Mas um pândego com um peso potencial absolutamente fora de proporção com os seus feitos eleitorais. Como aquelas senhoras que, perdido o pudor mais elementar, afirmam-se de facto (e fazem-no porque podem: o PREC é quando um homem - ou mulher - quiser) e consolidadamente como chefe de governo e ministra das finanças desta constitucionalíssima república.


    Vamos (ainda mais) à ruína com estes impunes pândegos. Mas está tudo muito bem assim.


    Costa

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  3. Henrique, o Rui Tavares já escreve há muito tempo, não precisou de ir a votos para isso e mesmo assim foi, o que revela coragem. É sempre corajoso dar a cara por um projeto em que se acredita, indo a votos, num partido pequeno. Foi também um bom deputado europeu, interventivo e empenhado, e não encontra muitos colegas do parlamento europeu que digam mal dele. Esse desdém só lhe fica mal. Diga-me quantos votos nas eleições tem de ter um comentador, para que mereça o seu alto respeito. 

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  4. Caro Anónimo,
    Rui Tavares afirma taxativamente uma coisa que é falsa para justificar as suas opções. E é sobre isso o post, tendo eu generalizado porque um dos artifícios retóricos mais frequentes de Rui Tavares consiste em inventar uma posição qualquer para os seus adversários, para depois demonstrar a superioridade da sua posição face à tolice dos seus adversários.
    Se leu com atenção, a referência ao número de votos aparece num contexto específico: Rui Tavares fala sistematicamente em nome dos povos, com meia dúzia de votos, desprezando, por exemplo, a representatividade de Merkel, que tem milhões de votos, como se Rui Tavares representasse mais gente que Merkel.

    Respondendo à sua pergunta final: um comentador não tem de ter um único voto para ter o meu respeito, basta que não use sistematicamente argumentos falsos, que não distorça as posições dos outros para ter ganhos de causa e que fale em seu nome, não em nome de supostos milhões.

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  5. Não entendi. Passando ao lado da diferença de opiniões entre o Henrique e o Tavares, coisa muito natural, continuo a não entender a questão dos votos. Então quer dizer que eu se disser qualquer coisa como "este governo está a prejudicar o povo" ou "o anterior governo prejudicou o povo", ou que não concordo com o que diz o governo alemão, nisto ou naquilo, não o posso fazer, porque não tenho votos suficientes, ou não tenho tantos votos como a Merkel? Não percebi o raciocínio.

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  6. O post é sobre o uso da mentira como instrumento de discussão. Que o caro anónimo queira saltar por cima do post para se fixar numa questão lateral é um direito que tem.
    Provavelmente não lê Rui Tavares com a mesma frequência que eu e por isso não terá reparado no facto de Rui Tavares não dizer que não concorda com o governo alemão (o que seria perfeitamente normal) e, pelo contrário, dizer sempre que os povos (do sul, da periferia, enfim, do que der jeito naquela crónica) estarem a ser vítimas dos interesses financeiros (ou quaisquer outros que dê jeito na crónica) defendidos pela Senhora Merkel e que ele Rui Tavares se limita a interpretar o interesse das vítimas no que escreve.
    A indigência intelectual deste recurso retórico só se aceita (em especial por parte de quem tem menos de 1% dos votos) porque é um cronista desta esquerda que do alto dos seus menos de 1% dos votos acha sempre que tem muito mais legitimidade democrática que Cavaco, que se limitou a ter mais de 50% dos votos quatro vezes.

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  7. Caro anónimo,
    Se a frase está ou não na parábola dos talentos não é uma questão de opinião: não está (já agora, embora nos actos dos apóstolos esteja a descrição de uma comunidade em que cada um recebe segundo as suas necessidades, não está lá que cada um contribui de acordo com as suas capacidades, mas sim que todos se desfizeram dos seus bens para se devotar inteiramente a Deus). E, não estando, quem disser que está, está a mentir (voluntária ou involuntariamente), e isso não é uma questão de opinião, é verificável.
    Já expliquei que a questão da representatividade, que chamei à discussão, só se põe porque Rui Tavares se arvora, de forma muito frequente, em representante de terceiros que são a maioria.

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  8. Ainda não entendeu que a discussão que estou a ter consigo é sobre a legitimidade para falar e escrever, discussão esta que, como deve entender, é muito mais séria. Mas fico então esclarecido sobre o que entende por legitimidade de falar: se eu, como atrás disse, ou qualquer outro, disser "este governo prejudica os portugueses", não o posso fazer porque isso é falar em nome de terceiros, outros que não eu, e para isso devia ter um determinado número de votos. Muito bem.

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  9. Realmente tem toda a razão, não me passou pela cabeça que a discussão fosse sobre a legitimidade de Rui Tavares escrever sobre o que entender, matéria que para mim nunca esteve em causa.
    A sua interpretação do que escrevi também tem toda a legitimidade, se se parar uma frase a meio: "pode continuar a escrever coisas destas" não tem o mesmo sentido sem o resto da frase ou com o resto da frase "pode continuar a escrever coisas destas, e a ser ouvido por alguns jornais e televisões, como se dissesse alguma coisa em vez de só falar".

    No primeiro caso eu estaria a pôr em causa a legitimidade de Rui Tavares escrever, mas lendo a frase toda, o que ponho em causa é a legitimidade dos meios  de comunicação lhe darem algum crédito (e ainda não sabia que o que ele escreve neste texto é uma mera composição do artigo da Wikipedia sobre a frase em causa, sem fazer o que um historiador sabe que é fundamental: a crítica das fontes). Ou melhor, legitimidade têm, mas eu não compreendo a utilidade disso.
    Se disser que este governo prejudica os portugueses, nada contra, mas o que Rui Tavares normalmente faz (como grande parte desta esquerda folclórica que não representa mais de 10% das pessoas) não é dizer isso, é explicar que o interesse dos portugueses é o que Rui Tavares entende que é o interesse dos portugueses. É para definir o que é interesse dos outros que os votinhos são precisos, não é para escrever o que quer que seja.

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  10. Fantástico. É que quando eu digo "este governo prejudica os portugueses", estou precisamente a dizer qual é o meu entendimento do que é o interesse dos portugueses. Eu era até capaz de jurar que quando qualquer pessoa avalia um governo, está a dar o seu entendimento sobre o interesse dos governados. Como é que eu faço agora para resolver isto, sem ter maioria pelo menos simples no parlamento, ou, pelo menos, um bom resultado nas sondagens?

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